A culpa é dos russos: A marcha final do PT by Thiago Holanda Dantas https://link.medium.com/tBhtIVh5qR

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A morte de Deus e a destruição de uma civilização
Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos!
A famosa e forte afirmação de Nietzsche ainda ressoa como seu martelo, fazendo estremecer as bases da filosofia, da teologia e da sociedade como todo. Sua afirmação decreta uma realidade vista pelo próprio, Deus não era mais relevante, ele havia se tornado uma ideia ultrapassada. A modernidade O havia deixado e Ele tornou-se apenas um ser que existia em memórias e templos que se tornaram seu túmulo, pois na vida dos cidadãos Deus não era mais necessário, sendo retirado da esfera publica, e relegado a um lugar obscuro na esfera privada de alguns poucos crentes. O que Restou foi apenas a superstição, e uma crença quase infantil, não a ideia de um Deus real, vivo e poderoso
Era do cansaço
Vivemos dias de cansaço generalizado, um cansaço que não parece ter fim nem começo, é simplesmente um cansaço do cansaço. A vida contemporânea é em si cansaço, a atualidade exaure dos seres toda energia, levando a uma fadiga interminável.
Esse cansaço segundo Byung chul-Han, que antes era causado pelo excesso de negatividade, como um vírus que tenta atacar o corpo e matá-lo, agora, é pelo excesso de positividade, que as doenças, principalmente as psicológicas são causadas. Não mais um corpo estranho tenta tomar conta, mas o próprio individuo que se expõe, e se fere, causando seu mal. Algo como uma doença autoimune. O organismo mata a si mesmo, pensando estar o curando.
-Doenças neuronais como a depressao, transtorno de deficit de atenção com sindrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limitrofe (TPL) ou a Sindrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do seculo XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo, imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Han
Han dá exemplo da gordura, que não é rejeitada pelo corpo, diferentemente do vírus que é combatido, entretanto os dois causam a morte, seja pela negatividade do vírus, ou pela positividade da gordura. Han, cunhou o termo, sociedade do cansaço, para exemplificar a sociedade atual, que vive dias de superexposição a informações e de si mesmos, acarretando uma auto-cobrança excessiva por performance em todos os âmbitos, seja nos relacionamentos, na carreira profissional, nos estudos ou qualquer outra área, levando a esse enfarto causado pela superatividade, enquando a sociedade diz “yes you can”,a alteridade o limita a não poder, esse “não poder-poder”, leva aos problemas psíquicos como depressão, ansiedade e síndrome de burnout, sendo resultados de uma positividade exagerada do eu, uma overdose de si mesmo e a cobrança por performance. Fazendo com que cada ser humano se sinta fadigado mentalmente
Por outro lado, Camus tem outra abordagem para essa sociedade de cansaço, ele é causado pela falta de sentido concreto,
“os gestos de levantar, bonde, quatro horas de escritório ou de fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono e segunda-feira, terça, quarta e quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, (...) um dia apenas o porquê desponta, e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto.
Han acredita em um cansaço por superexposição, para Camus, os problemas são derivados de um mal-estar coletivo, de uma rotina repetitiva e que se apresenta por muitas vezes sem sentido, é a falta de um porquê, uma razão para continuar nessa rotina cansativa de repetição, aparentemente sem significado, que faz com que o cansaço surja. Como o mito de Sísifo, que fora condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra caia invariavelmente dela. Este processo seria sempre repetido por toda eternidade, os seres humanos foram condenados a uma existência sem significado, isso fica mais evidente na vida contemporânea, nesse ciclo de acordar, trabalhar, dormir, que se repete diariamente até a morte. Todo o esforço é cansaço, pois foi retirado o sentido, tudo é mais do mesmo. Seja um cansaço pela superexposição ou pela mesmice de uma rotina, todo ser humano contemporâneo se encontra nesse estado de cansaço permanente.
Tanto Han quanto Camus, concordam que a vida contemporânea trouxe o cansaço estafante, misturado a cobrança e tedio, seja nessa positividade excessiva ou na falta de sentido, tudo é tedio e cobrança por desempenho.
Han chama de sociedade do desempenho a sociedade atual,
“a sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos”,
a sociedade de desempenho, faz com que os seres fiquem alertas e produtivos a todo o instante, eles são seus senhores e servos, algumas drogas como ansiolíticos e antidepressivos são usadas para manter esse estado de alerta e atenção constantes. É uma tentativa de fugir da falta de sentido e do cansaço, para manter corpo e mente alerta para ser mais exposto e realizar cada vez mais. A meta é se manter desperto e útil 24 horas por dia, para que não fique fora da constante enxurrada de novas informações e da autocobrança. Como ratos em laboratórios que são mantidos alertas na expectativa por mais alimento, a era atual prende pela promessa de uma nova atualização, um upgrade que irá melhorar a vida ou trazer algum sentido, num futuro menos fatigante do que o atual, o alvo é o descanso, que sempre vira em uma próxima atualização.
