16:30 e você passeando na parte mais profunda da minha cabeça.
Na superficialidade você não existe, só te acesso no fundo.
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16:30 e você passeando na parte mais profunda da minha cabeça.
Na superficialidade você não existe, só te acesso no fundo.

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Eu sou um enigma ou você ainda não encontrou a forma de decodificar meus códigos?
Numa encruzilhada antiga ergui meu primeiro altar, pequena deusa dos desejos que jamais soube reinar.
Verti vinhos sobre o barro, ungi a pedra com licor; dei ao fogo a minha própria carne, em sacrifício e flor.
Vi Deus, imóvel e alvo, coroado em luz severa, tão distante quanto os astros que não tocam esta esfera.
Vi o Diabo resplandecente em formosura triunfal, como um príncipe vestido da mais pura luz infernal.
Sua pele cintilava qual o sal sobre o oceano, e em seu cântico dormia a febre antiga do humano.
Seu hálito recendia a mirra, enxofre e alecrim; havia sangue em sua boca, e eternidade sobre mim.
Cada passo era um prodígio que nenhum profeta viu; cada sombra que o seguia sobre os séculos se abriu.
Sua voz venceu meus salmos, meu orgulho e minha lei; com um único silêncio reneguei o Deus que adorei.
Nos seus braços fiz do corpo sacrário de perdição; cada beijo, uma libação; cada toque, uma oração.
Não nasceu do Verbo eterno, nem da aurora do Senhor; fez-se o mundo entre o vinho, a carne, o sangue e o ardor.
Sobre a cruz da encruzilhada segue a chama a me guiar; cada brasa abre caminhos que ninguém pode apagar.
Das trevas erguem-se legiões de joelhos ao passar; seguem sua augusta deusa e o Diabo sem cessar.
Glórias, tronos e virtudes tornam-se cinza sobre o chão; onde o desejo é soberano, toda carne é criação.
E se um dia os céus desabem sobre a púrpura do mar, meu altar permanecerá onde o fogo ousou brotar.
Pois não temo o Juízo Eterno nem a espada do querubim; fui ungida pela noite, e a noite agora habita em mim.
“ Quando a gente tá em carne viva, até carinho dói.”
- BENNETT
É você que não é suficiente ou algumas pessoas que nunca estarão satisfeitas?

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A Tecelã
A mestra das palavras, sem fio ou direção, vê o ocaso extinguindo a luz da criação. Vê o sol depor as cores no túmulo do poente, e a lua tingir prata na torre adormecente.
Ouvia o rastro incerto do peito solitário, qual sino abandonado na paz do santuário. Fugiam as palavras por entre os dedos vãos, qual salmos esquecidos em lúgubres desvãos.
Buscou-as na folhagem que o vento faz murchar, nos grãos da areia estéril do indômito lugar. Rogou às velhas musas, ao vinho e ao altar; pediu aos astros mudos o dom de despertar.
Andou por claustros velhos, por naves de cristal, onde o pó guarda os ecos de um tempo imemorial. Mas busca em doce engano o que não lhe convém; pois sua voz, agora, já mora em outro alguém.
Pois quando deu o peito em mística oração, perdeu todo o engenho, restou-lhe o coração. Soube, enfim, o mistério da ausente melodia: toda a palavra morta em outras mãos vivia.
Nas mãos de quem não usa feitiço ou ambição, e lhe roubou o cetro com branda afeição. Não foi por ímpia guerra ou falsa sedução; foi pela paz serena do olhar em comunhão.
E quando os olhos viram o rosto do amado, o tear rompeu o cerco de um tempo encerrado. A roca, em voz de festa, tornou a dedilhar; cada verso é um milagre que volta a germinar.
Tece agora os altares com luz e com fervor; pois fez-se a voz de seda nas mãos do puro amor.
Eu não sou sua propriedade, sua extensão, não sou alguém que você pode comandar e manipular ao seu bel prazer em função do que você acha certo ou errado.
Eu sou outra pessoa, com desejos, tristezas, medos, angústias e felicidades sob as quais você não tem poder.
Sua tentativa de controle será nossa ruína, nosso fim, nossa ruptura para algo que nunca poderá ser concertado.
Prévia de "Obra de arte" (conto, setembro de 2024)
Ela é apreciada como uma das maiores obras de arte, a peça principal do museu, anciente, protegida por uma redoma de vidro, intocável, incompreedida.
Porque as pessoas não compreendem, a grande maioria tende a reagir com admiração.
Outra parte, alguns poucos, reagem com fúria, tornando-se a encarnação da ira.
Eles exigem a obra apenas para si. Querem quebrar a redoma e levar a peça para casa, onde trancarão a porta, observando a obra até definharem. Já aconteceu outras vezes, por isso a segurança foi reforçada.
