Logo depois que a Luna foi embora, passei o dia todo praticamente de bobeira. Troquei algumas mensagens com a Jade, brinquei com o Stitch e mensagem do...
“Acho que não te vejo faz pouco tempo, mas seria estranho dizer que tô com saudade do seu sorriso?”
Uma foto bonita apareceu no celular identificando o criador da mensagem, o sorriso do Tarik era realmente lindo. A ponto de fazer qualquer garota se derreter inteira, ainda mais com aquela mensagem que acompanhava a foto.
Qualquer garota, mas não eu.
Quero dizer, eu o amava, ele era uma das pessoas mais lindas que eu conhecia, tanto por fora, quanto por dentro, mas simplesmente não rolava. Eu estava totalmente confusa emocionalmente. Tinha a Jade, que vez ou outra aparecia na minha vida e me bagunçava; e tinha a Luna que definitivamente mexeu com a minha cabeça inteira naquele feriado.
Simplesmente não consegui responder a mensagem do Tarik, mas com certeza eu conversaria com ele no dia seguinte. Resolvi ficar deitada, ou semi morta, na cama o resto da “quase noite”.
Minha playlist estava completamente romântica, que droga! Eu estava tentando não pensar nisso, mas ficava meio difícil esquecer a Luna enquanto tocava Into Your Arms, do The Maine, no meus fones.
“Tem uma garota nova na cidade, ela tem tudo sob controle.
Bem, vou dizer algo insano...
É, ela tem o sorriso mais maravilhoso!
Aposto que você não esperava que eu dissesse isso, mas ela me fez mudar (...)”
Porra, a tradução daquela música definia ela todinha. Me peguei dando vários sorrisos bobos enquanto a música tocava. Eu queria poder falar com ela e ao mesmo tempo queria me esconder cada vez que ela olhava pra mim, eu era tão confusa! Sorte a minha não ter o número dela, assim não ia chamá-la e parecer forçar as coisas. Quero dizer, ela não saía da minha cabeça, mas ela não precisava saber daquilo. Ainda mais sendo hétero e provavelmente ainda amando o Gabriel.
Fiquei um bom tempo viajando nos meus pensamentos, quando eles foram interrompidos com o toque do WhatsApp do meu celular. Gabriel, foi só pensar nele que a praga apareceu.
“Alícia. Tá aí?”
“Oi, Gabriel.”
“Que grossa, calma. Te acordei?”
É, talvez eu tenha sido um pouco grossa. Mas ainda estava com um pouco de raiva. Sabe, o Gabriel era meu amigo, sempre foi, sempre achei ele um cara bem foda, porém ele foi bem filho da puta com a Luna. E caralho, logo com ela!
“Não, tudo bem, estava ouvindo música. Desculpa... Pode falar. Aconteceu alguma coisa?” – Respondi tentando amenizar a grosseria de antes.
“Você colou na festa ontem?” – Ele respondeu quase no mesmo instante, parecia estar bem desesperado. Eu hein, o que ele queria?
“Fui sim, legalzinha até. Casa maneira do teu amigo”
“É, é, maneira. Mas me diz aí... Tu sabe se a Luna foi? Encontrou com ela?” –
Aí sim entendi o que ele realmente queria. Filho da puta, pra ele queria saber dela?
“Não, achei que ela fosse com você” – Menti. Não sabia o que ele queria, mas apesar de ser meu amigo, não queria que ele fosse atrás dela pra magoa-la.
“É, acho que ela não foi então. Valeu, Lícia!” – Ele me respondeu com essa mensagem e preferi não dar continuidade.
Não conseguia não gostar do Gabriel, nunca me importei com ele iludir as garotas ou não. Até porque, achava que se eu fosse homem e bonito, faria o mesmo. Mas daquela vez foi diferente...
Não demorou muito pra chegar outra mensagem dele. Porra, ele não calava a boca não? Vai ver pornô, Gabriel!
”Acho que o celular dela está desligado... Se você esbarrar com ela por aí, diz que eu tô com saudade do sorriso dela e quero ver ela. Quebra essa pra mim, Lícia?”
Porra, eu não estava acreditando que ele teve a capacidade de falar aquilo. Caralho, Gabriel...
Obviamente eu respondi que tudo bem, já que ele não sabia que eu tinha o visto e que a Luna também viu tudo. Mas claro, eu não falaria nada pra ela, pretendia não tocar no nome dele com ela novamente. Aliás, eu nem sabia se eu ia trombar com ela novamente sem sentir uma falta de ar e uma vergonha tremenda.
Apenas respondi o Gabriel com um “tudo bem” e voltei para os meus pensamentos. Enquanto a Jade me mandava algumas fotos um pouco... Bem, caralho! Ela sabia que era gostosa e fazia pra me provocar, não era possível.