Será que há algum tipo de alivio para esse cansaço constante? Há uma esperança para o termino do cansaço, o paraíso do trabalhador - a aposentadoria, que talvez chegue a algum momento no futuro. Descansar é a meta final, entretanto acostuma-se com pequenas folgas, então, durante a semana pensa-se no final de semana; no final de semana, pensa-se nos dias da semana, no trabalho pensa-se nas férias prometidas, nunca há real descanso da mente.
Porém, quando finalmente chega, o reino na terra prometido, a recompensa de anos de trabalho, o descanso merecido, entretanto, ao invés do repouso, seu premio recebido é mais culpa. Nem mesmo descansar é permitido, pois o sujeito de desempenho, não permite ao sujeito contemplativo parar. Eles estão em conflito, pois toda forma de descanso é imbuída da ideia de perda de tempo, então parar não é uma opção ao homem de desempenho.
Por falta de repouso nossa civilização caminha para a barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo. Nietzche
Nunca antes a sociedade prezou tanto pelos que fazem, os ativos, entretanto essa atividade, não levará nada mais que barbárie. A profecia de Nietzsche sugere uma solução ao mal-estar dos inquietos – a contemplação. Essa contemplação não em um sentido metafisico, mas da própria vida em si, assim como Epicuro, em um sentido material, ignorando a divindade ou o medo da morte, somente com uma vida contemplativa o ser humano poderá escapar da barbárie generalizada, que pondera sobre a própria “vida vivida”. Por outro lado, o contemplatio medieval, como apresentado por São João da Cruz, procura a mais intima conexão com o divino. Para ele, “Contemplação não é outra coisa que infusão secreta, pacífica e amorosa de Deus que, se lhe dão lugar, inflama a alma no espírito de amor”. Diferentemente de Nietzsche, São Joao, enxerga a contemplação como a conexão com o divino, onde nesse processo ele transfere algo de seu próprio ser, o amor. Os homens nesse processo se tornam parecidos com seu criador, tem forças para viver em um mundo inquieto, somente através do momento de solitude com Deus e o relacionamento com Ele, é que se pode livrar do pensamento de desempenho e atingir uma vida contemplativa verdadeira.
Seja na visão materialista de Nietzsche ou metafísica de São João da Cruz, todos enxergam que a saída para uma vida marcada pelo cansaço é única: parar, respirar, verificar qual o caminho está sendo trilhado e seguir, não deixando que uma corrida por uma cenoura ou o pote de ouro no fim do arco-íris sejam as metas, elas simplesmente não existem! Elas lançam sobre um pretenso futuro utópico as realizações. Nesse admirável mundo do futuro, os sonhos se realizarão e enfim terá fim o cansaço. Se não se muda, nada muda, é preciso a eliminação do pensamento de desempenho pelo pensamento contemplativo, não mera contemplação que esteja somente no campo das ideias, mas essa contemplação que transforma a vida contemporânea agitada e faz com que se encontre o descanso necessário em meio ao caos.
BIBLIOGRAFIA:
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005;
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010
Pilatos e Jesus - o encontro de dois mundos
Pilatos então voltou para o Pretório, chamou Jesus e lhe perguntou: "Você é o rei dos judeus?"
Perguntou-lhe Jesus: "Essa pergunta é tua, ou outros te falaram a meu respeito? "
Respondeu Pilatos: "Acaso sou judeu? Foram o seu povo e os chefes dos sacerdotes que entregaram você a mim. Que é que você fez? "
Disse Jesus: "O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui".
"Então, você é rei! ", disse Pilatos. Jesus respondeu: "Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem".
"Que é a verdade? ", perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu novamente para onde estavam os judeus e disse: "Não acho nele motivo algum de acusação.
Contudo, segundo o costume de vocês, devo libertar um prisioneiro por ocasião da Páscoa. Querem que eu solte ‘o rei dos judeus’? "
Eles, em resposta, gritaram: "Não, ele não! Queremos Barrabás! " Ora, Barrabás era um bandido. João 18:33-40
Jesus e Barrabás, um inocente e um revolucionário lado a lado. Barrabás foi preso por cometer um motim contra o império romano e assassinar um soldado (Mc.15.7), Barrabás era membro de um facção judaica, provavelmente os zelotes, que queriam tomar o poder à força. Suas palavras e ações agradavam a muitos judeus que sonhavam em um dia ser libertos de toda a opressão romana. Ele poderia ser o messias prometido e o libertador de Israel.
