Quando ninguĂ©m te ouve, ninguĂ©m te vĂȘ, e vocĂȘ começa a questionar a prĂłpria existĂȘncia
Aquele momento em que vocĂȘ fala⊠e ninguĂ©m responde. Naquele momento em que vocĂȘ estĂĄ desesperada, soluçando de chorar... e ninguĂ©m nem olha para vocĂȘ, para nĂŁo te ver.
Existe um tipo de sofrimento que vai alĂ©m da dor, que chega a ser uma tortura emocional que pode levar horas, dias, semanas e talvez nunca nem acabar: Ă© aquela sensação de "o que aconteceu?" quando vocĂȘ fala com alguĂ©m que tem grande significado na sua vida, e nĂŁo recebe absolutamente nada de volta. Quando vocĂȘ explica coisas que sĂŁo muito importantes, tudo Ă© ignorado e nada Ă© escutado. Quando vocĂȘ faz perguntas para as quais precisa tanto de respostas, nada nunca chega. Quando vocĂȘ existe, e, mesmo assim, Ă© solenemente ignorada, e começa a realmente duvidar se de fato sua existĂȘncia Ă© real.
E isso não acontece uma vez: acontece repetidamente. Acontece com vårias pessoas - às vezes vårias vezes com a mesma pessoa, até. E, o mais triste: acontece com as pessoas mais próximas a nós.
O impacto devastador de ser ignorada repetidamente
Sim, Ă© de fato devastador, para dizer o mĂnimo.
No começo, vocĂȘ tenta mais. VocĂȘ explica mais, e melhor. VocĂȘ insiste. VocĂȘ tenta encontrar outra forma de se expressar, de ser entendida, de causar qualquer impacto na pessoa.
Depois de um tempo, vocĂȘ começa a duvidar â nĂŁo sĂł dos outros, mas de si mesma, da realidade.
Quando a realidade começa a quebrar
Chega um ponto em que nada disso faz mais sentido, parece uma cena de um filme absurdo, uma ilusĂŁo totalmente paranoica.
E entĂŁo, vocĂȘ começa a se perguntar:
âeu estou falando mesmo?â
âisso realmente aconteceu?â
âeu estou exagerando⊠ou estĂŁo mesmo fingindo que nĂŁo aconteceu?â
E isso vai ficando mais profundo. Mais confuso. Mais assustador.
E por fim, chega o absurdo dos questionamentos
Chega um momento em que as dĂșvidas nĂŁo sĂŁo mais sĂł emocionais - elas virem existenciais.
VocĂȘ começa a questionar coisas que nunca deveria questionar:
âeu existo de verdade?â
âou estou em um pesadelo que nĂŁo acaba?â
âou estou tendo uma crise psicĂłtica?â
âou jĂĄ morri e estou aqui, falando⊠sem que ninguĂ©m consiga me ouvir?â
E nĂŁo deveria questionar porque nĂŁo existe resposta â sĂł silĂȘncio.
E o silĂȘncio, repetido, destrĂłi e tortura - a mente e a alma
Ser ignorada uma vez machuca. Ser ignorada constantemente⊠desestrutura uma pessoa e sua mente completamente. VocĂȘ perde referĂȘncia. Perde chĂŁo. Perde a confiança na prĂłpria percepção.
Porque tudo o que vocĂȘ vive Ă© tratado como se nĂŁo fosse real.
E isso nĂŁo começou agora. Isso tem raiz, isso vem de muito antes. De quando vocĂȘ ainda estava aprendendo o que era o mundo.
E ser ignorada na infĂąncia nĂŁo fica na infĂąncia
Infelizmente, posso dizer isso por experiĂȘncia prĂłpria: quando uma criança Ă© isolada, negligenciada, deixada sozinha emocionalmente⊠ela aprende que nĂŁo Ă© vista. Que nĂŁo Ă© ouvida. Que nĂŁo importa.
E essa nĂŁo Ă© uma fase que passa, Ă© uma base que se forma.
E quando isso continua na vida adulta, a dor nĂŁo Ă© nova, mas o impacto Ă© incrivelmente maior, porque agora vocĂȘ entende o que estĂĄ acontecendo. E mesmo assim⊠continua acontecendo.
E entĂŁo vem a parte mais difĂcil de aceitar: as pessoas que mais ignoram sĂŁo as mesmas que deveriam ter feito o exato oposto.
