O céu estava claro naquela tarde fresca de sábado. O sol brilhava no alto, aquecendo a qualquer um que estivesse ao seu alcance com um calor reconfortante, trazendo uma sensação de aconchego que só era reforçada pela brisa leve que surgia de vez em quando.
O parque naquele dia estava relativamente cheio, famílias de todas as formas aproveitaram o calor repentino no meio do frio de julho para curtir um pouco de ar livre. E, exatamente por isso, a mulher se encontrava sentada em um dos muitos bancos daquele lugar. Não aguentava mais ficar em casa, sentia que a qualquer momento poderia explodir, fosse de estresse ou tristeza, o que viesse primeiro.
Saiu tão repentinamente que sequer havia avisado alguém da família, mas não se arrependia. Caso tivesse comentado, certamente não lhe dariam a paz que tanto procurava, chamando-a a cada minuto por qualquer coisa diferente que fosse. Sentia-se exausta, desanimada com tudo ao seu redor, mas continuava seguindo em frente, pois tinha responsabilidades a cumprir.
Porém, seu coração doía ─ e provavelmente era o maior responsável por todo o desconforto que a mulher sentia ─ e ela não sabia o que fazer para que se distraísse e esquecesse o que sentia.
A dor da mentira estava esmagando o seu interior. Tinha dias que não dormia direito, rolando de um lado para o outro na cama, pensando incansavelmente, tentando entender o que estava acontecendo, como se deixara levar de novo por aquelas doces palavras que escorriam como veneno daqueles lábios que sempre lhe foram tão bonitos e graciosos. Havia dias que ela sequer tinha forças para se levantar da cama, sentindo tudo girar e girar e girar, sem pausa, sem pena. Nestes dias, era especialmente difícil não chorar. A dor lhe consumia de tal forma que até sua respiração era sofrida.
Mas, ao contrário do que as pessoas ao seu redor pensavam, ela não estava superando nem nada parecido. Muito pelo contrário, ela estava apenas se tornando cada vez mais anestesiada ─ a tal ponto que não tinha muita diferença entre o estupor e o vazio, tudo era igual e indiferente.
Sentada ali, naquele banco de parque, a dor da desilusão bateu de novo e ela não pôde reprimir seu choro silencioso ─ não haviam mais forças para soluçar alto ou emitir qualquer outro barulho, apenas deixar as lágrimas escorrerem era o suficiente para lhe drenar todas as suas energias.
A mulher ficou desse jeito por um longo tempo, sem se importar se alguém a notaria ou não ─ mesmo sabendo que, no máximo, olhariam pra ela de forma estranha e seguiriam com suas vidas. Mas sentiu-se surpresa quando uma pequena mãozinha lhe puxou a barra do vestido florido que usava, atraindo o olhar que antes era fixo nas árvores para baixo.
"O que você tanto olha moça?" uma voz fininha e infantil se dirigiu à ela, que ficou atônita e procurou ao redor o responsável da criança, esperando encontrá-lo e se certificar de que a pergunta não havia sido para ela. Mas bastou um breve olhar para entender que era consigo que a pequena criança estava falando.
"Eu.... eu não sei... cadê seus pais?" a sua voz soou trêmula e triste aos ouvidos da pequena menina, que apenas ignorou a pergunta feita, como se isso não tivesse importância alguma, e se sentou ao lado da mulher.
"Sabe, meu pai sempre diz que aqui tem muitas borboletas moça, mas eu nunca vi. Você também ta procurando as borboletas?"
"Ahn eu não sabia que aqui tinham borboletas, desculpa" a mulher apenas se desculpou com a menina , buscando uma forma de encerrar a conversa que sequer era pra ter começado. A pequena apenas soltou um muxoxo, como quem estava desapontada com a resposta, pois esperava mais informações da mulher ao seu lado.
"Onde você acha que elas estão moça? Minha irmã falou que elas estão dentro da nossa barriga, mas eu não quero comer borboleta!" a expressão da menina era, de certa forma, engraçada para a mulher. Transmitia uma pureza que apenas crianças são capazes de ter.
"Eu não acho que a gente tem que comer a borboleta" a menina voltou a falar , mas com uma voz mais baixa "Se não ela morre... Eu só quero olhar pra ela...."
A mulher, no entanto, ficou em silêncio, sem saber o que dizer pra menina. Se haviam borboletas no estômago, todas as suas morreram fazia tempos.
"Sabe moça, eu acho que a borboleta só se cansou de ficar aqui, voando e voando sempre pras mesmas pessoas e foi embora, por isso eu nunca vi nenhumazinha!
"Porque você diz isso?" a voz da mulher soou casada, mesmo após um longo momento de silêncio.
De repente uma voz de mulher, mas dessa vez adulta, surgiu, cortando a fala da menininha "Violeta! Finalmente te achei! Eu e seu pai estamos te procurando tem um tempão! Onde você se meteu?" foi só então que a mãe da criança pareceu perceber a mulher sentada ali, "Ai desculpa o incômodo viu? Vem filha, vamos encontrar seu pai" e saiu puxando a menina pela mão, que acenou com a outra.
A mulher ainda ficou um bom tempo sentada no banco depois que a menininha foi embora, mas tudo estava estranhamente mais suportável. O que ela ouviu ficou dando voltas em sua cabeça, e até lhe trouxe um pouco de paz.
Ao partir, ela teve a certeza de que tudo ficaria bem, ela só precisava ter paciência pois, assim como as borboletas, ela não tinha morrido.