Jesus era um líder com uma mensagem libertadora, entretanto, ao invés da libertação pela força da espada, ele traz a mensagem que liberta o homem de si mesmo, não prega uma revolução que tomará a liberdade pela força do braço, mas sim, que conhecendo a verdade, ela a libertaria. Essa mensagem transformou muitos, mas também, desagradou outros que não queriam ser transformados de dentro pra fora, mas queriam que as coisas continuassem como estavam e não queriam que o poder da religião se enfraquecesse.
E é sob a acusação de revolucionário e blasfemo, que Jesus é trazido ao palácio de Pilatos, o governador da província da Judeia, o debate entre Pilatos e Jesus, suscitam algumas perguntas, Jesus era rei? Ou se achava rei? Que verdade era essa que ele carregava, ao ponto de levá-lo a ser condenado á morte pelos lideres religiosos?
Giorgio Agamben interpreta esse momento histórico,
Quando Jesus é levado diante de Pilatos, já foi dito, dois mundos estão imediata e irreconciliavelmente de frente, o dos fatos e o da verdade. Mas não é suficiente: nesse pretório de província, cujo improvável local os arqueólogos acreditaram ter identificado, quem se enfrenta não são somente os fatos e a verdade: aqui, como nunca em outro lugar na história do mundo, a eternidade cruzou a história em um ponto exemplar, o temporal foi atravessado pelo eterno.
Dois reinos estão dispostos frente a frente, o reino terreno, representado por Pilatos e o reino dos céus, na figura de Jesus; o reino finito julgando o infinito, a verdade e o transitório, esse julgamento se dá pelas acusações dos fariseus de que Jesus estaria se rebelando contra o estado romano, declarando-se rei. Nisso Jesus passa pelas mãos de Caifás, Herodes e Pilatos, três instancias, entretanto, somente a religião o declara culpado de blasfêmia, pois Jesus declarou que era filho de Deus(Mt.26.62-65), os outros dois, não quiseram julgá-lo. Ante Herodes, que estava mais empolgado em conhecê-lo do que julgâ-lo, pensando que talvez ele realizasse algum milagre, é interrogado, não encontrando crime algum, o devolve para Pilatos.
Jesus não foi aceito pela religião nem pelo poder constituído, Jesus foi jogado de um lado ao outro, para que alguém talvez tivesse a coragem de julgá-lo, somente a religião julgou Jesus, somente os que pensavam ser os filhos de Javé, julgaram o Filho de Deus, porém, o reino terreno não pôde julgar o reino do céus.
Então, após essa recusa de Herodes acusá-lo, Jesus retorna ao pretório e o diálogo inicia-se com Pilatos querendo saber se Jesus realmente declara-se rei, o que Jesus não responde, mas devolve outra pergunta, "Essa pergunta é tua, ou outros te falaram a meu respeito?”, qual eram as fontes de Pilatos? Uma revelação divina ou mera informação terrena?
Pilatos, diz que foram os judeus e os sacerdotes que lhe trouxeram, mas parece incomodado, por não enxergar ali, naquele homem em estado deplorável, um rei. Ele pergunta, “Que é que você fez?” Jesus não responde, mas dá outra informação “meu reino não é desse mundo”, eu não sou como os outros que passaram por aqui, querendo tomar o poder, na realidade “todo o poder me foi dado, tanto nos céus e na terra”(mt.28.18), não era um governador, de uma província esquecida na Judeia que iria julgar o rei dos rei. Pilatos está de mãos atadas, pois “se fosse (um agitador social, um revolucionário), os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui.”. Jesus responde aos soldados que o vieram prender, “Por acaso sou algum revolucionário perigoso para que venham me prender com espadas e pedaços de pau?”(Mt.26.55). Diante dessa afirmativa, não há o que ser feito, com essa resposta Jesus derruba toda acusação contra ele, não há o que fazer, Pilatos está diante de um dilema, Como condenar um homem sem crime? Ele é rei, mas não daqui, não desse mundo, como há de julgar Pilatos um rei de um reino superior ao seu?
“Então tu és rei!” Pilatos tenta recolher mais informações do réu, Jesus responde, Sim, essa era sua missão e ele veio principalmente para testemunhar da verdade, e aqueles que são dá verdade o ouvem.
A verdade é algo que Pilatos gostaria de experimentar, saber de fato, “o que é a verdade?”. Pilatos pergunta sobre a verdade, para aquele que era a verdade incarnada! Pilatos parece usar de ironia, pois aquele homem em frangalhos seria o portador da verdade, entretanto, o que ele não poderia enxergar era que, a verdade residia bem em frente aos seus olhos. Uma pergunta parecida fez Felipe, um dos discípulos, querendo que Jesus mostrasse o Pai (Jo.14.8), ambas tem a mesma natureza, olhos que não podiam enxergar realidades para além dos sentidos. Somente os nascidos do espirito poderiam enxergar o Pai e a verdade em Cristo. Pilatos não era da verdade.
