A mulher que talvez tenha escolhido. por Julio Vicari, 30 de junho de 2026.
Talvez ela tenha desistido de estudar ou talvez apenas tenha entendido, cedo demais, que algumas batalhas exigem escolhas que ninguém deveria precisar fazer. Quem sabe os livros tenham ficado para depois... um depois que nunca chegou. Talvez também tenha desistido de formar uma famÃlia, não porque lhe faltasse amor, mas porque existiam lembranças que pareciam perigosas demais para serem revisitadas. Talvez tenha jurado, em algum momento de dor, que nunca mais voltaria ao lugar de onde saiu. E talvez tenha cumprido essa promessa por toda a vida. O restante... talvez tenha sido trabalho.
Dias que começavam antes do amanhecer e terminavam quando o silêncio já tomava conta das ruas. Casas que não eram suas, mas que, de certa forma, acabaram fazendo parte da sua história, ou talvez fosse ela quem pensasse que fazia parte delas. Em algumas, talvez tenha sido recebida como alguém da famÃlia, sentando-se à mesa em ocasiões especiais, lembrada no aniversário, escutando um "como você está?" que parecia ser sincero. Em outras, talvez tenha sido apenas mais uma presença silenciosa, daquelas pessoas que mantêm a casa funcionando, mas que quase nunca são percebidas enquanto estão ali. Ainda assim, talvez nunca tenha deixado de cuidar.
Talvez fosse teimosa, respondona, debochada ou talvez reclamasse quando achava necessário. Talvez risse alto por qualquer motivo e transformasse um dia comum em um dia mais leve. Talvez carregasse um jeito simples de conquistar as pessoas, sem perceber que fazia isso. E então, chegou em nossa casa, ou talvez nossa casa tenha chegado até ela por uma oportunidade. Ali, os anos passaram quase sem serem notados. Talvez as crianças tenham crescido acostumadas com sua presença. Talvez os adultos tenham aprendido a confiar nela. Talvez os vizinhos a cumprimentassem pelo nome verdadeiro, pelo seu apelido ou por um nome que tinha a sua cara. E, pouco a pouco, o vÃnculo de trabalho talvez tenha se transformado em algo que não cabia mais em nenhuma definição. Todas as escolhas trazem resultados, na mente, no corpo, na caminhada.
Quando chegou o seu dia, dia de partir, talvez ela não esperasse que tantas pessoas iriam sentir tanto. Alguém cantou uma canção. Outro fez uma oração. Talvez ocorreram abraços demorados, palavras embargadas, olhos marejados. Talvez a saudade tenha aparecido em corações antes mesmo da despedida terminar. E talvez, naquele instante, entre a terra e o céu, ela tenha percebido que algumas escolhas não apagam os sonhos, apenas desenham caminhos diferentes.
Talvez não tenha recebido um diploma, não tenha construÃdo a famÃlia que um dia imaginou, nunca tenha voltado ao passado que deixou para trás por medo, tristeza. Mas talvez a vida, silenciosamente, lhe tenha dado outra forma de pertencimento, porque há pessoas que passam pelos lugares e há aquelas que, sem perceber, permanecem nesses lugares e nos corações. Talvez ela nunca tenha compreendido a dimensão da própria importância, mas, se as homenagens, os cantos, as orações e as lágrimas dizem alguma coisa, é que sua maior obra talvez nunca tenha sido aquilo que fez. Talvez tenha sido simplesmente a pessoa que escolheu ser, todos os dias, na vida de quem cruzou o seu caminho. Talvez….
Que a Luz e o Amor te acompanhem.