O ódio era um poderoso combustível. Rowan não se lembrava de um único dia da vida adulta que não tivesse o experimentado. Era o que tinha o movido para Londres, também, e para aquele salão de bailes. Nem sempre visível, o ódio agora vinha encoberto por um esforço em mostrar-se polido e cavalheiresco, apesar dos frequentes olhares de repreensão que sentia em suas costas. Ele tinha feito outras coisas em nome do sentimento, como contratar investigadores particulares, ordenar que lhe entregassem informações pormenorizadas da atual situação de Townshend, verificar seus ganhos, os lugares que frequentavam os Goldenwood… Era só por isso que sabia que a beldade que acabava de se pronunciar era ninguém menos que Tulip Goldenwood, vez que a loira não passava de uma criança na última vez que a vira, bem como que ela era a última jovem da casa que ainda não tinha arranjado um marido. Era mesmo irônico que ser tão angelical tivesse laços consanguíneos com o próprio demônio, e o Lawson sabia que ela não tinha culpa, mas isso não o impediu. ‘ Presunto e melão? É isso que estão servindo? E eu ansioso por prova do buffet da rainha… ’ meneou a cabeça, não fazendo questão de esconder a decepção. ‘ E por que diabos você não comeria? As porções são contadas? Cada convidado só tem direito a sua cota-parte? ’
Memórias eram enganosas. Faziam parecer que as coisas no passado eram melhores do que realmente eram, ou maiores, mais dolorosas ou mais relevantes do que deveriam ser. Tully, por mais de uma vez, tentou se convencer de que mesmo que todas as memória do antigo cavalariço eram, de alguma forma, exageradas. Ele com certeza não deveria ser tão forte, nem tão gentil, nem ter um sorriso que fazia com que seu coração infantil se quebrasse em pedacinhos quando ele por fim partiu. No fim... As memórias envolvendo Rowan Lane sucumbiram ao que acontecem com todas as memórias: se esvaem com o tempo. O rosto dele não era mais tão vívido, as frases que ela jurara nunca esquecer agora pareciam confusas. Mas ela se lembrava da voz, de como ele era o único que parecia se importar com ela. Ouvir aquela voz novamente fez com que o coração saltasse no peito, e ela estava amarrada em um espartilho tão apertado que era possível que ele rasgasse o vestido. Ela se virou, encarando a presença quente e misteriosa do cavalheiro que era tão elegante, que com certeza não deveria se tratar do rapaz simples e maltrapilho que trabalhara na casa de sua família anos atrás. Os olhos azuis escuros o encararam por tempo o suficiente para que fosse considerado uma ousadia, até falta de educação. --- Me perdoe, é que- --- Ela estava prestes a dizer que ele lhe parecia alguém que ela conheceu, mas isso a levaria a dizer que ele parecia o filho do servente e isso não seria lisonjeiro para tipos como o dele. --- Nada, eu estou sendo boba, por favor me perdoe! --- Ela abanou o espaço entre eles, voltando a olhar para a comida. --- Bem, eu espero que não! --- Riu baixinho. --- Mas caso seja, por favor fique com a minha porção, eu não acho que vá conseguir comer qualquer coisa mesmo. --- Ela suspirou procurando pela acompanhante dele ou a dela, que por algum milagre haviam desaparecido. --- Acho que não fomos apresentados... Eu sou Tulip Goldenwood, mas por favor, me chame de Tully. --- Como se não bastasse encarar o desconhecido ela também tinha se apresentado... Estava quebrando mais regras de etiqueta em meio segundo do que podia se lembrar, mas mesmo assim, não conseguia evitar.