Agamben parece estupefato com o julgamento de Jesus, pois,
enquanto eu analisava o texto do Evangelho de João, tornava-se cada vez mais evidente para mim que, no término da sexta hora, o juiz não tinha pronunciado um juízo, tinha simplesmente “entregue” Jesus – assim dizem concordemente os evangelistas – aos sinedritas e aos carnífices. Durante toda a duração do processo, Pilatos, aliás, só tinha tergiversado, tentando primeiro se declarar incompetente e remeter o juízo a Herodes, propondo depois uma anistia para a Páscoa, finalmente fazendo com que o acusado fosse flagelado para isentá-lo da acusação maior. Mas quando todo expediente, toda tergiversação resultara vã, ele não pronuncia o juízo, limita-se a “entregar” Jesus. Houve um processo – ou, ao menos, um simulacro de processo: mas ele não concluiu com um juízo. Ainda mais enigmático se tornava o meu problema. O que é, de fato, um processo sem juízo? E o que é uma pena – neste caso, a crucificação – que não deriva de um juízo?
Destarte esse julgamento seria impossível, como visto pelo espanto de Agamben, uma corte humana querer julgar os deuses, entretanto ele se dá, e o incrível é Jesus, o homem-deus, rebaixando-se ao nível desse julgamento meramente formal, que não imputa crime algum, apenas a entrega de Jesus à multidão, avida por sangue. Nesse julgamento de faz-de-contas, Pilatos é o juiz que recusa-se a dar um juízo. Por não obter uma resposta favorável, Pilatos isenta-se de seu papel de legislador do império romano, lavando as mãos, esperando que o povo possa fazer um julgamento justo. “Vox populi, vox dei”, e assim foi, o povo julgou jesus como assassino, rebelde e ladrão. Escolhendo Barrabás, seu salvador revolucionário. A voz do povo, não foi a voz de Deus, escolheram o que seus olhos viam. Escolheram o rei errado que iria tomar o poder, estabelecendo o reino de Deus na terra pela força. Nem Herodes, Nem Pilatos, nem o povo, nem os lideres religiosos. Ninguém conseguiu enxergar.
O rei que mudaria o cenário externo derrubando o poder seria o messias prometido que restauraria o trono de Davi. Foi escolhida a vida mundana à vida eterna. O povo ansiava pelo salvador, mas não soube discernir entre um verdadeiro rei e um impostor. Escolher aquele que mudaria a vida por dentro, que faria com que o pior governador externo, não fosse nada perto do reino que habitava dentro de si. Jesus disse: “o reino está em vós”, o reino não está fora. A multidão quis mudanças externas e não internas, quiseram o reino que está do lado de fora, mas não o reino dá transformação do coração.
Pilatos foi omisso ou foi usado por Deus? A sua omissão permitiu que ele fosse usado por Deus e cumprir exatamente o resultado esperado, a condenação de Cristo. Por mais que Pilatos quisesse fugir, ele o condenou a morte e fez cumprir o destino proposto por Deus Pai, ao Deus Filho – a morte na cruz, para resgate de muitos (mt.20.28). Ele haveria de morrer pelas mãos do reino desse mundo, para que ele pudesse exclamar: “Está consumado!”, somente assim, Jesus poderia habitar no coração daqueles que a opulência do reino terreno não valiam de nada, sendo Senhor de corações e mentes. Seu reino não é do poder dos exércitos, seu reino é o coração do pobre de espirito, que nada tem, nada deve e nada pode fazer contra o poder dos poderosos, além de confiar na provisão de seu senhor.
BIBLIOGRAFIA
Agamben, Giorgio. O fascínio discreto de Pôncio Pilatos, Publicado originalmente em italiano no jornal La Stampa, 25.09.2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto, para o IHU-Unisinos.
PINTURA:
Ecce homo de Antonio Ciseri
A Escandalosa e louca cruz - quando a razão e a religião não são o bastante
Não vim para batizar, mas para proclamar Cristo, não utilizando de sabedoria humana, para que a cruz não perca seu poder! (I co.1.17)
Nós pregamos o Cristo crucificado, que é escândalo para judeus, e loucura para os gregos. (Ico.1.23)
No pensamento de Paulo, utilizar-se de sabedoria humana para proclamar Cristo, faz com que a mensagem da cruz seja enfraquecida.
Sendo assim, todo artificio que é usado para fazer com que a palavra de Deus seja doce, suave e agradável ao paladar humano, coloca em risco sua mensagem, que é frágil, ao mesmo tempo a mais poderosa, como um remédio, que em sua dosagem prescrita, pode salvar e curar de uma doença, com uma superdosagem, pode levar a óbito e se diluído, não faz mal nem bem. Esse é o cuidado que Paulo tem para não acrescentar algo que fizesse com que essa mensagem fosse adulterada por seu próprio intelecto e fosse modificada, a mensagem da cruz deveria ser loucura e escândalo (Ico.1.23) para ouvidos gregos e judaicos, ou seja, seu proposito era de ser estranha, inadequada àqueles guiados pela razão(gregos) ou pela religião(judeus). Ninguém poderia sair impune a ela.
