Às vezes me olho no espelho, e me deparo com uma criança amedrontada. Uma que só queria ser amada, ser cuidada. Sem dificuldades, sem pressões.
Mas pelo contrário, ela foi jogada de casa em casa, de peito em peito, para quem quisesse ser o que ninguém nunca foi.
Ela foi machucada. E não culpa ninguém, mas a si mesma. Por acreditar que a palavra "lar" era muito mais próxima do que as paredes que a cercavam. Mas era distante. E a caminhada até lá, exaustiva.
Ela culpa a si mesma por acreditar nos monstros e no bicho papão que diziam estar logo abaixo de sua cama, na intenção de a puxarem pra mais perto.
Ela culpa a si mesma, por ter acreditado que o mundo lá fora era tão sem amor, que seria impossível sobreviver sozinha.
Até entender que só é impossível sobreviver, quando não se aprende a se amar sozinha. A maldade do mundo se torna minúscula, diante do poder daquele que isso compreende.
Ainda me olhando no espelho, com lágrimas sob minha face, escuto a voz da criança a me contar tudo isso.
Então, como quem se revolta e resiste, faço de mim meu próprio lar, e o encontro mais próximo do que imaginava. Ele sempre esteve ali.
Decido expulsar os monstros, os boto pra fora em alto em bom tom, para que todos possam escutar, até mesmo eu.
Desbravo o mundo, como quem deseja viver, mas não tem medo da morte. Ainda que ele seja cheio de maldade, eu sou cheia do meu amor, o próprio. E essa é a minha sobrevivência, esse é o meu poder.