E foi assim de repente, ou por acaso do destino que a gente se encontrou de novo.
Resolvi entrar numa padaria no centro que eu nunca tinha frequentado, e sei que tambem você não costumava ir, pelo menos não antes.
Eu só entrei pra pegar uma água, pois era três da tarde numa terça-feira de dezembro e, vocês sabem como faz calor em Pelotas nessa época.
Mesmo na rapidez de que entra só por um motivo específico e já vai sair, eu corri os olhos no interior da padoca, como se procurasse algo ou alguém, e incrivelmente na penúltima mesa, perto de uma parede amarela recentemente pintada, alias um amarelo vivo e lindo, você estava lá, e nossos olhares se encontraram involuntariamente bem no meio da sua risada. Um riso frouxo, contagiante, apaixonante, que nunca saiu da minha mente, e revê-lo foi como se um filme passasse na mente.
Quantos risos... nos compartilhamos. Inexplicavelmente seu riso brecou, seu semblante ficou sem graça, não conseguiu disfarçar o impacto. Eu imediatamente desviei o olhar e paguei a água no caixa, como sempre discreto, minha intenção nunca foi atrapalhar em nada.
Enquanto você explicava pra quem tava a sua frente o motivo da parada repentina do riso eu sumi, mais uma vez eu sumi.
Já do lado de fora, fora do alcance do seu olhar eu espreitei pela janela e fiquei tentando entender o porque nos segundos que sucederam a cena seus olhos rastreavam os quatro cantos do local tentando me encontrar ou apenas confirmar se o que seus olhos viram era real.
O espaço que sempre houve entre nós parecia estar maior ainda, mas algo misteriosamente nos aproxima, por um segundo parecemos voltar no tempo, pelo menos em pensamento.
Sentei no banco do mercado, com um sentimento bom, feliz em saber que você ainda cultiva o mesmo sorriso e mantém o brilho no olhar. Que ainda não jogou fora aquele allstar surrado, que te dei no Natal, que já nem lembro o ano. Descobri que agora você usa relogio de pulso, boa alternativa pra quem vivia perdendo a hora.
Bom saber que você não se tornou brega, que ainda combina a calça e a blusa, que ainda pede o mesmo suco de laranja, que ainda escolhe o quindim como doce favorito. Saber que você ainda olha as pessoas nos olhos, como você sempre disse, eles falam tanto quanto as palavras.
O cabelo você mudou, senti falta dos cachos, mas sua prima ja tinha me dito, que depois de mim voce alizou e pintou os cabelos e nunca mais deixou os cachos que eu tanto elogiava. Deve ser coincidência. Batom e brincos sempre discretos, mas a maquiagem no olho continua sendo seu ponto forte. Impossível não perceber seus detalhes e contornos.
Alguém que não eu, estava a sua frente, mas como sempre nem sei como era, não me atento a detalhes, que não me interessam.
Deve ser um ficante, um novo amigo, um namorado. A Alice me falou que depois de nós seus relacionamentos nao duraram muito, e eu fico triste por isso, porque sei o quanto merece alguém legal, e o quanto te desejo felicidade.
Depois de tanto tempo, em meio a uma pandemia, podia ter te encontrado em tantos outros lugares, quis o destino que te visse ali, sem mascara, e poder ver o seu riso novamente, agora sem o aparelho, agora mais brilhante.
Dediquei estas palavras como forma de recordação de uma tarde de lembranças, e deixarei aqui no feed, para que o facebook me lembre de ti de vez em quando. Afinal sou péssimo nas lembranças e nos detalhes.
Porque uma coisa é te perder na vida, outra é você deixar de existir.
Rafa.


