Escândalo e Loucura, duas palavras que colocam o portador da mensagem em apuros. Sendo loucura, não pode ser aceita pela mente racional e intelectual, que enxerga somente a racionalidade em tudo. Chesterton diz, que loucura é acreditar somente na racionalidade das coisas e ter a certeza de tudo. Um louco tem firmes convicções, ele tem certeza que ouve vozes, que tem alguém à sua procura e que suas ações podem desencadear a 3ª guerra mundial. Sua loucura baseia-se na não-duvida ou certeza cega. Essa pretensa racionalização reduz o alcance da mensagem, fazendo com que somente o que é material seja aceito, por estar nos limites da razão e pode ser “cientificamente comprovado”, como se isso desse algum aval de certeza. Nessa busca insana por racionalidade, acaba-se matando a mensagem transcendente, que retira o homem do mero quotidiano e transporta-o para o nível maior da existência.
A segunda palavra é o escândalo, sendo aquilo que choca, por estar fora dos padrões aceitáveis da moralidade e do que é prescrito pela religião. Quando Cristo aceita o convite de jantar na casa de Mateus(lc.5.29-30), um cobrador de impostos, sendo um pecador convicto, ele subverte a noção de que um líder religioso respeitável não poderia sentar-se à mesa de uma pessoa de tão baixa estirpe, ou quando aceita a adoração de uma mulher de má fama, que se derrama em sua presença aos prantos, beijando seus pés, Simão como um bom religioso o reprova, colocando a reputação do mestre em jogo (lc.7.36-50); a adultera que seria apedrejada (jo.8.3-11), a samaritana com mais de um marido(jo.4.1-26), Zaqueu, outro cobrador de impostos(lc.19.1-10), ou qualquer outro personagem de vida moralmente duvidosa, todos são convidados a cear com seu Senhor e nenhum deles é jogado fora de sua comunhão.
A mensagem é escandalosa, por fazer corar os mais religiosos, faz com que rostos se virem ao passar o nazareno e portas se fechem. Sua mensagem e seu comportamento são tão escandalosos que Nicodemos, um respeitável líder da sinagoga, tem de procurá-lo à noite, às escuras (jo.3.1-21), pois não era possível ser visto à porta daquele homem perigoso, que comia com pecadores. Esse nazareno é chamado de beberrão e comilão, pelos religiosos, mas é adorado pelas multidões, que o perseguem atrás de alguma dádiva ou ouvir de seus ensinamentos.
Seu escândalo não é somente por uma mensagem acima da religião ou não ortodoxa, mas sim, porque ela prega o Cristo crucificado, isso é escandaloso para os judeus e religiosos, que não aceitam um sacrifício que não seja pago com o mero cumprimento da lei por eles próprios, e loucura para os gregos, que não poderiam aceitar um sacrifício sem sentido, que não tivesse razão aparente.
“O escândalo da cruz é para muitos ainda mais insuportável do que outrora os trovões do Sinai para os israelitas. Sim, eles tinham razão quando disseram:"... Deus não deve falar conosco, senão morremos" (Ex 20,19). Sem um "morrer", sem a destruição do que há de mais individual, não há comunhão com Deus nem redenção...”(Bento XVI, 2013, p.74)
Deus primeiramente revelou-se por entre raios e trovões, com a penalidade da lei escrita em tabuas de pedra, entretanto, o discurso do nazareno é mais pesado, pois, ao invés de somente tratar da exterioridade do cumprimento dos mandamentos, trata do interior do homem, faz com que os atos externos sejam um reflexo do processo de limpeza interno, ou que atos externos somente revelem a hipocrisia humana.
Mas ao mesmo tempo, que sua mensagem afastava aqueles religiosos e “santarrões”, atraia as multidões sedentas e esquecidas pela religião. Aqueles marginais, os pobres de espirito, os sofredores, os injustiçados, todos aqueles que eram olhados de cima para baixo, com claro senso de desdém. Esses foram chamados de Bem-aventurados(mt.5.3-10), pois estavam ali, sem posses, sem bens, sem nada que pudesse ficar entre seu Senhor e a si próprios, haviam deixado tudo por seu senhor, que também se fez pobre para poder ser um rejeitado e sofredor como eles.(2co.8.9)
Por isso evangelho, significa boas noticias, e elas chegaram aos sem esperança do mundo, uma mensagem louca e escandalosa que botou o mundo de pernas para o ar, que conseguiu por de joelhos todo um império, que subverteu a ordem natural de autopreservação, para entregar-se à morte como ovelhas no meio de lobos(mt.10.16), que colocou pobres sentados com príncipes, que fez com que meros pescadores fossem transformados em arautos desta mensagem grandiosa.
