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a partida de lassy
ano passado lilica me deixou de forma inesperada. lilica era uma cadela nervosa, brava, mas muito querida, que morava comigo e minha família e um dia amanheceu dura em sua cama. hoje lassy se foi quase da mesma forma, pois o dia acordou com ela sem vida.
lassy também era uma cadela que morava na mesma casa que eu. foram oito anos de convívio e várias as ocasiões que eu chorei perto dela, soluçando, desabafando, falando sobre minhas tristezas e ela, silenciosa, no seu jeito animal de ser, me confortou. hoje eu choro sozinha pela sua morte.
desde o ano passado sabemos que ela estava doente, com câncer nas mamas, mas nada fizemos, não tivemos dinheiro para as consultas, as cirurgias, para cuidar dela. talvez o meu choro seja um pouco egoísta, pois eu não a ajudei. eu não tive como ajudá-la. e eu estou realmente triste com isso.
hoje o meu mundo ficou muito mais triste e muito mais silencioso. um pedaço de mim se foi junto com ela. e eu escolhi chorar sozinha, sem ninguém por perto, sem ninguém para me consolar, pois é esse o aprendizado que a morte da lassy vai me deixar: o de aceitar a solidão, pois sou sozinha no mundo e tenho que apreender a lidar com isso.
a tal desilusão
pelos olhos, a tristeza, força bruta que estrondeia o silêncio deslizando pelo corpo trêmulo titubeando os desejos e amargando o coração sorrateira, filha pródiga da ilusão, percorre os sorrisos jubilosos, na encantaria doce escarnecedora, aquecendo os devaneios da paixão
ai daqueles que acreditam, que se deixam esperar e que, mesmo diante de uma despedida, de uma fugaz partida, não conseguem vislumbar o ludibrioso feitiço dos beijos o saboroso som dos gracejos a fascinante intrujice dos afetos
corpo feitiço
mapa-múndi dilacerado pelos meus dedos seu corpo é feitiço, arrepio e desejo e entre os meus lábios se desfaz irrigado pela minha saliva, tornando-se um alucinógeno horizonte. seu corpo, feito arpejo, se ouriça, se desmantela e se perde no combate dos meus urros com seus pelos.
drew chubby Ariel!! Chubby girls rock and are magical!
esse é o tipo de coisa que alegra a vida

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covarde desejo
que eu não perceba o derradeiro momento da desistência das pálpebras, do apagar dos quereres, e que o desenlace dos arrepios se faça em silêncio
que o padecimento desse corpo não se mostre e que não demore muito para as energias de tais células, desses ilusórios circuitos, terminarem estrelas, filhas amaldiçoadas do luto
que os planetas, os cometas e a imensidão do tudo, ao se encontrarem com os rastros deteriorados de tal corpo imundo, se completem em orgias astrológicas
e que desse gozo postimeiro, que dessa morte lascívia, se construa novos ruídos, novos desfechos
Queer! photo by elinaenlai
a morte, a cocaína e o discurso farmaco
http://g1.globo.com/musica/noticia/2015/01/laudo-aponta-que-irmao-de-mc-gui-morreu-de-overdose-de-cocaina.html
nesse link acima, onde a grande mídia noticia a morte de um parente de um "famoso", percebo a reificação, o lapidamento de um discurso, uma criação de verdades. o discurso farmaco sendo feito em cima do uso de substâncias químicas, consideradas "drogas" para alguns e vista como diversão por outras. não falo da morte dele, que não conhecia e por isso não opino e jamais julgarei, mas do discurso médico construído em cima de uma tragédia familiar:
"Fantástico: Vocês suspeitavam do envolvimento dele com drogas há quanto tempo? Mãe: Uns 4 meses. Fantástico: E que tipo de mudanças ele teve no comportamento? Como é que vocês perceberam? Mãe: A maneira como ele chegava em casa, né? Chegava em casa meio alterado. Estava meio agressivo nas palavras. O pai já chegou até falar pra ele: "Se eu descobrir que você tá usando droga, se eu pegar, Gustavo, eu vou te amarrar dentro de casa". Ele chegou a comprar uma corrente e falou que ia amarrar"
LEMBRANDO que na matéria a mãe e o pai dizem saber apenas do envolvimento com maconha, com a cocaína eles não desconfiavam.
