Há alguns dias, tenho sofrido de um mau humor crônico, mente dispersa, na defensiva, inconformada, tomada por um sentimento quase bélico contra algo que nem entendia o que era. Durante o último final de semana, acho que descobri a fonte do desgosto.
Veio como uma avalanche de mágoa, criou um úlcera na minha alma: as palavras de ódio destinadas às mulheres. Seres humanos como eu, que, como qualquer um, possuem sangue, vísceras, qualidades, defeitos, e acima de tudo sentimentos. Esse ódio todo, pra mim, não faz sentido. O termo “feminazi”, pra mim, não faz sentido.
Negar acolhida a uma mulher vítima de violência é brutal, é mutilante, é minimizar a minha condição de ser humano. Admito que isso me atingiu, atingiu pequeno na minha alma e foi crescendo a ponto que, hoje, senti vontade de explodir. Calada, eu chorei.
Quis, em algum momento, produzir algum tipo de ameaça contundente, depois perdi a esperança e passei a existir de cabeça baixa nos últimos dias, mas sempre com o tal sentimento bélico latente. Me senti muda, engasgada com um grito de desespero.
Passei a vida inteira pedindo licença e tendo que provar o tempo todo que eu posso, eu posso, sim, existir, eu posso, sim, me destacar, e eu quero. Estou aqui, pela primeira vez, admitindo que resisto, que, sim, o machismo me magoa, me mata um pouco e me fere a cada comentário ou atitude que, sem o meu consentimento, fazem eu me sentir menor.
Isso não quer dizer que eu não resistia antes, mas isso era feito de forma instintiva. Me apercebi muito tarde do machismo e da minha condição frágil. Me fiz insistente… insistente na existência. Quantas vezes me tiraram de uma sala, e a preencheram com homens? Eu resisti, encontrei outras salas, criei a minha. Quantas vezes me colocaram pra baixo ou me fizeram engolir o choro? Eu resisti, mesmo sem entender que sentimento era aquele, do porquê ser posta pra fora se eu era igual (ou melhor) que os outros.
Eu não quero erradicar os homens, eu não quero que eles sejam varridos do planeta, destituídos de seus “colhões”, eu só quero ser tratada como gente. Não quero pagar a conta sozinha porque o útero é meu; o esperma é seu, por mais que você o deposite em mim.
Eu sou mulher, eu sou muito mulher, honro meus peitos, meu útero e minha vagina. Decidi por continuar resistindo e, com a delicadeza que me cabe, eu passarei como um trator, um trator de flor, lento e paciente. Cavarei um espaço e lá fincarei as minhas raízes, e eu vou existir, a contragosto de qualquer um, e trarei comigo quantas mulheres estiverem ao meu alcance.
Olharei nos olhos delas e direi o quanto elas são incríveis, até que elas assimilem. Não entendo de ódio, entendo de coragem, e é com ela que eu pretendo passar. É com ela que eu vou longe.
Não acredito em “nós contra eles”. Não acredito em violência, acredito em igualdade e no humanismo. Acredito em liberdade de escolha. Não vou me por aqui a amaldiçoar homem nenhum, o importante aqui é que as mulheres se descubram fortes e donas de si. Tratores de flor, e nós vamos germinar por cima de toda essa aridez de ignorância.