Mesmo quem não parece ter sido arrebatado pela estranha sedução da peça, sonha com ela a noite, só para acordar com ela observando, para acordarem novamente.
A peça é uma estátua disforme, uma amálgama de criaturas se contorcendo num abraço que para alguns parece carinhoso, para outros parece asfixiante.
Ela é tão assustadoramente influente que alguns precisam parar de olhar e só então a respiração, os batimentos cardíacos voltam ao normal.
Outros juram ouvir ruídos, vozes, música quando estão próximas dela. Cada um tem uma experiência diferente.
Aqueles que tem problemas cardíacos, epilepsia, ou outros traços de problemas relacionados à mente tem dificuldade de admirar a estátua.
Ninguém sabe a origem da peça. Ela foi encontrada nos escombros de uma cidade antiga, abandonada. Os símbolos inscritos não são de nenhuma linguagem conhecida.
O mundo inteiro foge, admira ou teme a peça. Atentados terroristas acontecem em seu nome, justamente nos países com maiores números de fiéis.
É como se a simples existência dela infundisse o coração das pessoas com emoções exacerbadas, que a muito tempo escondiam. Não há sentimento que a estátua não revele. Filhos param de falar com os pais. Irmãos brigam até a morte. Casais caçam os filhos que correm aos prantos, desesperados. Toda ordem do mundo parece ter sido corrompida.
A influência da estátua parece cada vez mais forte. Países inteiros mudam de nome, sua população saindo de suas casas em peregrinação até o museu.
O exercíto agora cerca o museu.
Mas é inútil. A quantidade absurda de pessoas ao redor é ensurdecedora. Não importa daonde se olhe, é como um oceano de pessoas, todas querendo pelo menos olhar um minuto para ela.
Quais segredos serão revelados ao olhar nos múltiplos pares de olhos da estátua?
Todos parecem ter enlouquecido. A temperatura está baixa, e mesmo assim as pessoas tiram as roupas e as usam como armas improvisadas. Cintos se tornam chicotes, casacos são usados para sufocar os mais fracos. Hastes de óculos são usadas para cegar, ironicamente.
Somente os mais fortes e aptos poderão ter uma audiência com a obra. É o que alguns acreditam, que contam pra si mesmos. E acreditam.
Combates acontecem em cima de corpos, que vão se amontoando.
Um helicóptero levanta voo, levando a peça, e os sobreviventes, cada vez mais selvagens, começam a perseguir a aeronave.
Eles arremessam pedras, celulares, garrafas de água, vapes, qualquer coisa a mão.
Um dos objetos atinge o piloto, que na pressa não tinha colocado o capacete.
O helicóptero começa a girar, caindo no grupo com mais pessoas reunidas, explodindo um pouco depois.
A estátua finalmente tinha sido destruída.
As pessoas que sobraram pouco a pouco voltam ao seu estado normal, se perguntando o que estavam fazendo. Como toda situação de emergência, começam a se ajudar, socorrendo os feridos, acalmando os que sofreram perdas.
Como aliviar a mente do filho que segurava a bengala com a qual tinha agredido a mãe até a morte?
Na ânsia de entender, compreender (dominar) o mundo, criou uma visão distorcida deste, tornou-se regente do deserto sentado no trono do oásis.
Deletou-se então de sua água pura e límpida.
O amor é como uma planta cheia de espinhos: mesmo quando nos fere, continuamos cuidando dela no jardim, porque, por mais que machuque, ainda temos pena de vê-la morrer.
- Olhos Verdes.

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Só tentando me achar nessa bagunça que você deixou, se me encontrar me traz de volta pra mim.
Ela nunca passa despercebida.
Não porque faz questão de ser notada. Pelo contrário. Ela simplesmente chega e, de alguma forma, a presença dela ocupa o ambiente.
Tem um magnetismo difícil de explicar, mas também um mistério sutil. Você nunca vai conhecer a profundidade dela logo de cara. E quem conhece, teve sorte.
Subitamente espontânea, ligeiramente engraçada, sempre com a melhor conversa na ponta da língua. Ela faz qualquer assunto parecer interessante. Faz uma terça-feira qualquer parecer uma história que merece ser lembrada.
Tem alguma coisa na imprevisibilidade dela que prende. Depois dela, as pessoas parecem um pouco previsíveis demais. Tentar decifrá-la é como tentar decorar um céu que muda todas as noites.
Ela é livre de um jeito bonito. Leve, sem ser superficial. Presente, sem invadir. Não tenta convencer ninguém de quem é.
Sua presença não sufoca, não exige, não invade. Ela desperta.
Desperta a curiosidade de descobrir o que ela ainda não contou.
Porque, por mais que você se aproxime, sempre vai existir uma parte dela que continua sendo horizonte.
