Era um dia absolutamente comum. Cheirava a mofo, banheiro sujo e comida estragada. Uma combinação inusitada, mas que já fazia parte do habitual.
O homem sentia uma sensação de vazio no estômago: era mais do que uma necessidade fisiológica. Era como se algo ou alguém estivesse se alimentando dele de dentro para fora.
Afastou os lençóis encardidos e encarou, como toda amaldiçoada manhã, a parede oposta à cama de armação de ferro. A mancha escura crescia exponencialmente; a alma monstruosa da casa. Para ele havia algo mais: uma verdade inominável. Tinha a esperança de que se olhasse por tempo suficiente para a densa escuridão do mofo, conseguiria decifrar o código, mas sempre saía da observação mais exausto do que o normal, como se a tentativa de diálogo com a coisa o exaurisse e roubasse um pouquinho mais de sua energia vital a cada dia.
No manhã em questão, ele fez uma xícara de café bem forte. Ficou por volta de quatro ou cinco minutos olhando a espuma dissipar-se; o reflexo das olheiras fundas e cabelos desgrenhados surgindo com clareza no negrume do líquido: a versão distorcida ou real de si mesmo?
Inspirou o aroma, bebericou uma, duas, três vezes, mas o gotejar da torneira enferrujada da cozinha não permitia que ele se concentrasse nas minúcias do café. Dos canos velhos um odor de morte se desprendia. A casa era antiga, claro. Herança da avó materna, mas para ele isso não importava. A casa poderia estar caindo, as paredes descascando, os ratos invadindo, o mundo em chamas e, no entanto, as únicas coisas importantes eram o café amargo de todo dia e o mofo crescente na parede do quarto.
No tedioso ritual, ele retornou para o quarto, largou a xícara de café na banqueta ao lado da cama e cravou os olhos, como duas estacas, na mancha escura. A coisa estava maior? Talvez do tamanho de um homem mediano. Ele contemplou a esquisitice até os olhos arderem. Até a mancha configurar-se em formatos diversos, até o mofo contorcer-se, a manhã desaparecer, a tarde cair e a noite surgir... E de tão comedida observação, alguma coisa se fez presente nos limites entre o real e o imaginário.
Uma criatura de aspecto repugnante: a cabeça em tonalidade amarelada, revestida de uma estranha couraça que se fundia a pedaços de pele soltos; o corpo, que aos poucos se apresentava em uma imitação perversa do nascimento humano, feito em retalhos. Uma mistura macabra entre homem e monstro. Costas calosas, antenas longas e frenéticas. Braços e pernas de aspecto áspero como a de um inseto, que se desprendiam do corpo grotesco, causando a impressão de que o que se apresentava ali era alguma deformidade entre o homem e a vespa. As asas, tão desprezíveis quanto o restante, se debatiam, meio murchas e tristonhas. A criatura, por fim, caiu no assoalho do quarto. O mofo, tão repentinamente como surgiu durante o verão infernal daquele ano, desapareceu.
Estava diante do inacreditável. A resposta que tanto almejou, mas que agora lhe causava náuseas e arrepios. O monstro foi tomado por pequenos espasmos e os olhos não tardaram a abrir-se para o mundo, aquosos e desprezíveis, grandes e esferais, fundidos próximos a um nariz humano que parcamente se prendia à cabeça de retalhos.
“Oi” disse o monstro. A voz leve como a de uma criança medrosa.
“Oi” disse o homem. A voz leve como a de uma criança medrosa.
Soavam patéticos e iguais.
A criatura levantou, ainda com certa dificuldade, todo o seu corpo horrendo, mostrando mais claramente a sua repugnância de homem-inseto. Foi então que o único e verdadeiro homem ali presente percebeu que tinham exatamente a mesma altura! Ainda que tal fato isolado não representasse grande coisa, o homem decidiu que ignoraria a criatura. Como não poderia? Tinham a mesma voz e a mesma altura; um era humano e o outro monstro. Suas semelhanças, de qualquer forma, eram inadmissíveis.
Daquele dia em diante, passou a dormir, a tomar banho, a preparar seu café, a assistir programas de televisão com o monstro ao seu lado, como um objeto qualquer que estava ali inconvenientemente. Havia um acordo implícito: ele não falava e o monstro também não, mas coexistiam como a sombra um do outro. Sombras que insistiram nas suas existências ao custo uma da outra.
A certa altura, o homem adoeceu. Acamado, ele ouvia os ruídos do monstro pela casa, fazendo uso de seus objetos como se fossem dele, preparando os cereais vencidos em uma tigela verde, gargalhando com um Talk Show enquanto suas antenas dançavam aleatoriamente. O homem-vespa parecia mais vivo do que nunca, demonstrando toda a sua desumanidade com os vícios diários, sujando a casa com os seus restos e cheiro.
O homem, ainda que fraco, estava decidido: acabaria logo com a diversão! Planejou todos os passos: esperaria anoitecer e pegaria a enxada que ficava pendurada na parede dos fundos da casa. Acertaria o monstro quando o mesmo estivesse dormindo no sofá.
A noite surgiu com um céu sem estrelas e o vento morno. Trêmulo e suado, o homem saiu da cama. Sentia o corpo todo oscilando entre a fraqueza e a adrenalina, mas levaria o plano à risca. Na sala, a televisão ligada em volume baixo transmitia um programa qualquer sobre vida selvagem: a imagem de uma vespa arrancando a cabeça de uma abelha. O homem olhou do aparelho para o ser dormindo plenamente em seu sofá e sentiu uma onda de repulsa o atingir. Marchou em direção à porta dos fundos, pegou a enxada, retornou à sala e tão simples quanto imaginou, acertou uma, duas, três, quatro, vinte vezes a cabeça da criatura. Até suas forças serem levadas por completo; até o cenário transformar-se em um amontoado de gosma indistinguível.
Durante o restante da noite, dormiu plenamente; seus sonhos dominados pela temática da liberdade. Pela manhã, sentia que suas forças haviam sido reparadas por completo. Sentia o entusiasmo e a vontade que lhe foram roubadas. Escovou os dentes, lavou o rosto e decidido a procurar um emprego e começar uma nova vida, vestiu suas únicas peças de roupa em estado mais ou menos adequado e foi até a sala. Passou pelo corpo caído de um homem pálido tal como ele, de lábios retos, tal como ele, de olhos pequenos e nariz afilado, tal como ele. O corpo ensanguentado de sua fiel cópia; de um irmão gêmeo que não mais habitava o mundo dos vivos.
O homem feliz, por sua vez, não percebia o cenário surrealista bem diante de seus olhos. Sorria como se uma revelação tivesse o atingido: a revelação de que agora sim poderia viver a vida sem uma sombra ao seu lado.
- Almanaque em "Contos da Noite"