Sou conhecido como Giovanna Sarto, tenho 24 anos, 1,68m e 65kg. Nascido em 14 de
fevereiro de 1940, na cidade de Milão - Itália em uma família tradicionalmente ligada
ao ramo da alta costura, em especial dedicada a alfaiataria. Irmão mais velhos de mais 2
irmãs, sendo a do meio com 7 anos de diferença de mim e a mais nova 9. Meninas que sabiam lidar muito bem com as exigências da minha família quanto ao “ser mulher”,
contrário de mim.
Cresci em um ambiente farto de recursos, cultura, educação, sempre próximo de grandes nomes, vivenciei a arte em todas suas nuances. Em uma família tradicionalmente conservadora e católica, conheci as regras e etiquetas para mulheres desde o momento que compreendi meus próprios pensamentos. Com pai e mãe muito
rigorosos e preocupados com o nome da família, sempre fui obrigado a ser uma mulher
firme, religiosa, intelectual e de comportamento exemplar. E como odiei cada segundo
que me obrigaram a vestir roupas de gala, saltos, vestidos, maquiagem. Desejei morrer todos os dias. Meu refúgio era o jardim de minha casa, aonde eu corria e observava o
lago de águas turvas que compunha o paisagismo melodramático daquela casa de arquitetura medieval, sempre o observei a distância, porém o temia, me assustava pensar o que aquelas águas escuras e profundas poderiam esconder.
Desde muito pequeno, acompanhei meu pai, Anthony Sarto. Homem de grande prestígio por toda Europa e mundo. Em suas diversas viagens a negócios me apresentou o imenso mundo do poder, fama e suas consequência; me ensinou tudo sobre a alta costura e, como uma princesa herdeira, título que o próprio e toda a mídia me nomeava,
colocou em meus ombros a responsabilidade de dar continuidade ao seu legado de sucesso.
Aos 8 anos de idade estive com meu pai e minha mãe no Instituto Marangoni em Milão,
aonde estes eram convidados de honra para uma cerimônia de certificação de alunos destaques. Durante o evento, cochilei nos ombros de minha mãe e tive um sonho confuso. Neste, um homem trajado com um terno muito bem alinhado, digno de um prêmio da alfaiataria, me encarava com um olhar melancólico. Daquele dia em diante,
aquele rosto nunca mais fugiu da minha mente, aquele terno e seu alinhamento perfeito.
Ali, naquele momento nascia uma obsessão que me traria um completo
desentendimento comigo mesmo.
Anos se passaram, cresci, e assim como de desejo do meu pai, me tornei o fruto digno
do seu legado. Reconhecido como a grande referência de moda masculina da alta
costura, passei a representar meu pai em todos os eventos e a lançar meus próprios projetos com o nome da nossa grife. No auge dos meus 22 anos criei obras dignas de
um renomado alfaiate com mais de 40, 50 anos de carreira, mas isso nunca me deixava satisfeito, afinal como citei anteriormente, desde aquele fatídico dia, uma imagem pairava na minha mente e a cada projeto que criava, eu buscava aquele homem, aquele terno e isso me tomava, me frustrava e enlouquecia, pois eu nunca o alcançava.
Na noite de 14 de fevereiro de 1964, há algumas horas da festa de gala do meu 24º aniversário, em um momento de criação, tomado pela loucura do álcool, abri meu closet e joguei todas as minhas roupas no chão. Ao meio da pilha de roupas, havia um terno antigo, “Selecto”, uma obra parida da mente e mãos do meu pai. Recolhi aquele traje do chão, joguei-o sobre a cama e repousei minhas mãos sobre ele lentamente de cima abaixo. Meu coração acelerava e um desejo vigoroso me mandava vestir aquele terno.
Eu tive medo e me afastei dele, pois eu era um criador de roupas masculinas, não um
homem, segundo a arquitetura que a minha família havia me apregoado.
Retomei o fôlego, me aproximei daquele terno, tomei o paletó e o vesti. Senti uma
euforia, como se estivesse vestindo minha própria pele. Um medo me subiu pela
garganta e rapidamente me livrei da peça. Tornei a observar a pilha de roupas, e daquela infinidade de vestidos separei apenas um, um vestido branco e simples e decidi que aquele seria o vestido de meu aniversário. Nu, acendi a lareira e fui jogando um a um dos demais vestidos no fogo e observando as chamas, eu busquei por aquele homem. Os vestidos desapareciam entre as labaredas e formavam uma grande pilha de cinzas e a cada desfarelar dos tecidos, mais eu me afastava do que diziam ser eu, mais eu
observava aquela mulher que não sabia o que fazia alí, que não sabia quem era, que estava completamente sem rumo. Vesti aquele vestido branco e joguei nas chamas a última peça que restava no quarto, o terno “Selecto” de meu pai.
Meu coração doía, uma lágrima corria em dos meus olhos e não entendia o porquê de eu
não conseguir alcançar aquele homem, o porquê de, ao meio de tantos privilégios, minha alma ser vazia e enlouquecida. Me dirigi a varanda, da onde podia ver o jardim e ao fundo o lago que temi na minha infância. Algo me convidou a seguir aquela direção, em ímpeto saltei pelo parapeito da varanda, me enroscando entre as trepadeiras e pousei de joelho no chão. Firmei meus olhos a caminho do lago e paço a paço iniciei uma corrida entre o jardim, tal qual na
minha infância, porém determinado em alcançar o meu temor. Com o peito saltando
sem fôlego, cai de joelho a beira do lago e pela primeira vez mergulhei meus olhos em
direção a aquelas águas profundas. Do fundo do lago, submergindo em minha direção,
finalmente eu vislumbrei quem eu procurei em toda minha vida. Aquele homem. Com
seus olhos melancólicos alí estava quem eu procurava: Eu, Giovanne Sarpo.
Conto/gênese em primeira pessoa