A xenofobia do brasileiro contra o argentino
Crescendo no Brasil, sempre foi comum ouvir comentários jocosos sobre a Argentina, muitas vezes em tom competitivo ou no contexto do futebol. Ainda assim, era comum as pessoas compartilharem com alegria os planos para visitar o país vizinho para apreciar a arquitetura, saborear vinhos e carnes, ver a neve e ter uma experiência marcante. Entretanto, percebo que nos últimos anos a conjuntura mudou bastante: os que antes eram tidos como “los hermanos” subitamente se tornaram racistas insaciáveis. Um país cujo todo nacional despreza pessoas negras e não hesita em cometer atos ofensivos e racistas, em completo desrespeito ao próximo, e em especial ao brasileiro.
Convencidos dessa premissa, os brasileiros se vêem no direito de atacar, xingar e menosprezar os argentinos, afinal, eles fizeram isso com a gente antes. Mas será que é verdade?
Considero muito curioso o fato de que as pessoas que mais fervorosamente comentam sobre como detestam a Argentina e sobre como os argentinos são intencionalmente racistas e odiosos são as que nunca visitaram o país ou, no máximo, passaram uma semana em Buenos Aires. De uma forma ou de outra, não possuem experiências próprias suficientes para julgar a cultura ou a forma de ser de uma outra nação. Então, de onde vem esse ódio?
Tenho observado nos últimos anos e especialmente em 2026 o fortalecimento de matérias jornalísticas e conteúdos anti-Argentina tanto em meios de mídia tradicional como em produções de conteúdo independentes. Tais conteúdos costumam coletar um caso de racismo que ocorreu em uma situação específica e o reverberam para fazer o leitor acreditar que aquele é o exato comportamento de dezenas de milhões de argentinos. Quando se dá um passo para trás e se reflete por um minuto, esse pensamento carece completamente de lógica. Mas os brasileiros tendem a se permitir serem levados pela emoção e acabam caindo na armadilha de simplificar demasiadamente as relações humanas, então a ideia de que “se um argentino é racista, todos são” começa a fazer sentido nas mentes que optam por abraçar o assunto em voga ao invés de refletir sobre os comportamentos que reproduzem.
Essa circunstância me faz recordar fortemente de uma das estratégias utilizadas pelo Partido no livro 1984, de George Orwell. Conforme narra a obra, o estado autoritário sob o qual aquelas pessoas viviam criava e reforçava inimigos de forma constante. Seja a Eurásia ou a Lestásia, alguém sempre odiava a Oceânia sem motivo aparente e estava pronto para atacar impiedosamente. O reforço constante deste ódio e ataque iminente por parte de outros países fazia com que os nacionais ficassem constantemente desconfiados e com medo. E a história demonstra que indivíduos com medo são capazes de cometer atrocidades irracionais.
Algumas das mais ultrajantes ações de humanos contra humanos foram a escravidão negra nas Américas e o holocausto. Olhando para esses períodos da história, é espantoso e assustador perceber que ações tão cruéis foram cometidas com amplo apoio popular. Uma das razões para isso foi o processo de desumanização prévio feito contra os negros africanos e os judeus. As fortes propagandas de que esses grupos não eram iguais e apresentavam uma ameaça iminente foi um dos fatores que colaboraram para tantos cidadãos comuns apoiarem tais atrocidades. Quando determinado grupo é convencido de que outro te odeia sem razões aparentes, te despreza e pode te atacar, se entra em um estado de defesa que aceita e apoia o ódio e o ataque, afinal, é apenas uma resposta à atitude inicial do outro grupo.
