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21 de maio de 2014 [edited].
As luzes do ônibus se aproximavam rápida e furtivamente, estouradas no meio de meu astigmatismo, me hipnotizando como olhos de gato no escuro: frios e calculistas.
“Espera o próximo”, agarrou minha mão, “Por favor”.
Senti o vento do outono em uma avenida de Botafogo chicoteando meus cabelos no rosto, uns rápidos arranhões com dor momentânea que nada faziam além de cócegas. Ligeiro, ele vinha buzinando como quem avisa do toque de recolher pelo letreiro laranja.
Foram trinta e dois segundos.
Começaria com um beijo. Singelo, apesar de desesperado. Delicado, apesar de urgente. Como duas crianças que se conhecem no jardim de infância e disputam quem vai pular amarelinha primeiro. Seria jogar, chegar ao céu sete vezes e não se importar em pular a oitava. Iria embora na quinta condução, uma hora e quatorze a mais para chegar em casa. “Foi o trânsito”. E todos os dias posteriores multiplicariam os trinta e dois segundos por finitas vezes. Em todos os dias haveria de ser o trânsito. Todos os dias as mensagens aumentariam - e não as dos letreiros. Seriam carinhos e gargalhadas e apelidos. Dois ou mais sorrisos novos, de canto de boca, tão íntimos quanto são capazes de. Cada vez mais papéis de entradas em sessões noturnas apagando suas histórias no fundo da gaveta, mais marcas de bocas contornadas em fina gordura nas bordas de copos de cerveja, mais rabiscos mal feitos nos braços e coxas com caneta permanente, mais fugas escondidas do mundo e de todos, até de nós. Ali, ele viria oculto, se esgueirando entre as reverberações das risadas, entre os trechos mal afinados e os beijos no pescoço. Faria perder as horas, entortaria os sonhos e traria inspiração aos rabiscos mais realistas quanto uns rabiscos podem ser. Mexeria comigo. Enlouqueceria os mais loucos dos devaneios. Grudaria em meu corpo feito tatuagem.
Amaria.
Futuro do pretérito.
Os sorrisos morrem. A tinta permanente da caneta, esquecida no estojo desde o segundo ano, só duraria até o primeiro banho. As risadas perderiam o som em frases secas e se tornariam personagens principais de pesadelos sem lógica ou fundamento. Gatos ririam de escárnio, julgando cada centímetro de pele marcada, cada minuto de atraso patrocinado pelo astigmatismo mental, enquanto arranhariam folhas de papel com obras de grafites até rasgá-las.
Seriam vinte nove milhões, setecentos e vinte e um mil e seiscentos segundos.
“Não posso perder esse ônibus”. Aceno, então, com a certeza de que a dor de ir embora é menor do que a de esperar mais trezentos e quarenta e quatro dias pra você me atropelar.
[de, por e para] julieta.












