HOJE UMA AMIGA ME CHAMOU PARA DIZER QUE GOSTARIA DE SOLAMENTE EXISTIR
Quando comecei a andar,
a planta do meu pé
Não tocava o chão
Quando comecei a correr demasiadamente,
Quebrei a perna
Quando achei ter fraturado o pé, escrevi
É que nós, as pessoas,
Somos seres vertebrados,
e a poesia é o meu verdadeiro ofício
Se parar pra pensar,
O corpo chegar antes da palavra
é uma verdade bastante dura pra gente
Significa que os olhos são mais órgãos
que todos os outros orgãos
Que eles se lançam sobre a boca pra calar
Sobre a língua pra verter o gosto
sobre os meus ouvidos para filtrar,
Sobre o toque para anestesiar
E “ parar para pensar”
É ato antinatural
Nesse mundo fabricado pelo “homo-economicus”
A maioria de nós tem apenas de produzir
Capital para ontem
E para outrem
Em troca do que comer,
de onde deitar,
Do que vestir
E essa nudez permanecerá inescapável
Ainda por muito tempo
Muitos homens gostam de pensar num deus que teria feito todas as coisas
Penso nos homens que decidem o valor do mínimo, da casa, da comida —
Cada pequeno aspecto de nossas vidas é decidido por alguém que nos é inacessivel
Talvez por isso, adorados como deuses
Não sustentamos somente o peso dos nossos próprios ossos enquanto caminhamos
Também não somos o esqueleto no armário
De um laboratório de anatomia
do primeiro ou segundo período
de um curso de medicina qualquer
Até porque em mim
Muitas das suas promessas falharam
Ainda que'u voltasse a acreditar a cada novo acordo
Até que pude fechar os olhos
E entender que as premissas sempre estiveram envenenadas
Quis o imponderável que fosse eu ,
como tantos outros também o são,
O lembrete de algo que o ideal não aprisiona
E tem vida nisso
E verdade
E articulações estalando
E dor passo após passo.
Que a artrose não devore todos os nossos movimentos!
HOJE UMA AMIGA ME CHAMOU PARA DIZER QUE GOSTARIA DE EXISTIR












