A Jade permaneceu em silêncio enquanto eu a encarava, esperando uma resposta que explicasse realmente a bicicleta do Guilherme lá em baixo, aqueles olhares trocados entre nós três e mais do que isso: o fato dele pensar que éramos um casal. Não que eu me incomodasse muito com aquilo, já que eu realmente queria que nós fossemos um casal, mas porra, eu sabia que ela não queria aquilo, então por quê mentiu pra ele?
— Jade, caralho. Me responde! – Eu disse, já perdendo a minha paciência que nem existia.
— Relaxa, Licinha, quanto estresse! Eu só falei pra ele que éramos um casal. – Ela respondeu, me olhando com a cara mais natural do universo. Como se tudo aquilo fosse muito normal mesmo.
— VOCÊ O QUE?! Pirou? – Eu realmente tomei um susto, cara, como assim ela disse que éramos um casal? Aquela garota tinha problema. Ela se aproximou de mim, chegou bem perto mesmo, quase colando nossos lábios, mas logo em seguida deu uma risada e se afastou. Caralho...
— Digamos que o Guilherme tem tara por casais lésbicos... – Ela começou a se explicar. Eu não estava acreditando naquilo. Eu precisava que alguém me dissesse que aquilo era mentira, pelo amor de Deus!
— Mas você não é lésbica, Jade. – Eu afirmei.
— Ele não sabe disso. – Ela retrucou com um sorriso malicioso no rosto. Que filha da puta!
Eu fiquei imóvel, sem reação nenhuma. Acho que aquilo foi o mais baixo que ela jogou pra conseguir alguém. Devo ter ficado uns cinco minutos encarando o além, tentando digerir tudo o que havia ouvido naqueles minutos de conversa com a Jade.
— Qual é, Alícia, não foi nada demais. Você sabe que eu quero ele e esse era o único jeito de ele me notar, pelo menos uma vez. – Ela disse enquanto mexia no seu cabelo, para se certificar que ele continuava ajeitado. Sim, continuava. Ela era linda de qualquer jeito, como eu já disse. Mas bem filha da puta. Aliás, muito filha da puta. Achei que ignorá-la e fingir que ela não estava ali era a melhor solução, quem sabe uma hora ela calasse a boca. – Alícia, não me diz que você está pensando em estragar tudo. – Pois é, pelo visto ela não ia calar a boca.
— Estragar tipo o que, Jade? Dizer que você é hétero e só fica comigo por que não tem nada melhor pra fazer no dia? Que a otária da história sou eu por realmente ser completamente apaixonada por você? Não. Não se preocupa, eu não vou estragar nada. – Eu disse a encarando, mas logo depois desisti de olhar pra cara dela e decidi focar no meu tênis.
— Obrigada, você é a melhor! – Ela sorriu e tentou me abraçar como se estivesse tudo indo às mil maravilhas, mas recuei.
— Mas não conte comigo pra isso. – Respondi, sem a olhar.
— Como assim, Alícia?
— Eu não vou continuar mentindo. Fingindo que temos algo, quando na verdade tu só quer ele. Inventa outra coisa, outra garota para namorar. Nós “terminamos”. – Respondi, dessa vez a olhando nos olhos.
— Você é tão egoísta às vezes, meu Deus! – Ela disse com voz de garota mimada, uma voz bem irritante, por sinal.
Egoísta? Eu? Aquilo fez o meu sangue ferver. O que ela podia dizer sobre ser egoísta? Que vontade de esganar ela.
— Jade... – Respondi com a maior calma do universo.
— O que?
— VAI TOMAR NO CU! – Gritei ao olhar no seus olhos, enquanto me levantava.
Não ouvi uma palavra dela enquanto batia a porta atrás de mim e descia as escadas. Eu nunca tinha me apaixonado na vida e a única vez que isso aconteceu tinha que ser justo por ela? Que merda! O destino era realmente um lixo. Ou pelo menos o meu destino era.
Nem preciso dizer que essa discussão com a Jade me custou mais alguns cigarros e menos tempo de vida útil aos meus pulmões. Decidi voltar para a minha casa, de onde eu nunca deveria ter saído aquele dia. Maldito último dia de aula.