E quando quem te deu a vida, te criou sozinha, também te destrói por completo?
Em um certo ponto da vida, vocĂȘ pode se deparar com uma realidade devastadora e que antes era inimaginĂĄvel, uma dor ainda mais profunda do que qualquer dor que jĂĄ sentiu na vida toda: que quem te colocou no mundo pode ser capaz de te destruir completamente, de te quebrar em pedaços, te resumindo pequeninos cacos que podem levar mais de uma dĂ©cada para serem colocados todos em seus devidos lugares novamente - e vocĂȘ nunca voltarĂĄ a ser perfeita como era de novo, mas um dia voltarĂĄ a ter uma incrĂvel beleza, funcionar normalmente e servir maravilhosamente o seu propĂłsito - pelo menos Ă© o que rezo que aconteça, uma vez que acabei de passar por essa ruptura tĂŁo grande.
E sĂŁo pessoas que agem como se vocĂȘ devesse tudo a elas. Como se vocĂȘ tivesse pedido para nascer. Como se âdar a vidaâ fosse um crĂ©dito infinito, que justifica qualquer coisa.
Mas não justifica. Ninguém pede para nascer.
E criar alguém não då o direito de:
se esquivar da culpa do que fez
agredir verbal ou emocionalmente
tirar seu senso de valor prĂłprio
valorizar o trivial acima de nenhum filho, menos ainda de suas vidas
...e mesmo assim, isso acontece. E continua acontecendo.
Na infĂąncia.
Na vida adulta.
Até hoje.
âDisarmâ â quando a mĂșsica expressa isso de maneira ainda mais forte
A mĂșsica Disarm, dos Smashing Pumpkins, traduz essa dor de um jeito tĂŁo forte para quem jĂĄ a sentiu, que Ă© como um hino prĂłprio.
âEu costumava ser um garotinho
TĂŁo velho nos meus sapatosâ
A realidade nĂŁo podia ser mais verdadeira - se ver na obrigação de desenvolver a consciĂȘncia e a resiliĂȘncia de um adulto antes mesmo de aprender as coisas mais bĂĄsicas da infĂąncia.
Crescer cedo demais.
Sentir demais.
Carregar coisas que nĂŁo eram suas.
âO assassino em mim Ă© o assassino em vocĂȘâ
Essa frase fala de algo silencioso:
o que foi destruĂdo dentro de vocĂȘ
por quem deveria ter cuidado.
O que fica depois de tudo isso
tenta existir com sentido
Mas que, no fundo, ainda enfrenta a mesma coisa:
Falar⊠e não ser ouvido. Existir... e não ser notado, menos ainda compreendido.
E isso Ă© o que mais dĂłi: nĂŁo Ă© sĂł o que jĂĄ fizeram. Ă o que continua acontecendo.
NĂŁo Ă© exagero. NĂŁo Ă© drama. Ă o que acontece quando uma pessoa passa a vida inteira sendo ignorada. A ponto de começar a duvidar, nĂŁo sĂł dos outros â mas da prĂłpria realidade. E da prĂłpria existĂȘncia.
"Te desarmo com um sorriso
E te corto como vocĂȘ quer que eu
Corte aquela criançinha
Dentro de mim e uma parte tĂŁo grande de vocĂȘ
Oh, os anos queimam
Oh, os anos queimam
Eu costumava ser um garotinho
TĂŁo velho nos meus sapatos
E o que eu escolho Ă© a minha escolha
O que um garoto deve fazer?
O assassino em mim Ă© o assassino em vocĂȘ
Meu amor
Envio este sorriso para vocĂȘ
Te desarmo com um sorriso
E te deixo como me deixaram aqui
Para definhar na negação
A amargura de quem foi deixado sozinho
Oh, os anos queimam
Oh, os anos queimam, queimam, queimam
Eu costumava ser um garotinho
TĂŁo velho nos meus sapatos
E o que eu escolho Ă© a minha voz
O que um garoto deve fazer?
O assassino em mim Ă© o assassino em vocĂȘ
Meu amor
Envio este sorriso para vocĂȘ
O assassino em mim Ă© o assassino em vocĂȘ
Envio este sorriso para vocĂȘ"
The Smashing Pumpkins - Disarm