Aliás, nós nem estávamos falando daquilo, estávamos conversando normalmente como amigas, pois apesar dos beijos constantes, éramos amigas. Mas foi só eu comentar sobre a Luna e como eu a achava legal que a Jade me enviou aquelas fotos com a desculpa de “ei, vê se essa calcinha que eu comprei não ficou muito pequena?”. Com certeza tinha ficado pequena.
Mas aquela foi a última coisa com a qual eu me importei. Mas obviamente não deixei isso transparecer, não sabia qual era a dela mas: melhor não.
Resolvi dormir depois que a conversa com Jade ficou baseada em ela querer que eu dissesse o quanto eu a achava bonita... Às vezes eu achava a Jade tão fútil, mas simplesmente não conseguia largar ela. Êh coração idiota!
(...)
Acordei no dia seguinte com meu despertador, o qual eu não me lembrava de ter colocado. Mas tudo bem, não reclamei de acordar cedo, afinal: finalmente era o último dia daquela porra de escola. Amém! Eu estava realmente precisando de férias.
Me arrumei com uma calça jeans qualquer assim que saí do banho, fiz um coque com o meu cabelo por pura preguiça de ajeitar os cachos, coloquei minha camiseta branca com o logo do colégio — uma das pouquíssimas vezes que veriam Alícia Berard de uniforme, já que eu achava aquilo algo completamente desnecessário. Peguei meu celular e nele tinham algumas mensagens de grupos não importantes e mais umas três do Tarik.
“Morena, acordada?” – 03:18 da manhã. Óbvio que não.
“Tô pensando em você” – 04:02. Ele não dormiu não?
“Vai pra aula hoje ou...? Me responde. Tudo bem?” – 04:12. Depois daquela ele devia ter dormido.
Não vi necessidade de responder aquelas, já que eu estava a caminho de encontrar com ele na aula. Assim que cruzei o portão da escola, a Jade me abraçou, mas de um jeito diferente. Como se fossemos um casal, ela me abraçou pegando minha cintura. Achei bem estranho e demorei pra abraçar de volta, mas o fiz. Assim que ela me soltou, pegou minha mão e pude ver que uns garotos nos olhavam, inclusive o cara da sala que ela estava afim.
— Jade. – Interrompi aquele momento estranho soltando a mão dela.
— Fala, amor. – Ela respondeu, me olhando com uma cara sexy. O que?! E... Amor?!
— Ham? O Guilherme tá olhando pra cá. Que coisa estranha. – Eu disse tentando não focar na cara dela.
— É, eu sei. – Ela abriu um sorriso satisfeito e em seguida, olhou em volta com a mesma expressão sexy que havia feito pra mim. O que me deu vontade de agarra-la ali mesmo.
— Então para com isso. Ele vai achar que a gente se pega. – Respondi tentando me afastar, mas logo fui interrompida. O sorriso dela ficou ainda maior quando ela ouviu o “ele vai achar que a gente se pega”. Eu com certeza não estava entendendo nada.
— Deixa ele achar. – Ela fez como quem não ligava muito, mas não sei... Não botei fé. Em seguida ela me deu um selinho. Em público. O que estava acontecendo com o universo naquela manhã?
Retribui o selinho, obviamente, porém, péssima hora para ter feito aquilo, já que o Tarik cruzava o portão de entrada bem naquele exato momento e me olhou com uma cara não muito legal. Puta que pariu. Soltei a Jade quase no mesmo momento.
— É, vamos pra sala, já vai bater o sinal. – Eu disse andando um pouco mais a frente, tentando alcançar o Tarik que andou em disparada até a sala de aula.
A Jade pareceu sorrir pro tal Guilherme e logo depois me seguiu. As aulas correram normalmente e quer vocês acreditem ou não: eu passei direto!
— Caralho, eu passei direto! – Comemorei em voz alta, assim que o sinal para o intervalo bateu.
— Parabéns, Alícia. Está conseguindo o que queria. – O Tarik disse olhando pra mim, mas não com uma cara de bravo. E nem em um tom bravo. Mas eu sinceramente não sabia se ele se referia às minhas notas ou à Jade. O mundo estava quase entrando em colapso naquele dia, meu Deus!
Ele se levantou e enquanto passava em direção à porta eu o segurei pelo braço, mas não de forma bruta, fui bem delicada, até mesmo no modo de falar.
— Ei, Tata, podemos conversar? – Eu disse com a voz suave, enquanto olhava nos seus olhos. Ele pareceu respirar fundo antes de finalmente concordar e me seguir pelas escadas, até passarmos pelo pátio e chegarmos nos fundos da quadra, onde nos sentamos, um do lado do outro.