Voltei para a minha casa e fiquei lá um bom tempo, jogada na minha cama, apenas desejando que o mundo inteiro fosse pra casa do caralho. Que acontecesse um apocalipse zumbi e a raça humana fosse exterminada. Ok, Alícia, menos. Não é pra tanto.
Eu queria poder ser como o João ás vezes. Acho que nunca o vi triste, nem preocupado. Ele estava sempre feliz, nunca pensava em nada, simplesmente fazia. Acho que era por isso que ele não se arrependia de nada, por simplesmente não tirar tempo para pensar nas merdas da vida dele. O bom humor dele contagiava qualquer um. Por falar nisso, era daquilo que eu estava precisando, de um João na minha vida.
Estiquei o braço e peguei meu celular, que havia caído no chão. Assim que o peguei, disquei o número do João, já que eu sabia que ele nunca via as mensagens que recebia, simplesmente por não se importar com elas. “Se for caso de vida ou morte, não enviariam mensagem, me ligariam. Por isso, foda-se meu WhatsApp”. É o que ele dizia e, na moral, era a verdade. Essas coisas digitais só tiraram o contato pessoal do universo.
— Qual é a emergência? – Ele atendeu, rindo disso. Só aquela brincadeira boba já me fez abrir um sorriso. Aquele cara era demais! Todos vocês deviam ter um João na vida.
— Tu pode sair hoje? – Perguntei, ainda rindo do que ele falou.
— VOCÊ JÁ ME VIU NÃO PODER SAIR EM ALGUM DIA, MINHA FILHA? CHEGO AÍ EM QUINZE MINUTOS! – Ele disse animado, como se eu tivesse convidado ele para ir até Las Vegas ganhar alguns milhões de reais. Ele nem me deu tempo de responder e já desligou, provavelmente correndo pra minha casa. Levantei para dar um jeito no meu cabelo e deixa-lo um pouco mais apresentável, quando meu celular tocou.
— Alô, João?
— SÓ UMA PERGUNTA, TU QUER QUANTO? – Por que ele estava gritando?
— Não precisa de dinheiro, João, vamos só dar um volta. – Respondi.
— Que dinheiro o que, caralho. TÔ FALANDO DE MACONHA!
— HAHAHAHAAHAH!!! – Não consegui não rir. – O mesmo de sempre.
Ele concordou e desligou rindo também. Meu Deus, eu amava o João, o melhor sem noção do universo.
Arrumei meu cabelo, como estava indo fazer antes, retoquei a maquiagem e fiquei de bobeira, o esperando chegar. Já estava escurecendo e minha mãe estava se arrumando também. Ultimamente ela estava saindo todas as noites, estranho. Mas tudo bem, não ia questionar, ela tinha a liberdade dela, e eu, a minha.
— VAMO AÍ, CARALHO! – Ouvi alguém gritar lá de baixo. João. Desci as escadas e saí, sem ao menos me despedir da minha mãe, mas tudo bem. Tinha certeza que ela não se importaria com aquilo. Comigo, aliás. Enfim...
— Hahahahaha, e aí, brother! – O cumprimentei com um toque de mão.
— Se liga só! – Ele tirou dois saquinhos do bolso, os dois com maconha dentro, bem verdinha. Era tudo o que eu mais precisava.
— Valeu cara. A gente pode ir na praia? – Perguntei
— A gente pode ir até pro inferno, desde que tu bole isso aqui pra nós. – Tive que rir novamente, adorava a espontaneidade dele.
Fomos descendo a rua em direção a praia e não demorou muito para que chegássemos lá, já que eu morava relativamente perto. Durante o caminho ele foi me contando alguma história sobre ele ter comido uma garota no quarto da avó dele, com a avó dele presente!
— Mas cara, você não pode fazer isso, é contra a lei da família! – Eu disse enquanto ria.
— CLARO QUE NÃO!! Minha avó é quase cega, tu sabe disso... Nem viu nada, não. Só uns vultos com movimentos estranhos. Eu disse pra ela que era o gato, tá ligado? – Ele gargalhou depois que disse isso.
— Hahahaha, e ela não ouviu nada não? – Eu disse, realmente gargalhando junto com ele.
— Ouviu. Aí eu disse “é vó, esse gato tá realmente bem louco, né?” – Caralho.
Eu precisava de ar. Não aguentava mais dar risada.
