No fim, os julhos sempre serão os julhos... Há alguma coisa nesse mês que chega antes mesmo do calendário. Não é o frio, não são os dias, nem as datas marcadas em vermelho. É uma sensação antiga, dessas que aprendem o caminho de casa e voltam todos os anos sem precisar de convite. Julho não bate à porta, ele entra em silêncio, senta ao lado da cama e me lembra de tudo aquilo que eu passei meses tentando esquecer. É estranho perceber que uma data pode pesar tanto, para a maioria das pessoas aniversário é sinônimo de festa, mensagens, abraços, expectativas. Para mim, é apenas um lembrete de que o tempo continua passando enquanto algumas feridas permanecem exatamente no mesmo lugar. Todo ano eu gostaria que fosse diferente, todo ano imagino, mesmo que por um instante, como seria esperar esse mês sem medo, sem sentir tanta tristeza. Como seria acordar sem aquela sensação de que alguma coisa dentro de mim vai desmoronar aos poucos. No fundo, eu só queria ter motivos para gostar de julho, eu só queria que ele deixasse de parecer uma sentença. Eu me sinto o erro, o problema, sempre a parte ruim de tudo, como se a minha presença fosse pesada demais para permanecer em qualquer lugar por muito tempo. Existe um cansaço enorme em viver acreditando que as pessoas apenas toleram você até encontrarem um motivo suficiente para ir embora. E o pior é que esse pensamento deixa de parecer exagero quando ele se repete tantas vezes dentro da própria cabeça. As pessoas quase nunca conseguem me ver através da dor, das tristezas, das falhas, dos erros, dos defeitos, tentam, mas quase nunca conseguem. Parece que tudo isso chega antes de mim, como se eu fosse apresentado pelos meus pedaços quebrados antes mesmo de alguém conhecer o restante. Ninguém quase nunca pergunta o quanto custou continuar de pé quando tudo parecia desabar, ninguém quase nunca enxerga o esforço silencioso que existe em quem passa o dia inteiro tentando parecer normal, tentando acertar e tentando não ser visto só como alguém que não vale a pena. As falhas chamam mais atenção do que as cicatrizes e as cicatrizes chamam mais atenção do que a pessoa. Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a diminuir minha própria voz e aceitar que é só drama ou vitimismo e não porque eu não tenha o que dizer, mas porque existe um medo constante de ocupar espaço demais, de sufocar. Um medo absurdo de confirmar aquilo que tantas vezes já senti: o de ser inconveniente, pesado, um erro, difícil de amar. Então eu vou guardando tudo, a tristeza, a ansiedade, os pensamentos, a solidão. Vou acumulando como quem tenta impedir que o mundo tenha mais um motivo para se afastar, mas ainda assim parece nunca ser suficiente. Quase sempre estão procurando uma forma de se livrarem de mim, muitas vezes acontece aos poucos, nas respostas que demoram mais do que antes, nas conversas que deixam de existir, nos convites que nunca chegam, na sensação de que eu estou sempre sobrando em algum lugar. Existe uma dor muito específica em perceber que você se esforça para permanecer enquanto o outro apenas procura a oportunidade certa para partir. É um tipo de abandono que nem sempre faz barulho, mas deixa marcas profundas. Julho sabe exatamente onde essas marcas estão, talvez seja por isso que doa tanto, porque ele não traz apenas mais um aniversário; ele traz todos os aniversários anteriores. Todas as expectativas que nunca encontraram espaço para existir, todos os silêncios e ausências. Todas as vezes em que eu desejei apenas sentir que a minha existência fazia diferença para alguém, sem precisar ser visto como algo pesado. No fim, a tristeza não é feita apenas de lágrimas, às vezes ela é feita de datas, de memórias que voltam sem serem chamadas. De perguntas que nunca receberam resposta, de uma esperança pequena demais para vencer o medo, mas grande o suficiente para impedir que ele desapareça completamente. E talvez seja justamente isso que mais machuca: ainda existir, em algum lugar escondido, uma parte de mim que continua desejando descobrir como seria viver um julho que não doesse tanto.