Esse evangelho, que transformou Paulo, um assassino em nome da religião, um extremista que buscava a todo custo, encaixar sua fé e sua razão, em sua visão de mundo religiosa, que matava todos aqueles que estavam subvertendo o judaísmo, transforma-se em perseguido pela mesma mensagem, só que agora, livre de sua cega devoção, pode finalmente gritar, que não mais é um zeloso seguidor da lei, que está acima dos pecadores, mas sim, dentre esses pecadores o maior.(Itm.1.15)
BIBLIOGRAFIA
BENTO XVI, Jesus de Nazaré, vol.1, 2013
Chesterton, Ortodoxia, 2017

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O inferno da aprovação dos outros no mundo virtual
Vivemos em um mundo de superexposição, conectados as redes a todo instante, isso coloca-nos diante do dilema, “postar ou não postar”? A todo o momento uma carga de informações invade nossas telas e ao mesmo tempo, criamos conteúdos, emitimos opiniões, tiramos fotos e postamos para que alguém veja o produto de nossa vida, demonstrar o quão bem-sucedidos somos ou quão felizes nossas vidas estão. Ou talvez qualquer momento que seja importante ou não. Uma viagem ou um simples almoço pode virar um grande evento virtual, basta que o outro o aprove para que uma simples refeição seja alçada ao status de um banquete, apenas pelo numero de likes recebidos.
Nesses dias o outro virou o validador da felicidade, aquele no qual busca-se aprovação, não que nunca tenha sido desta maneira, desde crianças queremos a aprovação de nossos pais e amigos para sermos aceitos por eles, a nova questão é que procuramos aprovação de completos estranhos, para que qualquer evento seja bom ou ruim, se por acaso uma reunião com amigos não recebeu muitos likes, ela não foi boa o suficiente, sendo assim, toda a experiência virtual tornou-se uma busca por aceitação de um outro, que pode nem existir, sendo um bot, ou robô, que valida toda a experiência nesse ambiente.
Rene Girard, fala sobre o desejo mimético, ou seja, o desejo será sempre copiado do outro que o aprova ou não, sendo assim, triangular, contendo, nas palavras de Girard, sujeito desejante, o objeto desejado e o modelo-mediador, esse último é o que valida ou não o desejo. Para Girard, nunca desejamos algo por si só, mas necessitamos do modelo, que media, valida e do qual copiamos o desejo, para que esse seja completo.(Girard,2011,p.9-10) seguindo esse conceito, tornamo-nos um bando de crianças que choram por atenção, a cada postagem feita,
Fico espantando que estamos todos no Twitter e Facebook. Por "nós" eu quero dizer adultos. Somos adultos, certo? Mas emocionalmente, nós somos uma cultura de crianças de sete anos de idade. Alguma vez você já teve aquele momento em que você está atualizando seu status e você percebe que cada atualização de status é apenas uma variação de um único pedido: Será que alguém por favor pode me notar?[...] Você posta e você espera. O primeiro “like” aparece. Sim. Todos os comentários são lidos como: "Estamos te vendo, Marc. '' Nós te amamos, Marc '' Nós nos importamos que você está ai, Marc." Twitter e Facebook são os meus tecno-pais, saciando a criança em mim... Mas eles não estão além de abusar de mim. (Maron,2013,p.161)
Mas quem é o outro, que busco validação? Ele é alguém que realmente merece esse destaque? Sartre diz que o inferno são os outros, sua frase tem o sentido de que o outro é um limitador de liberdade, eu não posso me tornar o outro, não posso saber seus pensamentos, nem saber suas intenções. O outro é um eterno mistério. Entretanto, nesse mundo conectado, o outro não tem espaço para ser o outro, ele é visto a todo instante, não há espaço, nem lacuna, para que o outro seja mistério, pois tudo que era oculto foi agora desvelado, e está exposto a todo instante.
A exposição ao invés de criar transparência, revela um ser nu, sem camadas, apenas uma imagem. Byung-Chul Han chama essa sociedade da transparência, uma sociedade que demanda estar sob os holofotes 24 horas por dia, entretanto essa transparência e proximidade não trazem consigo mais realidade, pois ”a falta de distância não é a proximidade; ao contrario, ela a aniquila. A proximidade é rica de espaço, enquanto que a falta de distância a aniquila.”(Han,2017.p.37), como um quadro que para ser apreciado deve-se tomar distância, pois se tiver muito próximo, o que é visto são um monte de borrões de tinta. Assim são os seres virtuais, que não tem profundidade, nem distanciamento, nem nada a dizer, pois falam a todo instante e estão conectados initerruptamente, é impossível dizer algo de relevante quando se fala a todo o momento, pois não se tem tempo para o vazio, e é nesse vazio onde se cria a profundidade. Han prossegue, falando sobre a necessidade de distanciamento,
”Frente ao pathos da transparência que domina a sociedade atual, seria necessário exercitar o pathos da distância. Vergonha e distancia não podem ser integradas no circulo veloz do capital, da informação e da comunicação, para que não sejam eliminados, em nome da transparência, os lugares de refúgio discretos, tornando-se iluminados e saqueados. Com isso, o mundo se torna mais desavergonhado e desnudo”(Han.p.15)
A instantaneidade do outro e sua exposição, se torna pornográfica, uma relação “desejo-olho”, o que é a conexão sem contato real, amizade sem discussão, conversa sem troca, sexo sem cheiro, um contato estéreo, sem bactérias, quase pasteurizado. O outro se torna não mais um ser humano, mas algoritmos e um validador de opiniões pessoais.
