Minha história, meu jeito. (Asas de Arrogance - 1/?).
— Quem é o da vez? — perguntou Henry, mal humorado. Odiava trabalhar de madrugada.
— Um homem, segundo a Carla. Não temos o nome dele, mas ele chama a si mesmo de “Arrogance”. — respondeu Rarry. Ele também não gostava, mas era mais discreto em relação a isso.
— “Arrogance?” — perguntou Henry, franzindo o cenho.
— “Arrogância”, mas em inglês. — explicou Rarry — Clichê.
— Eu não sei, não. — Henry jogou a guimba de cigarro na lixeira — “Morte”, “Violência” são comuns. Até mesmo “Traficante 10” eu já vi, mas o nome desse sujeito me dá um comichão estranho. — Pegou a ficha da mão de Rarry — E... ele nem tem foto? Sério? Por que não fotografaram ele?
— Vamos, Henry, é só mais um de vários. — Começou abrir a porta da sala de interrogatório — Além disso, a gente faz todo sábado a mesma coisa e você sempre age como um “viadinho”.
— Você sabe que meus comichões me avisam sobre as merdas que vão acontecer, babaca.
— É, sei tanto quanto o seu vizinho sabe o gosto da sua mulher. — Henry fez uma cara de confuso e Rarry descartou a piada com a mão — Esquece. Vamos acabar logo com isso, essas meias do uniforme prendem minha circulação para um cacete. — Abriu a porta.
Rarry ficou em silêncio quando olhou para o interior da sala. Faziam dois anos desde que o departamento resolveu deixar o interrogado livre pela sala. Agora só podiam entrar com um par de algemas na sala. “Vai aumentar a confiança deles na gente”, disseram o pessoal do Comitê de Decisões. Realmente, funcionou. Mas, naquele momento, não parecia mais uma boa ideia. O tal comichão de Henry que o diga.
Ver um homem magro de frente para a parede, como se estivesse refletindo, não era novidade. A maioria deles eram traficantes e traficantes acabavam usando o próprio produto. Quando chegavam naquela sala, faziam isso para repassar os crimes e toda a sorte de merda que já tinham feito na vida. Tinham os ombros caídos e sempre estavam cabisbaixos com as mãos juntas em frente ao corpo. Mas este não. Esse estava de ombros retos, dorso erguido, olhava para a parede como se fosse dono dela e mantinha o queixo erguido. Suas mãos estavam entrelaçadas atrás de suas costas da mesma forma que um imobiliário faria ao olhar um condomínio. Usava uma camiseta branca esgarçada — não quis abrir mão dela — e a calça padrão dos detentos. O problema, além de sua postura, eram suas costas. Haviam manchas de sangue, agora já secas, na altura das omoplatas. Pareciam ter sido feitas após um corte limpo de faca.
Ao fecharem a porta, Arrogance virou-se para vê-los. Olhos frios, calmos e com as pálpebras relaxadas. Henry, que foi o primeiro a sair do choque, começou a abrir a boca para ele. Iria mandá-lo se sentar — como sempre faz — mas o interrogado levantou a mão de forma suave, mas ríspida, interrompendo-o. Henry não gostou disso, os abusados sempre lhe davam uma sensação estranha e este sujeito já estava fazendo isso o suficiente. Arrogance sentou-se graciosamente, cruzando a perna direita sobre a esquerda e entrelaçou as mãos sobre o colo por debaixo da mesa. Seu rosto, com a barba por fazer se harmonizando com o nariz anguloso, refletia a luz da lâmpada que estava no centro do teto. Abriu um sorriso leve, sutil, convidativo. O mesmo tipo de sorriso que faz o convidado apreciar a visita antes mesmo dela começar.
— Boa noite, senhores. — Disse Arrogance.
Os homens, já sentados, se entreolharam numa pergunta silenciosa sobre quem falaria primeiro. Rarry se arriscou.
— Olá... Arrogance. — mudou levemente o tom ao final da frase para indicar uma pergunta. O interrogado meneou a cabeça em concordância. — Certo. — Pigarreou — Teria outro nome pelo qual poderíamos te chamar?
— Você continuará a me chamar assim e de nenhum outro modo a mais, senhor. — respondeu ele.
— Controle a língua! — interveio Henry com sua voz áspera. Era medroso, mas não submisso com abusados.
— Pois bem... — Começou a sorrir e olhar de forma obsessiva para Henry, uma forma que o perturbava — Os oficiais aqui querem um depoimento meu sobre a “guerra” com a gangue dos irmãos Trentis, certo? — Começou a sorrir de uma forma animalesca ao falar “guerra”. Henry ainda sentia o comichão, mas ele ficava mais forte. — É uma longa história, vocês sabem.
— Somos curiosos e bons ouvintes — assegurou Rarry enquanto abria a caderneta e apertava o botão da caneta — pode confiar. — finalizou com uma expressão suave, tentando passar conforto. Foi para isso que me formei? Para ser bonzinho com bandidos?, pensava ele. Na verdade não pensara em nada mais além disso nos últimos três meses, o período todo em que começou a trabalhar interrogando idiotas que não escolhiam direito o que fazer na vida. Estava se sentindo, pela primeira vez, desanimado e em dúvida sobre o trabalho. Mais que tudo, estava aéreo naquele dia.
A preocupação de Henry aumentava. Tinha algo de errado ali, ah, se tinha. Uma gota de suor começava a trilhar a linha de suas costas. Ele se gabava por ter um “sexto sentido” para esse tipo de coisa desde que previra um assalto à uma cafeteria.
— Policial, contar uma história requer... contextualização. — disse Arrogance.
— Então conte-- — começara Henry, mas foi interrompido.
— Eu contarei, mas do jeito certo. — Arrogance havia elevado a sua voz quase à raiva. Ainda sorria para Henry. Ele estava provocando-o, era óbvio. Seria óbvio para Rarry se ele não estivesse pensando na discussão que tivera com sua mulher na noite passada sobre quem pagaria as contas. Henry sentiu um calafrio subir enquanto o suor descia. Depois, transformou isso em raiva e resolveu ouvir o seu comichão amigo.
— Já chega, vagabundo! — disse e levantou-se, pegando a algema de seu sinto — Merdinhas como você precisam entender que estão na prisão, sob NOSSA jurisdição! — Chegou mais próximo do lado de Arrogance, abrindo a algema e prendendo-a em uma das protuberâncias da mesa que serviam justamente para isso. Quando virou-se para o homem que te tirara do sério apenas com os olhos e boca, ouviu o click.
E viu a arma na mão do criminoso, que apenas deveria estar sob sua jurisdição, apontada para sua mão que ainda segurava a algema.
— Prenda o próprio pulso e sente. Você vai ouvir a minha história, do jeitinho que eu contar.
O policial obedeceu. Rarry despertou com o barulho da arma. Agora sim ele aprendera o ditado de Joe (Pensar na mulher é abrir o peito para levar tiro). Ainda assim, estava imóvel. Não é que ele não estivesse de posse de uma arma, o problema é como ele tiraria ela do lado esquerdo de seu cinto sem que o novo detentor de poder visse. Sua mão esquerda estava com a caneta e pegar a arma com a mão direita não seria nem um pouco discreto.
Arrogance suspirou de forma calma.
— Não façam nada desagradável, não tenham síndrome de herói nem um ego inflado. Sei lidar com isso. — Suspirou uma outra vez — Pois bem... como podemos começar a contextualizar isso? — Pensou por um momento — É, isso serve. — Ajeitou-se na cadeira sem mover a mira nem um centímetro e pigarreou — Eu havia acabado de nascer em um banheiro...