Capítulo 1
Tenho parado e pensado muito no que fiz na minha vida nesses últimos anos. E cheguei a uma trágica conclusão de que nada mudou. Quer dizer, mudou em relação ao meu comportamento, ao meu trabalho, minha casa e todos os relacionamentos posteriores frustrados. Caso não tenha se encontrado no tempo ainda, já aviso de antemão, cinco anos haviam passado. Cinco anos de muitas conquistas recheadas de ironia e sarcasmo. A vida às vezes, insiste em seguir em frente com coisas que não possuem a menor possibilidade de darem certo.
Cá estou eu. Sentada com uma bolinha de pelos deitado aos meus pés implorando por carinho. Mais uma vez com o notebook fervendo sob a almofada que nem era tão nova assim. Aliás, nada que estava naquele apartamento era tão novo quanto parecia. Tinha que assumir, a situação dos “tapas e beijos” saiu do meu controle e hoje, só restou-me saudades dos calorosos beijos e das carícias durante as madrugadas frias.
Saudades dos tempos de café frio com pão do dia anterior. Dos gritos quando demorava demais no banho e coincidentemente, ficava atrasada. Principalmente da companhia, e isso era o que me fazia mais falta. Todos os momentos que conseguia, ia à varanda nas madrugadas e ficava imaginando o que poderia ser de nós dali em diante. Se eu pudesse fazer com que me ouvisse, eu sussurraria: “Me entende, por favor! Entende que não há nada que esteja ao meu alcance. Foi trágico. Foi terrível. E sabe o que restou? Restou o medo, os transtornos diários e a solidão. Na última vez que fui àquela sorveteria que íamos sempre, senti uma lágrima escorrendo por lembrar-se de tudo que já fomos. Por termos nos perdido. Chorei pelas melancolias, pelas guerras diárias e pelas comemorações que passaram em branco. Sufoquei os gritos pela renúncia e pela decisão solitária que foi tomada por nós. Engoli em seco, todos os momentos que aprisionei o amor dentro de mim, para que nada terminasse enquanto estivéssemos de cabeça quente. Enlouqueci pelos sonhos dissipados e claro, pela culpa que me detém.”
Por mais que a ideia da solidão fizesse com que minha alma apodrecesse todos os dias ao levantar, eu teria que mudar. Mudar por mim! Porque aquele desdém, aquela insegurança teriam que sumir na calmaria do furacão que eu estava passando. Aquele último desabafo na última noite em que dormi naquele apartamento, aquele último tiquetaquear do relógio da cozinha, fez com que eu percebesse que a culpa foi de tudo aquilo que colocamos em decisão do destino. Culpa nossa. Só que a partir daquele desabafo, a culpa já não seria mais minha. Não mais, até porque, eu merecia muito mais, diante daquela trágica notícia de anos atrás.












