A Lua
O planeta Terra, em sua existência milenar, mais uma vez enfrentou uma catástrofe: a pandemia de Covid-19. Hospitais se transformaram em cenários de guerra, profissionais da saúde lutavam contra o burnout e o medo, fazendo das tripas coração para salvar o máximo de vidas que pudessem. Mães, pais e filhos, homens e mulheres, adultos e crianças, todos sem exceção foram atingidos diretamente — contraindo a doença — ou indiretamente - com o decreto de quarentena e outras restrições por mais de um ano — pelo vírus que até hoje carrega controvérsias sobre sua verdadeira origem, beirando desde teorias da conspiração a um mero acidente. Depois da primeira vacina anunciada, a vida da humanidade voltou aos trilhos da normalidade aos poucos. Mas para Joana, nada mais foi o mesmo. Embora, felizmente, ela não tenha perdido nenhum familiar ou entrado num estado depressivo por conta do isolamento forçado — sabia que algo estava errado, e não era consigo mesma ou com as pessoas ao seu redor.
Era com a Lua.
Joana passou muito tempo a observando durante a quarentena. Pela janela do seu quarto no segundo andar da casa ela contemplava o caos causado pela pandemia, e à noite, a luz lunar iluminava a escrivaninha onde ela documentava aquele período desastroso em seu diário. Também fazia anotações sobre a própria Lua - um novo interesse descoberto no confinamento -: como ela estava naquela noite, qual seria sua influência nos oceanos e mares do mundo, fases e até mesmo contos antigos envolvendo o satélite. Então sim, ela sabia que algo estava muito errado. A crença de sua infância em que a Lua a seguia estava se tornando real. Ela sentia que aquela rocha espacial estava observando-a, mesmo de dia, aparecendo timidamente entre as nuvens apesar do sol radiante, e à noite essa sensação se intensificava pois na escuridão, Selene se destacava e cumpria sua missão: iluminar os caminhos das criaturas noturnas. Ela tentou rir de seu pensamento bobo, dizendo que era apenas o cansaço ou o deslocamento social após um período sem contato com outras pessoas. Joana sempre olhava para o céu em busca da presença do que um dia já foi seu objeto de observação. Seu hábito de sempre verificar como o disco prateado estaria naquela noite também se intensificou numa tentativa de se esconder do astro o melhor que pudesse. Nas noites em que a Lua era cheia, Joana fechava as cortinas para fugir do brilho prateado, mas a luz penetrava pelo tecido e se estendia até a cabeceira da cama como uma mão tenebrosa e de unhas grandes, tentando alcançar os cabelos castanhos de Joana num afago medonho. Enquanto o resto do mundo se desprendia do pânico da pandemia, Joana se tornava mais reclusa e temerosa para sair de casa como se algum demônio a estivesse esperando depois da porta de casa. Seu desconforto transparecia em seu rosto que já fora sereno e belo, e agora estava marcado pelo medo; as bochechas grandes haviam desaparecido, dando lugar às saliências dos ossos, seus lábios que despertavam o desejo de vários meninos estavam ressecados, e olheiras profundas decoravam seus olhos castanhos dando um tom melancólico para eles. Seus pais, colegas e até mesmo a psicóloga desacreditaram quando ela contou o que estava acontecendo, Joana sabia que aos olhos deles, ela estava enlouquecendo — que “merecia atenção psiquiátrica”, dizia a psicóloga.
A solidão de carregar uma ameaça invisível pesava mais do que a ameaça em si. Se não estivesse vivendo aquilo, ela também jamais acreditaria se alguém lhe contasse que estava sendo perseguido pela Lua.
O terror começou a tomar seus sonhos. Acordava subitamente nas madrugadas, suando frio e com o coração acelerado. Nos sonhos, a Lua era diferente: a luz prateada era cegante, o que tornava mais bizarro a face estranha que surgiu em Luna, traços que Joana reconheceu como humanos mas as proporções lhe causavam estranheza — olhos grandes que ocupavam todo o círculo lunar, mas um era perfeitamente redondo e o outro estreito e inclinado; as pupilas eram pequenas demais e não estavam alinhadas, dando a impressão que observavam direções distintas. As narinas eram assimétricas, e a boca, larga demais e exibia um sorriso artificial e permanente com dezenas de dentes perfeitamente finos e alinhados. As orelhas ficavam em posições diferentes. Joana sempre se encontrava numa espécie de gaiola, como se aquela figura extravagante e medonha fosse um ser humano observando a tristeza de um passarinho enjaulado. Sim, era assim que Joana se sentia desde que tudo aquilo começou: um passarinho na gaiola sendo observado pelo meliante que a capturou.
Dessa vez, parecia mais real. A Lua, ou o que quer que fosse aquilo, movia a bocarra em sílabas que Joana não conseguia decifrar. O olho mais estreito agora estava arregalado, e as narinas dilatadas. O brilho que cegava começou a diminuir e a gaiola balançava como se estivesse acontecendo uma forte ventania. Mas ali não tinha vento, chuva ou qualquer outro fenômeno, era apenas ela e a criatura que fingia ser a Lua. Ou aquela seria a verdadeira forma do satélite? Se não fosse tão desesperador, Joana comemoraria por ter descoberto o “outro lado da Lua” que tantos cientistas gostariam de registrar numa fotografia. Segurando nas grades para se manter firme, Joana esperava acordar logo daquele pesadelo, e prometeu a si mesma aceitar que estava ficando louca e procuraria ajuda psiquiátrica. A criatura, contrária aos planos de Joana, começou a girar numa velocidade que causou tontura aos olhos de Joana. Ela estranhou e um medo profundo se instalou em seu interior: a Lua se mantinha imóvel o tempo todo, e por que agora ela estava se movimentando daquela forma? A luz estonteante estava se apagando como uma lâmpada velha em curto circuito, e a gravidade causada pelo giro da Lua provocava movimentos ainda mais bruscos na gaiola e Joana se segurava com toda a força que seu corpo magro e cansado ainda possuía. Pedaços rochosos começavam a se soltar da Lua, grandes e pequenos, voavam com toda força em todas as direções, naturalmente atingindo Joana. Um filete de sangue quente escorreu da testa, passando pelo olho esquerdo.
E ali, Joana percebeu: ela não iria acordar. O cérebro humano não consegue reproduzir a morte.






