Na minha opinião, guardadas as devidas proporções, é essa circunstância que tem ocorrido com os brasileiros em relação aos argentinos. Há tanto tempo as pessoas são inundadas por reportagens e histórias de que todos os argentinos nos odeiam e são racistas impiedosos que tomaram isso como verdade absoluta - mesmo sem nunca terem presenciado uma ação racista ou xenofóbica por parte deles. E, tornando isso como verdade, os brasileiros justificam em suas mentes o ataque, o ódio, a crítica, e o menosprezo contra os nossos vizinhos, bem como se empenham na torcida eufórica e desarrazoada contra a seleção argentina. Perceber o poder da manipulação que tem sido feita e como ela tem funcionado é estarrecedor. Os grupos que estão no poder sempre se beneficiarão de uma população que age pela emoção e está em constante estado de medo, justificando o ódio e o ataque ao outro pois estão convencidas de estarem agindo em legítima defesa.
Sou uma mulher negra brasileira que mora no interior da Argentina e nunca sofri ataque ou ouvi qualquer comentário racista neste país. Apesar de ser a única pessoa negra da cidade em que moro, fui bem acolhida e sou tratada com respeito pelas outras pessoas. Em mais de uma ocasião, estranhos elogiaram a minha aparência e o meu cabelo, e nunca vivenciei um tratamento ou olhar de desprezo ou de racismo aparente. Algo que me surpreendeu bastante ao me mudar para cá foi aprender sobre a perspectiva dos argentinos em relação ao Brasil. Isso foi algo que realmente não esperava. Literalmente perdi a conta de quantas vezes um argentino - frequentemente um com quem eu não tenha intimidade -, em uma conversa informal, teve a iniciativa de falar o quanto gosta do Brasil e como o meu país é lindo. Fiquei impressionada com a quantidade de argentinos que visitam com frequência o Brasil e com a chuva de elogios que fazem. Já ouvi comentários nesse sentido de crianças, adultos e idosos, de homens e de mulheres. Quando o Brasil foi eliminado da Copa, mais de uma pessoa veio comentar comigo com pesar que ficou triste, pois gostavam do Brasil e queriam que avançássemos mais no campeonato.
Se teve algo que aprendi no tempo em que vivo aqui é que o ódio e a xenofobia que os brasileiros possuem contra os argentinos é uma via de mão única. Essa não é a forma que a maioria dos argentinos se sentem em relação ao Brasil. Curiosamente, minha experiência quando vivi na Colômbia foi muito diferente. Apesar de também amar aquele país, em um ano que morei lá ouvi mais comentários racistas que nos vinte e sete anos que morei no Brasil. Chegou um momento que preferi ignorar e fingir que não tinha ouvido certo comentário para evitar me desgastar. Mesmo assim, não me lembro de ter visto reportagens ou conteúdos enfatizando o racismo que existe na Colômbia.
Existem episódios de racismo cometidos por argentinos? Sim. Assim como existem de brasileiros e de pessoas com distintas nacionalidades ao redor de todo o mundo. Infelizmente, esse tipo de pensamento e comportamento existe (e sempre existiu) na humanidade. Mas tentar resumir toda uma nação ao racismo é injusto e irracional.
Os jogadores da seleção argentina foram acusados de racistas - com direito a reportagens especiais em jornais de grande circulação no Brasil - por falarem que os jogadores da seleção francesa são africanos. Não concordo com esse pensamento e apesar de entender a crítica, acredito que a reflexão é bastante superficial. Entretanto, me chama a atenção o fato de apenas os argentinos serem taxados de racistas ao falarem isso quando vi inúmeros brasileiros (e pessoas de outros países) fazendo o exato mesmo comentário e não serem interpretados como racistas.
Brasileiros, antes de agirem com emoção e julgarem, atacarem, menosprezarem ou odiarem toda uma nação vizinha, deem um passo para trás e reflitam por um minuto de onde vêm toda essa emoção avassaladora. Reflitam se já presenciaram alguma situação que justifique a xenofobia e o escárnio a toda uma nação. Reflitam se estão realmente agindo em legítima defesa ou se estão apenas reproduzindo um comportamento que foi incutido na mente de vocês através de uma propaganda manipuladora.
Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito. Deuteronômio 10:19.
Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis. Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos. Levítico 19:33-34.

