— Você não respondeu minhas mensagens... – Ele disse, mas sem olhar pra mim, apenas focado nos seus tênis. Sua voz não era de alguém bravo, mas também não estava feliz. Porra, não queria magoar o Tarik. Droga!
— Tarik, eu não sabia o que responder... – Eu disse olhando pra ele, mas logo desviei o olhar pro chão ao ver que ele não me olhava de volta. Ele ficou alguns minutos em silêncio, os minutos mais agonizantes da minha vida. Fala alguma coisa, pelo amor de Deus!
— Aposto que as mensagens da Jade você sempre sabe o que responder, não é? – Ele me quebrou com aquela frase, pois pareceu bem triste ao dize-la. Eu fiquei sem palavras, mais uma vez. Foi a minha vez de ficar em silêncio, por um bom tempo.
— Hein, Alícia? Com a Jade você sempre sabe o que fazer. – Ele parecia um pouco mais triste e mais bravo dessa vez. – Vai, Alícia, você vai ficar calada aí? Me responde! Por quê? – Dessa vez ele falou bem mais bravo, talvez meu silêncio estivesse o tirando do sério.
— PORQUE EU GOSTO DELA, PORRA! – Acabei gritando, como impulso ao ser pressionada por ele. Ficamos nos encarando por mais um tempo, até que eu visse o olhos dele se encherem de lágrimas, mas não, ele não chorou na minha frente. Nem disse mais uma palavra sequer, só voltou a abaixar a cabeça. – Tarik, eu... – Ele mal me deixou falar, apenas levantou e se virou, provavelmente antes que chorasse na minha frente. Corri para alcançá-lo e antes que ele pudesse cruzar a quadra, o segurei. – Tarik, cara, eu te amo pra caralho, eu juro. Mas é como amigo, como irmão. Me perdoa se eu não pude corresponder o que você sente. Você é a melhor pessoa que eu conheço. – Minha voz começava a ficar misturada com a vontade de chorar a cada palavra pronunciada. Ele só se soltou das minhas mãos e ficou parado, me encarando. Acho que eu devia continuar falando. – Tarik, por favor! – Meus olhos com certeza estavam prestes a deixar muitas lágrimas caírem, mas me segurei. Porém, foi impossível continuar segurando quando ele se virou e foi embora.
Puta que pariu, eu era muito imbecil! Eu ia conversar com ele, mas numa boa... Não era pra ter gritado. Mas ele me pressionou. Caralho, Tarik. Eu tinha acabado de deixar uma das pessoas que mais me importava no mundo, ir embora. Que último dia de bosta!
Enquanto via ele se misturar no meio do pessoal, fiquei ali, parada. Eu não conseguia ter nenhuma reação, nem gritar, implorar pra ele ficar. Aliás, ele não queria ficar. Seria muito egoísmo da minha parte o segurar depois de ter o magoado. Mas eu juro, a última pessoa no mundo que eu queria e esperava magoar, era o Tarik. Eu estava me sentindo a maior filha da puta de todo o universo.
Assim que o sinal bateu, voltei pra sala, e enquanto subia as escadas, vi a Jade e o Guilherme conversando, encostados na parede. Os dois riam e conversavam como se fossem amigos há décadas...
Eu realmente não sabia qual era a dele. Ou pensando bem, não sabia qual era a dela. Não sabia qual era a de ninguém naquela porra daquela escola.
O garoto com a Jade me olhou e pareceu dizer algo pra ela, que concordou, se despediu, e veio na minha direção, se pendurando no meu pescoço enquanto eu ia em direção a porta da sala.
— Jade, agora não. – Respondi, tirando seus braços do meu pescoço. Mas ela se aproximou novamente quando o garoto chegou perto e me deu outro selinho. Dessa vez não retribuí, seja lá o que ela queria com aquilo, eu não estava com cabeça. Pra minha surpresa, quando entrei na sala, a carteira do Tarik estava vazia e a mochila dele não estava mais lá.
— Ele foi embora. – Respondeu o Guto, um garoto amigo dele, um dos nerds da sala, assim que me viu toda confusa olhando para a carteira vazia.
— Puta que pariu... – Eu pensei alto.
— O quê? – Perguntou ele, sem entender.
— Não, nada. Valeu, Guto. – Agradeci com um sorriso quase invisível e me sentei.
As duas últimas aulas passaram se arrastando, mas enfim, quando ouvi o sinal, eu estava livre! Peguei minha mochila e estava descendo as escadas depressa quando... Jade outra vez!
— Lícia. Espera aí! – Ela gritou atrás de mim. Parei no pátio ao terminar de descer e esperei ela chegar até mim.