Numa sociedade positiva, onde negativos não são aceitos, tal qual, fotos tiradas, mas sem negativos, somente positivo, uma foto que não revela a realidade, que não tem data, nem história, mas a projeção positiva da vida. Sem nenhum tipo de negatividade para não servir como empecilho para a troca de informações e a revelação da fantasia criada. Como um sorriso amarelo que pode ser photoshopado e virar o mais belo dos sorrisos, mesmo que no instante da foto, o sorriso falso, revelasse a realidade do momento. O importante é a impressão passada.
Distância, silêncio e um lugar de refugio, são necessários para sair desse ambiente que nos draga para essa mentalidade de aceitação cega da aprovação do outro, para que a felicidade não seja condicionada pelos likes recebidos, para que não nos percamos no mar de informação é necessário uma bussola para a realidade, como o personagem de Leonardo diCaprio no filme A Origem, que trazia consigo um peão, que ele utilizava para não perder-se no mundo dos sonhos. Quando na dúvida se sonhava ou não, ele o girava, sabendo que no sonho ele girava indefinidamente e na realidade ele parava, também sabia seu peso, tamanho e gravidade. Assim também nós, devemos ter objetos e pessoas reais que nos façam voltar à realidade, pessoas que serão a âncora que não permitira que nos percamos no mar da aceitação alheia.
BIBLIOGRAFIA:
GIRARD, René. Anorexia e desejo mimético. São Paulo: É realizações, 2011
HAN, Byung-Chul. Sociedade da Trânsparencia. Petrópolis: Vozes, 2017
MARON, Marc. Attemping Normal. Nova Iorque:Spiegel&Grau,2013
SARTRE, J.P, Huis Clos. Paris: Gallimard, 1970.
Pintura: Abstract painting - Hell Are The Others - mixed media
Oséias e Gomer - O anti-romance
Até onde pode ir um amor não correspondido? Qual é o limite do sofrimento por amor? O que é o casamento? Todas essas questões são levantadas no livro de Oséias, em uma historia de amor, sofrimento e redenção.
Oséias e Gomer são o casal improvável , unidos por uma ordem divina ““Vai, toma uma mulher de prostituições, e filhos de prostituição; porque a terra certamente se prostitui, desviando-se do Senhor. Os. 1:2, esse é o ponto de partida dessa saga amorosa. Uma historia de amor entre dois personagens bem distintos - um profeta e uma prostituta, que foram usados por Deus para exemplificar seu próprio relacionamento com o povo de Israel, marcado pela traição com outros deuses.
Apesar do inicio conturbado, Oséias parece ter começado a viver uma história de amor, Gomer deu-lhe três filhos, os quais, com nomes bem peculiares, Jezreel ,Sem-misericórdia e Não-meu-povo, três nomes que revelam o que Deus faria a Israel, três profecias ambulante carregadas por Oséias.
O que estava tornando-se uma bela história de amor, transforma-se em um pesadelo. Após algum tempo, Gomer foge de casa e volta para sua antiga vida de prostituição, seu amor foi trocado por outros amantes, e Oséias põe em dúvida até a paternidade de seus filhos,
Repreendam sua mãe, repreendam-na, pois ela não é minha mulher, e eu não sou seu marido. Retire ela do rosto a aparência adúltera e do meio dos seios a infidelidade.
Do contrário, eu a deixarei nua, como no dia em que nasceu; eu farei dela um deserto, eu a transformarei em terra ressequida, e a matarei de sede.
Não tratarei com amor os seus filhos, porque são filhos de adultério. A mãe deles foi infiel, engravidou deles e está coberta de vergonha. Pois ela disse: ‘Irei atrás dos meus amantes, que me dão comida, água, lã, linho, azeite e bebida’.Os. 2:2-5
Oséias ouviu a voz de Deus, fez o que ele queria e sofreu muito por isso. Assim como Jó foi usado como uma metáfora para o mal que assola a raça humana, Oséias foi uma metáfora do que é o verdadeiro amor, um amor que está acima da vida humana,que ‘tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta”(I co.13.7), é maior do que o absurdo de casar-se com alguém que claramente iria traí-lo, o que coloca em cheque a concepção do que seja o amor entre duas pessoas.