Sobre uma geminiana
Acho que a coisa mais bonita que alguém pode despertar em outra pessoa não é a paixão. Paixão é barulhenta, impulsiva e, as vezes, passageira. Bonito mesmo é despertar curiosidade. Fazer alguém querer descobrir quem você é por trás das respostas prontas, dos medos, das cicatrizes e dos dias comuns. Porque quando alguém continua interessado depois que o mistério acaba, talvez seja aí que alguma coisa realmente começa.
- Nathalia Calazans
Se saber viver é te amar, então não quero mais saber. Quero atravessar a rua sem olhar para os lados, cutucar onça com vara alguma, tomar mel direto da colméia. Quero encontrar o silêncio perdendo teu nome em neblinas de letologia. Quero abraçar meu travesseiro por conforto, não por tua falta. Quero esquecer da tua risada, esquecer dos band-aids que vieram depois de você, esquecer da tua sedutora maldade. Quero esquecer dos teus acanelados olhos, esquecer também do jeito que franzes emoção, fazendo tua glabela virar fogos de artifício em cima do céu avelanado de tuas úmidas íris. Tua pequena boca fina, sempre imaculada diante da minha fome voraz, essa sim eu quero esquecer. Quero esquecer do gosto que tem tua pele, esquecer da maciez que tem o teu abraço. Trocaria anos da minha vida para não ter te conhecido, nem que, para isso, esquecesse também do quanto posso amar alguém. Quem dera nunca ter ouvido teu nome, nem te visto naquela jaqueta de couro no maldito ônibus da equipe de varrição. Quem dera nunca ter estendido manta verde alguma, ou ter constatado que você tem a singularidade que mais chamou a minha atenção, a beleza que parece ter sido desenhada enquanto pensavam nos meus mais doces sonhos. Quem me daria essa amnésia? Um gadget dos Homens de Preto, um cogumelo rosa, um emprego na Lumon Industries? Sorrir, chorar, cantar? Como esquecer do teu sorrisinho tímido, de tuas pálpebras preguiçosas, de seu estertor involuntário, do teu olhar chapado? Como te esquecer se, para mim, você é a vida que se dispõe, mesmo ingrata, mesmo arredia, mesmo tardia? Como eu disse, não vou mais pensar na vida. Não quero mais definições do viver, porque em qualquer uma, te encontro. Te encontro em todos os lábios, em todos os olhos, em todos os toques e sons. Te encontro no limão, no leite condensado, nos morangos negligenciados, nas goteiras que eu sei que ainda existem quando chove. Te ouço cantando Urias quando minha louça está alcançando o teto, ouço FKA Twigs quando há ácido em minhas emoções. Lembro do teu gato quando perguntam se tenho seda, lembro da tua cama quando perguntam se estou bem. Não quero mais lembrar, quero esquecer. Esquecer para não mais te encontrar em bocas, olhos, gostos. Quero esquecer de tudo que menti para me proteger, de tudo o que fiz para te substituir, de toda a bagunça que me tornei por cada vez mais querer ignorar essas lembranças. Te amar é igual amar ao golden time das 17h, porém, saio somente às 19h, então a vejo sempre pela janela. Daqui tu ainda és linda, mas o gélido ar artificial não permite que eu sinta teu calor na pele.
Me dê os teus lábios e, com um beijo, nos despediremos dos céus, estrelas se desfazendo na atmosfera.
Fernando Oliveira

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Um momento breve
Pausa pro café
Um pedido de pizza
Sorriso despretensioso
Um olhar acolhedor
A alma brinca de brincar
Serelepe
Por um momento
Breve
A vida parece
Leve
Não podemos convencer alguém a nos amar. Pelo contrário: a pessoa é quem precisa estar convencida de que ama você. Às vezes, o medo que você tanto alimenta impede que a felicidade encontre espaço na sua vida. O receio de se machucar, de ser rejeitado ou de algum trauma e por se tornar vulnerável acaba prendendo você a uma solidão que parece mais segura, mas também mais dolorosa. O amor não nasce da insistência, nasce da escolha. E, quando é verdadeiro, não precisa ser convencido — apenas vivido. Nunca estamos preparados para algo que pode mudar a nossa vida. Esperamos ter certezas antes de sentir, garantias antes de confiar, respostas antes de dar o primeiro passo. Mas não é assim que as coisas funcionada, não existe nada perfeito. Mas quando se tornam importantes acontecem justamente quando aceitamos o risco de não controlar o que vem depois. Porque, no fim, não é a preparação que nos torna capazes de amar. É a coragem de permanecer, mesmo sabendo que toda escolha carrega a possibilidade da dor — e, ao mesmo tempo, da felicidade.
- Raphael B. ☕︎