— Quer ir lá em casa hoje? Ver um filme, sei lá. Tô com saudade. – Ela disse com uma carinha muito fofa, enquanto segurava meu pescoço. Eu não ia ter coragem de ir atrás do Tarik e ficar em casa chorando não ia adiantar muita coisa, então eu topei.
— Passo por lá de tarde. Mas agora preciso ir. – Me despedi e segui meu caminho de volta pra casa. Mas antes, outro selinho. Aquela garota estava muito estranha.
Fui pra minha casa e quando cheguei minha mãe estava lá, tentei passar direto, mas foi inevitável.
— Alícia. – Ela disse, do sofá da sala.
— Sim? – Respondi com os pés na escada, pronta pra subir.
— Quem era? – Ela perguntou.
— Quem era onde, mãe? – Do que ela estava falando?
— A garota que você trouxe pra casa. – Puts. Ela estava em casa quando levei a Luna, caralho, viu.
— Ah, uma amiga, mãe. A Luna, ela é gente boa, mas não vai voltar, relaxa. – Respondi, agoniada. Torci pra ter disfarçado bem. Amém!
Ela me olhou, desconfiada, mas deixou passar. Subi pro meu quarto e fui tomar outro banho, como estava calor, uma simples andada de vinte minutos até em casa já me fazia suar. Tomei um banho bem gelado, ao som de Justin Bieber, por incrível que pareça. Mas qual é, o garoto mandava bem com uns remixes novos dele. Fiquei um bom tempo lá e só lembrei de sair quando vi uma bolinha de pelos quase entrando no box. O Stitch era uma figura. Hahah, tão fofo!
Fiz o favor de o retirar de lá, para que não se molhasse e saí também. Coloquei uma de minhas roupas para sair, já que as de ficar em casa estavam quase todas usadas, passei uma maquiagem leve — nada além de lápis, rímel e base para esconder algumas espinhas.
Minha blusa era algo parecido com cropped, porém, rasgadinha nas costas, eu a amava.
Dei tchau pra minha mãe, que já estava caída no sono quando eu saí, amém... Sem mais perguntas constrangedoras sobre a Luna.
Acendi uns três cigarros enquanto ia até a casa da Jade, incrível como minha vontade de fumar aumentava quando eu estava nervosa. Todos nós recorremos a vícios quando estamos nervosos ou ansiosos, sejam eles comidas, amores, ou, no meu caso, cigarros. Cada um pede socorro e procura sua paz naquilo que acredita lhe dar retorno e ultimamente, pessoas não estavam me retornando... Pelo menos cigarros não reclamavam.
Quando cheguei lá, vi uma bicicleta encostada no portão do prédio, presa a um cadeado. Eu já havia visto ela antes, com certeza, só não me lembrava onde. Mesmo assim, toquei o interfone e não demorei muito a subir... Ao me aproximar da porta, ouvia algumas risadas, mas não só a da Jade, havia uma outra. Assim que a abri a porta, pude ver.
— Guilherme?! – Perguntei um tanto surpresa ao vê-lo sentando no sofá.
— Oi, amor! – Respondeu a Jade, enquanto ele me encarava. Ela mais uma vez se debruçou em mim, me abraçando como nunca fez antes.
— Oi, Alícia... Tudo bem? – Ele sorriu, simpático, levantando também.
— Tudo, o que tu faz aqui? – Não quis parecer grossa, mas eu estava bem curiosa.
— Nada, passei pra conversar sobre o trabalho de Biologia que fizemos.
Tiramos uma nota bem alta, vim agradecer a Jade, sem ela eu não teria passado de ano. – Ele continuou simpático, mas dessa vez, só olhando para ela. Um silêncio pairou pelo ar enquanto ele a encarava, sorrindo, e eu estava nos braços dela, sem entender porra nenhuma. Assim que ela percebeu esse silêncio, segurou meu rosto com as duas mãos e deu um sorriso, antes de morder meus lábios e me dar um selinho.
— Bom, eu vou indo nessa, Jade... Valeu pelo trabalho, e vocês fazem um casal muito lindo. – Ele disse, enquanto ia em direção a porta, esperando que ela fosse fecha-la, e ela o fez. Se soltou de mim e foi se despedir dele.
Eu realmente não entendi porra nenhuma, menos do que antes. Casal, o que? Assim que ele foi embora, ela voltou e se sentou um pouco mais longe de mim, totalmente diferente, enquanto procurava um filme na televisão.
— Ele é muito gato, não é?! – Ela disse animada, mordendo os lábios, enfatizando o que acabara de dizer.
— Não vejo nada demais. E que história é essa de “vocês fazem um casal muito lindo”, Jade? – Perguntei a encarando, totalmente confusa. Ela gargalhou na mesma hora, como se algo que eu não estivesse entendendo fosse totalmente engraçado. Que ódio eu ficava quando as pessoas faziam aquilo.