Não me beijou. Eu também não tomei a iniciativa. Seu rosto estava tenso, endurecido. De repente, sem aviso prévio, pareceu que todas as cordas se afrouxavam, como se ela tivesse renunciado a uma máscara insuportável, e assim como estava, olhando para cima, com a nuca apoiada na porta, começou a chorar. E não era o famoso pranto de felicidade. Era aquele pranto que sobrevém quando a gente se sente opacamente desgraçada. Quando alguém se sente brilhantemente desgraçado, então, sim, vale a pena chorar com acompanhamento de tremores, convulsões, e, sobretudo, com público. Mas quando, além de desgraçada, a pessoa se sente opaca, quando não resta lugar para a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo, então é preciso chorar sem ruído, porque ninguém pode ajudar e porque se tem consciência de que isso passa e, por fim, se retoma o equilíbrio, a normalidade. Assim era o pranto dela.
— Mario Benedetti, em A trégua.














