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Não me beijou. Eu também não tomei a iniciativa. Seu rosto estava tenso, endurecido. De repente, sem aviso prévio, pareceu que todas as cordas se afrouxavam, como se ela tivesse renunciado a uma máscara insuportável, e assim como estava, olhando para cima, com a nuca apoiada na porta, começou a chorar. E não era o famoso pranto de felicidade. Era aquele pranto que sobrevém quando a gente se sente opacamente desgraçada. Quando alguém se sente brilhantemente desgraçado, então, sim, vale a pena chorar com acompanhamento de tremores, convulsões, e, sobretudo, com público. Mas quando, além de desgraçada, a pessoa se sente opaca, quando não resta lugar para a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo, então é preciso chorar sem ruído, porque ninguém pode ajudar e porque se tem consciência de que isso passa e, por fim, se retoma o equilíbrio, a normalidade. Assim era o pranto dela.
— Mario Benedetti, em A trégua.
O tempo se vai. Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de esquadrinhar minhas rugas: “Mas o senhor ainda é um homem jovem!” Ainda. Quantos anos me restam de “ainda”? Penso nisso e me dá pressa, tenho a angustiante sensação de que a vida me foge, como se minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue.
— Mario Benedetti, em A trégua.
Nos primeiros tempos, eu não falava muito de Isabel, só porque me era doloroso. Agora, tampouco falo muito dela, porque tenho medo de me equivocar, de falar de outra pessoa que não tenha tido nada a ver com minha mulher. Algum dia Avellaneda me esquecerá assim? Eis o mistério: antes de começar a esquecer, ela tem de lembrar, de começar a lembrar.
— Mario Benedetti, em A trégua.
Sabe o que aconteceu? Eu sempre fazia as brincadeiras com grande seriedade, tem razão, que boa memória a sua! Mas um dia me dei conta de que estava ficando sem assunto. Eu não gostava de repetir histórias alheias. Você sabe que eu era um criador. A piada que eu contava, ninguém a ouvira antes. Eu as inventava e às vezes inventava verdadeiras séries de piadas com um personagem central, como os dos quadrinhos, e aquilo me abastecia por duas ou três semanas. Pois bem, quando percebi que não achava assunto (não sei o que me aconteceu; vai ver que minha cachola se esvaziou), não quis me retirar a tempo, como um bom desportista, e então comecei a repetir piadas alheias. No começo eu as selecionava, mas logo se esgotou também a seleção, e então acrescentei qualquer coisa ao meu repertório. E as pessoas, os rapazes (eu sempre tive minha turma), começaram a não rir, a não achar graça em nada do que eu dizia. Tinham razão, mas nem nesse momento me retirei. Inventei outro recurso: rir eu mesmo, à medida que contava, a fim de impressionar meu ouvinte e convencê-lo de que a pilhéria era efetivamente muito boa. No começo, me acompanhavam no riso, mas logo aprenderam a se sentir fraudados, a saber que meu riso não era exatamente um prenúncio de comicidade garantida. Também nesse caso tinham razão, mas eu já não pude deixar de rir. E aqui estou, como você vê, transformado num chato. Quer um conselho? Se quiser conservar minha amizade, fale-me de coisas trágicas.
— Mario Benedetti, em A trégua.

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Durante alguns séculos, a ciência foi dominada pela ideia de um tempo reversível, de um universo imutável em que o passado e o futuro eram idênticos de direito. Só restava a história para servir de refúgio ao pensamento mítico. (…) o universo e a vida também estão na história; que tiveram um começo e estão entregues ao devir. (…) Parece tão difícil admitir que milhares de acontecimentos, todos altamente improváveis, tenham, em algo como 7 milhões de anos, garantido a passagem de um mundo desprovido de toda e qualquer vida a um mundo de RNA inicialmente, em seguida um mundo de DNA, que mesmo especialistas ilustres são obrigados a forjar mitos.
Aos olhos dos leigos (ou seja, de quase toda a humanidade), esse mundo sobrenatural apresenta as mesmas propriedades que o dos mitos: tudo acontece de um modo diferente do que no mundo comum e, frequentemente, ao inverso. Para o homem comum — todos nós — esse mundo permanece inatingível, exceto pelo viés de velhos modos de pensar que o especialista consente em restaurar para o nosso uso (e às vezes, infelizmente, para o seu próprio). Do modo mais inesperado, é o diálogo com a ciência que torna o pensamento mítico novamente atual.
— Claude Lévi-Strauss, em História de lince.
"Esta foto, foi você quem tirou?", perguntei a Vignale. "Está maluco? Eu nunca tive coragem para empunhar uma máquina fotográfica ou um revólver [...]"
Mario Benedetti, em A trégua.
Nunca senti pena da minha mãe; tive no máximo raiva de que ela tivesse escolhido me pôr neste mundo em vez de acabar comigo antes que alguém percebesse. Por não ter escolhido ser livre.
— Katharina Volckmer, em A consulta.
A morte é tudo o que cresce dentro de nós, tudo o que vai finalmente explodir, abandonando seus circuitos naturais e inundando tudo o que precisa respirar. As infecções que supuram na surdina, os corações que se partem sem aviso.
— Katharina Volckmer, em A consulta.
O que é o fascismo, afinal, se não uma ideologia com um fim em si mesma?
— Katharina Volckmer, em A consulta.

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As pessoas nunca deviam ter parado de escrever cartas, mesmo aquelas que não têm a intenção de enviar. Deviam escrever principalmente essas.
— Karen Harrington, em Claros Sinais de Loucura.
Espero que um dia minhas mãos sejam como as dela. O mais interessante tipo de mapa.
— Karen Harrington, em Claros Sinais de Loucura.
Lembre-se de alguma coisa inútil e provavelmente será isso o que estarei fazendo. Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.
Lygia Fagundes Telles, em Ciranda de Pedra.
Vocês já imaginaram a maravilha que seria o mundo se ao menos uma quinta parte desses gênios se realizasse na maioridade? Há milênios que os pais se debruçam como fadas sobre os berços e fazem profecias fabulosas. E há milênios a Terra prossegue corroída pelo germe humano, que é tão vulgar e medíocre quanto o da geração anterior.
Lygia Fagundes Telles, em Ciranda de Pedra.
And I speak of spiritual suffering! Of people seeing their talent, their work, their lives wasted. Of good minds submitting to stupid ones. Of strength and courage strangled by envy, greed for power, fear of change.
— Ursula K. Le Guin.

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lygia fagundes telles e hilda hilst.
— Um dia ela espetou o dedo na minha testa, esta menina será um anjo ou um demônio!
— E você opt-brou pela última alternativa — murmurou Afonso, voltando a encher o copo.
— Não... Por que isso da gente ser só uma coisa ou outra? Fica monótono e complicado. Bom é a gente não querer ser nem anjo nem diabo, é ir sendo o que na hora calhar...
Lygia Fagundes Telles, em Ciranda de Pedra