Enquanto estávamos lá conversando, nem percebi que já tínhamos chegado na praia. Fomos andando por ali, enquanto eu bolava o beck, como ele havia pedido. Eu não tinha bolado muitas vezes na vida, já que eu sempre andava com o Gabriel, que já me trazia bolado.
— Garçom! Traz uma coca pra acompanhar esse pastel que a Alícia bolou! – Ele disse ao pegar o baseado na mão, dizendo que ele estava mal bolado. Hahaha, imbecil.
— Hahahaha, você é um babaca. Sabe que eu só nasci pra fumar. –
Retruquei, me justificando por aquele “pastel”. Mesmo assim ele o acendeu e deu o primeiro trago enquanto caminhávamos, e logo passou a bola pra mim.
O primeiro trago que eu dei foi bem fundo e prendi a fumaça o máximo que pude em meus pulmões. Quando a soltei, não estava chapada, mas o mundo estava mil vezes mais leve e menos estressante, com certeza. Não pensava mais em problemas, mas sim em como a vida era bonita e como todos devíamos amar o mundo e unicórnios. Hahahaha. Ok, eu devia estar começando a ficar chapada. Tive plena certeza quando olhei pro lado e pensei ter visto a Luna bem ali.
— Oi! – Ela me disse, abrindo um sorriso. QUE PORRA ERA AQUELA? Minha brisa devia estar muito louca mesmo. Depois de uns sete tragos ou mais, hora de parar, Alícia. – Não sou um fantasma, calma. Sou a Luna, lembra de mim? – Ela voltou a falar, me fazendo perceber que aquilo não era uma brisa. Ela realmente estava do meu lado. A encarei por mais um tempo, tentando organizar meus pensamentos. Levem em consideração, maconheiro pensa devagar!
— Oi... Luna. – A cumprimentei, ela me parecia estar meio... Alegre. Aliás, o que ela estava fazendo por ali ? – Você está legal? Tá fazendo o que aqui?
— Bebendo!!!! – Abriu um sorriso pra mim, como se fossemos melhores amigas. Típico de bêbado.
— Opa, bebida, onde? – O João disse animado, enquanto soltava a fumaça do baseado quase na cara dela. Hahaha, João não podia ouvir “bebida, beck ou buceta”. Ele dizia que tinha problemas com a letra B. Hahaha.
— Estou ali com meus amigos, vamos pra lá!!! – Ela nos convidou. Fiquei meio receosa de ir, mas o João foi mais rápido do que eu pra responder.
— Bora! Meu nome é João. – Ele se apresentou pra ela.
— Luna. – Ela sorriu.
Ele me olhou com uma cara de “arrumei bebida, um beck e uma buceta”. Aquilo realmente me incomodou, mas tentei não demonstrar, afinal, ter beijado a Luna uma vez não significava que o João não poderia tentar nada.
Aliás, ele nem sabia daquilo. E nem ia saber, eu esperava.
A Luna apontou um pouco mais pra longe, onde vimos uma garota e um cara sentados, deviam ser seus amigos. O João logo saiu andando, na felicidade, levando meu beck embora com ele. Droga, ele ia fumar tudo sozinho. Ele foi indo na direção dos amigos da Luna e nos deixou para trás.
— Legal te ver!!! – Ela disse mais animada do que o normal. É, ela estava bêbada.
— Legal te ver também, Luna... Não te vejo desde ontem, realmente, estava com saudades. – Brinquei com ela e eu mesma ri daquilo. E ela também. Eu adorava bêbados, sempre riam de tudo.
Fomos caminhando até os amigos dela e ela nos apresentou. Nos apresentamos também e a guria me olhou com uma cara de nojo. Sei lá, talvez ela soubesse da minha “reputação”, mas tudo bem. Eu ia ser gente boa com ela.
— VAMOS VER QUEM CONSEGUE BEBER ESSA GARRAFA EM MENOS DE UM MINUTO? – O João gritou, provavelmente completamente chapado já.
— VAMOS!!! – A Luna respondeu.
— LUNA, NÃO! – A Carol, amiga dela, respondeu, imediatamente.
— JOÃO, NÃO! – Eu disse, logo em seguida. Eu e a Carol rimos na mesma hora, parecíamos pais deles... Meu Deus.
