Ser muçulmana no Brasil
a título de curiosidade, já que estou mantendo um blog como diário pessoal, acho importante relatar essa peculiaridade sobre mim, me chamo Samira, tenho 22 anos e sou uma mulher muçulmana brasileira.
Comecei a me interessar pelo Islam ainda em 2020, sempre achei muito belo o uso do véu e sempre fui ligada a estudar religiões quais quer que fossem elas; no início eu estive apenas curiosa e na época entrei em contato com uma pessoa que hoje é a minha melhor amiga.
Foi um período muito conturbado, eu sofro com algumas questões mentais desde a infância (possivelmente borderline) e minha instabilidade desencadeou comportamentos muito ruins e muitos conflitos com minha família, família essa com quem perdi todo contato.Quando você não tem nada nem ninguém e nem um lugar para chamar de lar é natural que você se agarre em alguma coisa.
Nunca me dei bem com a religião espírita presente na minha família e nem com os movimentos neopentecostais igualmente presentes, em meados de 2023 passei a estudar o catolicismo romano e o ortodoxo e acabei me identificando em muitos pontos.
Há algo em comum dentre todas as religiões abraamicas que é o uso do véu e a modestia como característica social e filosófica, a alma com pudor e vergonha está menos propensa a cometer erros.
Mesmo estando bem situada no catolicismo eu ainda não me identificava com alguns pontos da doutrina e das práticas, e caso alguns não saibam alguns pontos do catolicismo ortodoxo tem forte influência dos árabes sendo essa a igreja do rito oriental.
Comecei a ter mais contato com conteúdos de outros muçulmanos e lentamente decidi que queria sim me reverter.A recitação da shahadah (o testemunho de fé) entre outros muçulmanos tem um fim mais de inclusão na comunidade e eu nunca participei de uma propriamente dita, apenas de longe.
Meu maior erro foi ter ido desde o início com sede ao pote, eu já saí usando o hijab e não sabia nem como era a etiqueta de me portar em público ou alguns costumes específicos em situações específicas.
Eu tirei o hijab e fiquei fraca na fé por muitas vezes nos últimos anos, justamente por não ter sido orientada direito e ter feito tudo sozinha.Em contraponto foi também pela hostilidade das pessoas comigo, morei por 2 anos em Santa Catarina (justamente onde comecei a usar hijab) e passei por inúmeras situações de preconceito pesadíssimas, desde pessoas me destratando no trabalho até pessoas puxando meu hijab e minha saia no transporte público, na época eu estava com uma pessoa que me desencorajava muito e eu não me animava nem pra estudar a religião.
Depois voltei para meu estado natal (São Paulo) e lá finalmente pude com calma estudar mais profundamente a religião e me inserir parcialmente na comunidade. São Paulo tem muitos muçulmanos e eu não sofri tanto preconceito como sofri em Santa Catarina, eu era operadora de caixa de uma megaloja e usava hijab e ninguém achava ruim nem nada.A única situação pesada pela qual passei foi a de uma vez em que saindo do serviço a noite eu peguei um ônibus e eu estava usando niqab (véu que deixa apenas os olhos a mostra) e um homem começou a tirar fotos comigo sem minha permissão e mostrando o dedo do meio, eu fiquei sem reação e com um pouco de medo mas foi apenas isso também, nada comparado com o que eu tinha passado no Sul.
Nesse meio tempo conheci meu noivo, que no início era só um carinha que falava árabe e mexia com programação e me passou uns PDFs de estudo da língua árabe, no final de 2025 eu fui até o nordeste ao encontro dele e pouco antes dessa viagem eu tinha deixado de usar o hijab, mas não deixado de ser muçulmana; após o episódio do niqab eu fiquei triste e desanimada novamente mas minha fé continuou a mesma, e como eu estava indo a encontro do J tive medo que a família dele não gostasse de mim por conta da religião.
No fim das contas, a família não iria gostar de qualquer jeito, e como eu disse, quando você não tem nada você se agarra em alguma coisa, minha fé me dá muito suporte emocional e espiritual, eu não sei quem eu seria sem o islam sem o alcorão sem as orações diárias não sei o que seria do meu coração e da minha vida.Mesmo com as dificuldades meu amor por Allah ainda é mais intenso do que qualquer outra dor que eu tenha passado, é solitário sim, é complicado sim mas pela fé que eu sinto tudo vale a pena no fim do dia.
Já cheguei a perder propostas de emprego aqui e ser hostilizada em público, se fosse uns anos atrás eu teria desistido mais uma vez, mas os anos de permanência na religião me trouxeram mais esclarecimentos e maturidade emocional quanto a esses casos, acho que isso vale pra todas as religiões que não são a crista aqui no Brasil também até porque pessoas de religiões de matriz africana também sofrem um preconceito pesadíssimo e mesmo assim não perdem a fé delas, budistas, bruxas,hindus
mórmons ou testemunhas de Jeová
fé é identidade é o que move muitas pessoas é um conforto, uma esperança ninguém deveria sofrer discriminação apenas por ter uma crença diferente.
Atualmente eu uso sim o hijab sem tirar ele em público e sigo todos os preceitos estabelecidos nos pilares do islam, fazendo minhas orações e mantendo meus estudos em dia, pretendo sim passar a usar niqab novamente inshallah que seja fácil para mim.
e foi isso nem sei se alguém vai ler essa bomba
um bjo
farmei aura?
não
nunca