a história de um jovem irmão de um funkeiro famoso que sofreu/teve overdose e uma grande emissora que aproveita de uma tragédia familiar para reforçar um discurso de que as drogas matam, quando na verdade, devemos pensar: em que tipo de geografia corporal esse discurso se insere? como que se reproduz esse discurso? a sua formação odontológica, naquele lugar que já é configurado como pré-suposto, como ela se forma? a partir de que motivos e circunstâncias?
o uso excessivo de uma substância química tirou a vida desse rapaz? ok. mas esse tal "uso excessivo" se fez como? quais motivações participaram da criação desse "uso excessivo"? essas perguntas parecem interessantes para se refletir antes de se fazer qualquer questionamento sobre o uso de drogas. afinal, se questiona os meios de utilidade para o açúcar, chocolate. onde está a diferença?
a saúde. o corpo perfeito. eles imperam.
o dia que chorei com uma aluna
hoje eu chorei com uma aluna. abracei forte ela, que também me abraçou forte, e choramos.
o motivo do choro dela foi: a mãe, que não aceita a filha lésbica que tem, descobriu que ela namora uma outra aluna do colégio - que eu também gosto muito - e a expulsou de casa. agora ela está morando na casa de uma tia que, felizmente, a aceita como ela é.
um baseado e dois corpos-luz
passo a passo ele surgia diante de meus olhos. caminhava em minha direção como se já soubesse o caminho que o meu corpo precisava para ser corpo e para ser vida e para ser o que é.
ele foi todo dedos e suspiros. toques reais na minha pele. mas antes, antes dos toques reais, tiveram os passos demorados.
primeiro ele me mirou, como já disse, depois ele caminhou, como também já disse. e por fim ele chegou perto. puxou um papo, pediu uma bola. passei. e os passos demorados se mostraram.
a fumaça ficava entre a gente. a fumaça sempre fica entre eu e eles. a fumaça sempre está presente. e ela escondia um pouco ele, um pouco ele que se escondia nela, se escondia dos meus olhares, que fuzilavam suas ações, suas falas, suas palavras mansas que cal ma men te saíam de seus lábios carnudos grossos maravilhosos. ai que coisa boa aquela boca.
eu procurava algum erro, algum vacilo, uma mentira, uma ação desfeita, um arrependimento. eu procurava ele dentro dele mesmo e nos lados de fora também. era ele que eu tentava enxergar, mesmo estando ele, por inteiro, diante do meu olhar inquisidor. eu procurei tanto, que quando encontrei, foi mais sol ainda. foi mais luz ainda. quando encontrei ele, diante de mim, de pau duro, veiudo, todo sedento por beijos, eu fui luz também. me enchi de luz, transbordei de luzes bonitas e cheirosas e estonteantes.
mas ele também se mostrou dúvida. ele não conseguia disfarçar. ele inventou uma imagem e depois percebeu ser difícil sustentar a pose e caiu. só a luz continuou. depois eu percebi que a luz não se criava de dentro dele, a luz se criava da sua fala.
ele emanava luz quando falava, a fazia ocupar um espaço perto da gente, o mesmo espaço que a fumaça ocupava. então, diante de mim e diante dele, não estava a gente, estavam a fumaça e a luz. as duas coisas nos separavam e nos deixavam longe.
e as duas coisas, fumaça e luz, nos inundaram, juntas, nos buracos, nos cantos incobertos, descobertos e abertos de nossos corpos. corpos de luz e fumaça e desejo e tara e muita viadice.
a sua luz era de viadice. ou melhor: é. pois agora é para sempre. a luz, ele, a fumaça, a memória e a lembrança.

