É mais fácil amar puramente nossos amigos ou nossos filhos: porque esperamos menos deles, porque os amamos o bastante para nada esperar deles, ou em todo caso para não submetermos nosso amor ao que esperamos deles. É o que Simone Weil chama de amor casto: “Todo desejo de gozo situa-se no futuro, no ilusório. Ao passo que, se apenas desejamos que um ser exista, ele existe: então que mais desejar? O ser amado é então nu e real, não velado pelo futuro imaginário… Assim, no amor, há castidade ou falta de castidade, conforme o desejo seja voltado ou não para o futuro.” Simone Weil, que não procura agradar, acrescenta o seguinte, que talvez choque alguns ingênuos, mas que dá o que pensar: “Nesse sentido e contanto que não seja voltado para uma pseudo-imortalidade concebida com base no futuro, o amor que temos pelos mortos é perfeitamente puro. Porque é o desejo de uma vida finita que não pode dar mais nada de novo. Desejamos que o morto tenha existido, e ele existiu.” É o luto perfeitamente bem-sucedido, quando nada mais há do que a doçura e a alegria da lembrança, do que a eterna verdade do que aconteceu, quando nada mais há do que amor e gratidão. Mas o presente é igualmente eterno; nesse sentido, poderíamos acrescentar, e contanto que não seja voltado para um pseudoconsumo concebido com base no futuro, o amor que temos pelos corpos, pelos corpos vivos, também pode, às vezes, ser perfeitamente puro: é o desejo de uma vida presente e perfeita. Desejamos que esse corpo exista, e ele existe. Que mais pedir? Sei que na maioria das vezes não é simples: a carência interfere, e a violência, e a avidez (quantos acreditam desejar uma mulher quando desejam apenas o orgasmo?), todo o obscuro do desejo, todo esse jogo confuso e perturbador em torno da transgressão, da profanação (o sagrado, dizia eu, é o que pode ser profanado: o corpo humano é sagrado), esse fascínio – exclusivamente humano! – pelo animal que há em si e no outro, esse jogo entre vida e morte, entre prazer e dor, entre sublime e indigno, em suma, tudo o que há de prontamente erótico, mais do que de amante (mais do que de agápico!), em dois corpos que se enfrentam ou se buscam… Mas isso não é impuro, ou não parece sê-lo, a não ser em referência a outra coisa: a animalidade só faz sonhar os humanos, a perversão só atrai pela lei que ela transgride, a indignidade só pelo sublime que ela insulta… Eros seria impossível, ou em todo caso nada teria de erótico, sem Philia ou Ágape (não haveria nada mais que a pulsão totalmente boba: que fastio!), e creio, com Freud, que o inverso também é verdadeiro. Que saberíamos do amor sem o desejo? E que valeria o desejo sem o amor? Sem Eros, não há Philia, não há Ágape. Mas, sem Philia ou Ágape, Eros não tem nenhum valor. Portanto, temos de nos habituar a habitá-los juntos, ou a habitar o abismo que os separa. É habitar o homem, que não é nem anjo nem animal, mas o encontro impossível e necessário entre os dois: “O baixo-ventre”, dizia Nietzsche, “é a causa de o homem ter certa dificuldade de se tomar por um deus.” Ainda bem: é somente graças a isso que ele é humano, e que assim permanece. A sexualidade é também uma lição de humildade, que não cansamos de aprofundar. Como a filosofia, a seu lado, parece loquaz e presunçosa! Como a religião parece tola! O corpo nos ensina mais a seu respeito que os livros, e os livros só valem desde que não se minta sobre o corpo. Pureza não é pudicícia. “A extrema pureza”, escreve Simone Weil, “pode contemplar o puro e o impuro; a impureza não pode nem um nem outro: o primeiro lhe dá medo, o segundo a absolve.” O puro, por sua vez, não tem medo de nada: ele sabe que “nada é impuro em si” ou (mas isso dá no mesmo) que “tudo é puro para os puros”. É nisso, como dizia ainda Simone Weil, que “a pureza é o poder de contemplar a sujeira”. É dissolvê-la (pois nada é impuro em si) na pureza do olhar: os amantes fazem amor à luz do dia, e a própria obscenidade é um sol.