“Deusas passam maionese no pão?”, ele me pergunta na noite de um domingo. O encaro incrédula e, com a boca obstruída, ouço a mesma voz repetir a mesma pergunta - deusas passam maionese no pão? - sob a certeza da minha reação ser por motivos de audição.
Afrodite reencarnada, é assim que ele me chama vez em quando depois de nossas criações de galáxias enjauladas. Afrodite certamente não passaria maionese no pão. Tzatziki, talvez. Mas não maionese.
Ainda não o respondo, em parte porque não existe resposta rápida à uma pergunta de tamanha magnitude, em parte porque a acidez preenche minhas papilas gustativas no momento. Boca obstruída.
“Deusas passam maionese no pão?”, cada letra ecoa separadamente pela minha cabeça. Ele ainda me encara, meio rindo, enquanto dispensa a maionese de seu próprio pão. “Não sou como você, sou apenas um utilitário”. Utilitários, então, não passam maionese no pão.
Finco os dentes na massa de trigo uma vez mais antes de acabe. Ainda sem réplica, viajo - não na maionese - por tudo aquilo que poderia me levar a ser a resposta de sua pergunta. Ou melhor, por tudo o que ele acredita que me levaria a ser a resposta da sua pergunta.
Definitivamente não é ateu, mas talvez eu mesma carregue sua religião por entre as curvas do busto e quadril. Orações ininteligíveis criadas pelo pescoço, vestindo zéfiro, estrelas e, também, ele.
“Deusas passam maionese no pão?”, ele parece esperar uma resposta com olhos, sem precisar refazer a pergunta.
“É um bom título para uma crônica”, finalizo.
O pão, também.
E, agora, essa.
[de, por e para] julieta.
