Nos sentamos ao lado de todos, formando uma rodinha, e ficamos um bom tempo conversando. Aliás, ouvindo as histórias do João. E sim, ele contou a história da avó dele, do “gato” e muitas outras. Obviamente, todos riram bastante com ele. O João tinha uma vibe tão boa que eu não sabia como não o tinha conhecido antes, perdi muitos anos da minha vida sem ele.
O tempo foi passando, todos nós rimos bastante, bebi mais um pouco e claro, o João acendeu outro beck, mas só nós dois fumamos. Parece que os amigos dela eram meio caretas. A achava tão bonitinha por andar com gente “certa”.
Por falar nela, tinha parado de interagir fazia uns cinco minutos, devia estar refletindo a teoria de conspiração do universo. Quando olhei pra ela, ela sorriu.
— Acho que eu vou andar um pouco, gente. Fui. – Ela disse isso e apenas se levantou.
— LUNA! – Gritou a Carol, que estava um tanto quanto alegre também, depois de algumas doses.
— Pode deixar, Carol, eu vou atrás dela. – Respondi enquanto me levantava. Dei uma corridinha para alcançá-la, mas consegui. – Ei, Luna. Espera aí. – Disse, conforme ia me aproximando. Ela parou onde estava e me esperou. – Posso ir com você? – Perguntei sorrindo.
— Claro que sim, somos amigas! – Ela sorriu ainda mais. Achei engraçado e bonitinho. Ela era bonitinha até quando bebia, nossa!
Andamos perto da água, mas sem molhar os tênis e ficamos em silêncio por um tempo. Eu estava morrendo de vergonha, mas ao mesmo tempo adorando estar ali com ela, mesmo sem falar nada. Não queria forçar as coisas, como sempre. Apesar de ela ter dito que éramos amigas — por estar bêbada, claro — eu não sabia se tinha liberdade para dizer algo, ou se ela realmente queria só andar. O silêncio durou uns três minutos até que ela o quebrou.
— Seu amigo me ligou hoje. – Ela disse, se referindo ao Gabriel, provavelmente.
— Eu imaginei que ele ligaria... – Respondi, enquanto chutava algumas pedrinhas conforme andávamos.
— Fiquei triste por um tempo, sabe? Me senti meio mal. – Ela disse, enquanto fazia o mesmo que eu.
— Você não tem que ficar triste, Luna. Ele é um idiota, você sabe disso. – Desviei o meu olhar pra ela ao dizer isso. Ela apenas ficou em silêncio, ainda com a cabeça abaixada e senti que aquilo era um sinal para que eu continuasse a falar, então continuei. – Ele foi um otário por ter perdido você, acredite em mim. Ele não merece uma lágrima sua, um pensamento seu, nada mesmo. Ele não merece nada de ninguém. Eu sei que ele é meu amigo, mas não quero que você pense que eu concordo com isso. Eu vou falar pra ele ficar longe, te esquecer, eu prometo. Mal nos conhecemos, mas eu não quero que você pense nele e se sinta mal. Pode parecer mentira, mas eu me importo com isso. E sabe, Luna, se eu fosse ele, jamais deixaria uma garota como você escapar dos meus braços. – Acabei falando mais do que eu deveria, com certeza. Acho que por eu ter fumado, nem ao menos pensei, as palavras só saíram. Mas garanto, todas elas valeram a pena assim que ela levantou o rosto, me olhando de volta e... Abriu um sorriso.
Puta que pariu, que sorriso era aquele? Olha, todo mundo devia ganhar um sorriso daqueles antes de morrer, com certeza. O mundo seria muito melhor caso aquilo acontecesse. Ela carregava a paz do universo naqueles dentes, não era possível. Me perdi ali.
— Alícia? – Ela me chamou, quando percebeu que eu a encarava.
— Sim, Luna. – Respondi, saindo do meu estado hipnótico.
— Posso te pedir uma coisa? – Ela falou meio arrastado, entre um sorriso e outro. E claro, depois de uns copos, todo mundo fala arrastado.
— Claro. – Respondi.
— Me dá um beijo? – Eu juro que eu quase desmaiei ao ouvir aquilo.
Puta que pariu. Eu ouvi certo ou foi a maconha? A Luna me pedindo um beijo, sério? Ali? Naquele momento? O QUE?