Domingo e suas ausências. Recebo as fotografias que meu pai me envia como quem recebe uma visita daquilo que nunca foi embora. Sorrio. Mas há sorrisos que já nascem com o gosto da saudade. Algumas terras continuam nos chamando pelo nome, mesmo quando já não moramos nelas. Aquela ainda me chama. Às vezes penso que não fui eu quem a deixou. Foi uma parte de mim que resolveu permanecer ali, escondida entre o vento das ruas largas, o dourado do fim da tarde e as águas quietas do lago que, todas as noites, recolhiam a lua como quem acolhe um segredo. As capivaras caminhavam sem urgência, indiferentes ao tempo. E eu, sem perceber, aprendia com elas que pertencer é um estado da alma. Naquele parque, eu não era visitante. Eu era paisagem. Era tudo tão pequeno aos olhos do mundo. E, justamente por isso, infinito. Tenho saudade do cheiro da lenha, da fumaça desenhando o céu preguiçoso do domingo, da comida sendo preparada com a delicadeza de quem alimenta muito mais do que corpos. Há um amor que só existe nas panelas que demoram, nas mãos que temperam sem medir, nos almoços que recusam o relógio. A mesa era um lugar onde o tempo se sentava conosco. Depois de tantos dias vivendo longe uns dos outros, bastava um domingo para que a distância desaprendesse de existir. As risadas atravessavam a casa como passarinhos soltos. Ao fundo, a velha rádio insistia nas canções preferidas do meu pai, e havia qualquer coisa de eterno naquela repetição. Eu escutava histórias, novidades, preocupações pequenas que hoje me parecem relíquias. Quando chegava minha vez de falar, inventava entusiasmo para que ninguém percebesse o tamanho das tempestades que eu escondia no peito. E meu pai sorria. Há pais que não sabem que seus abraços reorganizam o mundo. Hoje entendo que o amor raramente faz barulho. Ele mora nas coisas que pareciam comuns demais para serem eternas: na cadeira puxada para mais um lugar à mesa, na fumaça da churrasqueira perfumando a tarde, na música antiga atravessando a cozinha, no reflexo da lua sobre o lago, no silêncio confortável de quem não precisava dizer muito para ser amado. A saudade tem esse estranho ofício de santificar o cotidiano. Transforma fumaça em incenso. Transforma almoço em rito. Transforma domingo em oração. Hoje é domingo. E há domingos que chegam carregando ausências como quem traz flores para um túmulo invisível. Olho mais uma fotografia enviada por meu pai. Por um instante, ouço novamente a velha rádio. Sinto o cheiro da comida. Vejo a lua repousando sobre o lago. As capivaras caminham devagar. Minha família ri ao redor da mesa. Então percebo que a memória é a única casa para a qual sempre sabemos voltar. E talvez seja isso a saudade: o lugar onde o amor continua morando quando nós já fomos embora. Domingo suas ausências.
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