EU ACUSO!
Diante das injustiças, revoltas e resistências, diárias e históricas Eu acuso a Igreja Católica, pela Inquisição que torturou, matou e queimou mais de quarenta mil mulheres acusadas de bruxaria. Bruxas porque detinham os saberes medicinais naturais. Porque eram mulheres que se auto-organizavam para a troca de experiências e compartilhavam os saberes ancestrais. Eu acuso os europeus colonizadores da América, e posteriormente os senhores de escravos, por todo tipo de violência que fizeram passar a mulher negra escravizada. Pela violência causada pelo eurocentrismo e intensificada nas mulheres pelo falocentrismo. Pela violação de cada corpo africano, exclusivamente feminino, pelo estupro. Eu acuso os Estados Unidos por todas as operárias mortas no incêndio dentro de uma fábrica têxtil. Ademais, por todas as mulheres que foram mortas e/ou agredidas com truculência pelas autoridades estadunidenses e também europeias em todas as ondas de reivindicações de melhores condições de vida e de trabalho feminino durante o século XX. Eu acuso o exército japonês pelo massacre de Nanquim. Pelo estupro e morte de vinte mil mulheres chinesas, incluindo crianças, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, na China. Eu acuso o Talibã por impedir o acesso feminino à educação e ao conhecimento. Por ter baleado Malala Yousafzai com apenas quinze anos. Eu acuso todos os responsáveis pelos eventos notórios de violência de gênero da história, mas também acuso todos aqueles que validam diariamente, em suas pequenas ações, o sexismo. Os que se omitem, escolhem o lado da opressão. Os que não mantêm responsabilidade com os explorados, são de bom grado para os que exploram. Esses, portanto, têm também suas mãos sujas de sangue e suas consciências carregadas de injustiças. Eu os acuso pelas meninas que ainda sofrem, nos dias de hoje, pelo mundo e pelo interior do Brasil, com as vendas de seus próprios corpos e com os casamentos forçados, que fazem com que deixem seus sonhos, autonomia e expectativas de lado e que vivam pela servidão, sobretudo sexual. Aos que pensam que os tempos atuais são tempos de muitas queixas e contestações, e aos que, desonestamente, acusam de vitimização a insurgência: os tempos não irão retroceder e as coisas, para esses, só tendem a piorar. Por fim, aos descendentes e financiadores do patriarcado, não deixo nem mesmo meu rancor. Apenas a resistência e luta feminina.
- Maria Luiza Torres Martins