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07 músicas para chapar
01 Lady Jane - A Barca do Sol
02 Outro Mambo, Outro Mundo - Novos Baianos
03 Maloca o Flagrante - Bezerra da Silva
04 Sangue Latino - Secos & Molhados
05 Babylon By Gus - Black Alien
06 Urubu Rei - Ana Cañas
07 Não Vá Se Perder Por aí - Os Mutantes
experimentação de sensações micro-corpóreas em regiões risonhas do CORPObaseado
a ponta feita de pontaçaços que foram feitos de pontaços que foram feitos de várias pontas que vieram de pontaçaços que sei lá é um infinito de coisas que aparecem coladas em energias bem tititiquinhas quase não vemos elas, malemá tocamo as energias pequenas que formam uma energia grandona que engloba tudo. e depedaça tudo. e tudo não existe mais, por que nas pequenas energias o tudo é tão pequeno que nem se realiza. nas pequenas energias que surgem da ponta.
brincando de adivinhar signos
tão viciade em ler-saber sobre as energias cósmicas dos astros, e como elas afetam as pessoas, que converso mais de 20 minutos com uma pessoa desconhecida (ou pouco conhecida) e já tô tentando adivinhar o signo dela. e depois de muito refletir e pontuar as possibilidades astrológicas, pergunto o dia do nascimento. se acerto, dou um grito do tipo yessss; se erro, faço cara de indignade e digo "sério? passada". caso eu já conheça a pessoa, e eu já saiba o seu respectivo signo solar, fico tentando adivinhar o ascendente.
a gente é eco sem espaço
a gente é repetição, recriação e reificação de discursos ditos e mal-ditos de outras vidas, outras guerras, outros choros, outras derrotas. falamos de transformações de ideias, mas, por diversas vezes, esquecemos de dar nome aos sofrimentos e dores que nos cercam. a gente vai morrer e nada vai mudar. e se mudar, não vai ser a tal da mudança, vai ser mais um desvio de rota, de perspectiva. a tal alteração, modificação, metamorfose de cistemas: essas coisas a gente não vê, nunca ninguém viu. só flashes, ecos mortos, dor-de-cabeça. a gente é eco sem espaço.
bateu aquela tristeza aqui. e toda vez que ela me visita, eu busco o baseado. isso mesmo: quando triste, fumo pra esquecer das alegorias do sentir (mas nem todas as vezes que fumo é por tristeza, também é por safadeza mesmo). hoje eu decidi não fazer isso. hoje eu vou viver em cada pedaço do meu corpo a tristeza. vou deixar o choro tomar o lugar da piração, por que percebi que chorar também é rebeldia. chorar é mostrar que não está de acordo com alguma coisa e hoje eu não estou de acordo com nada, nem ninguém, porra alguma.
hoje eu choro porque eu deixei, faz tempo, de tentar salvar as pessoas, pois percebi que não consigo resgatar nem a mim mesma.
experimento na grama, movimento 1
se afunda na grama com o corpo. quase se enraíza junto a terra, quase se prende às raízes dos ramos de grama que se prendem à terra. chapada, deitada na grama com o corpo, voando sobre o céu com os olhos fechados, braços esticados e mãos abertas, cravadas no solo; ela traga o baseado, prende a fumaça, solta e abre os olhos: a imensidão do céu a faz se perder dentro da sua própria mentre. afunda, cava, corre e some, praticamente desaparece no azul forte do céu. ela está rendida, está desfeita, nem sente mais o corpo. cada pedaço está feito terra e grama e é na terra e na grama que ela se agarra e se faz presente. ela foi a terra e a grama. do verbo não se fez de carne, nem de barro. é da grama. nem eva, nem adão e nem nada. ela transcende no próprio espírito, é a própria gaia. mais uma bola. prende a fumaça, solta e da risada. ela se afunda na grama com o corpo de tanto rir.

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ando um pouco estressada e amontoada de coisa, todos os dias eu tenho alguma pira pra fazer, tá foda. mesmo quando eu tento dar aquela escapadinha da realidade, ligar um som e curtir uma brisa, não rola! a realidade ainda fica presente. os dias estão cada vez mais arrastados, o tédio tomando conta de tudo. acho que eu fumo maconha para fugir de tudo isso... pelo menos tentar.
convivendo com mãe taurina, parte 1: lua em touro
lua em touro. é com essa informação que começo o dia. e também com a leitura de um email desnecessário de uma pessoa querida, mas egoísta e carente.