A história de nosso herói anti-romântico, ensina-nos sobre os limites do amor, e o que está para além de suas fronteiras. Faz-nos pensar sobre até aonde é possível amar alguém. Essa historia leva-nos aos limites do que achamos ser o amor no casamento, sobre como a fantasia do relacionamento perfeito e de uma vida sem problemas, tem influenciado casais que se preparam para o grande dia . É obvio que uma historia sobre o casamento entre uma prostituta e um profeta não é algo comum, nem provável que alguém casaria-se com uma prostituta em serviço, como fez Oséias, entretanto, essa episódio faz-nos refletir sobre o que é o casamento..
Oséias significa Javé Salva e Gomer, completo, perfeito. Seus nomes mostram suas missões, o de Oséias era salvar Gomer de seu destino e Gomer completar e aperfeiçoar Oséias. Os dois estão ligados e unidos por esse contrato chamado casamento. Oséias só poderia ser “completo” em Gomer e Gomer só poderia ser salva por Oséias. Não é isso o que deveria ser o casamento?
Sendo a união de duas pessoas que apesar de suas falhas e erros, enxergam-se atados, tentando complementar e ajudar o outro em suas falhas e muitas vezes, tendo que virar as costas para seus erros?
Uma Frase atribuída a Benjamin Franklin demonstra as diferentes atitudes que alguém deve ter antes e depois do casamento, “Antes de casar, abra bem os olhos; depois de casar, feche-os”. Se antes de casar deve-se observar bem quem será seu cônjuge, ter certeza que é aquele(a), que será o escolhido para compartilhar todos os aspectos da vida, após o casamento, deve-se tentar não enxergar os erros e adaptar-se a um outro ser bem diferente de si mesmo, como uma massa uniforme que toma a forma do recipiente, os cônjuges devem adaptar-se a essa fôrma chamada casamento, que amalgamará os dois, tornando-os um. O que é um processo extremamente doloroso.
Conta-se uma historia de um casal que estavam juntos há muitos anos e que tiveram sua casa incendiada, a esposa conseguiu escapar, infelizmente teve parte de seu rosto e braços queimados, o marido foi menos atingido, porém estava no CTI, quando sua esposa, temendo o espanto de seu marido com suas queimaduras que deformaram seu rosto, foi visitá-lo. Quando o viu, explicou como estava, ele porém, disse ter ficado cego, e que “guardava sua beleza em sua mente e coração”, os dois viveram mais 20 anos juntos depois do acidente, até que ela veio a falecer. Quando o esposo estava no velório e olha para o corpo inerte de sua mulher, diz: “Como você é linda meu amor!”, um amigo que estava ao lado, olha espantado, “É um milagre!”, o senhor explica, que ele não estava cego, mas preferiu fazer isso para que sua esposa sentisse-se bela e amada, e esses foram os melhores 20 anos de sua vida.
Essa estória revela, que amar é muito mais que à busca por uma pessoa perfeita em um relacionamento com unicórnios voando em um céu cor de rosa, em um eterno mar de rosas, mas sim um comprometimento com o outro, uma aliança, que apesar do humor, da idade e da doença permanece, às vezes, até após uma traição.
A história de Oséias continua com uma surpreendente ordem de Deus,
"Vá, trate novamente com amor sua mulher, apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o Senhor ama os israelitas, apesar de eles se voltarem para outros deuses e de amarem os bolos sagrados de uvas passas". Os. 3:1
Quem faria algo do tipo? Ir à busca da mulher que voltou a vida de prostituição e ainda por cima pagar para tirá-la de seu estado de escravidão. Algo inimaginável, mas era isso que Deus queria revelar através da vida de Oséias e Gomer. Essa historia manifesta a natureza do amor, a abnegação e o negar-se a si mesmo em prol de algo muito maior. Essa narrativa mostra o tamanho do amor de Deus, exagerando a relação entre um homem e uma mulher, entre Deus e seu povo, para percebermos o que é o verdadeiro amor.
Permanecer por anos a fio com a mesma pessoa, com todos os problemas do cotidiano, com o envelhecimento e a perda da beleza juvenil, não é possível sem um senso maior de união e de um entendimento de amor para além da vida, é impossível alguém amar outra pessoa com todas suas falhas e erros, sem o senso de missão para fora de si mesmo e sem principalmente o auxilio divino.
Paulo, pela dificuldade de uma vida à dois, escreve aos corintios e, dá o seguinte conselho, “Digo, porém, aos solteiros e às viúvas: é bom que permaneçam como eu”(solteiro).1 Co. 7:8
Paulo tenta resolver esse embate, com a radicalidade, para que não se sofra,é melhor não casar, entretanto, apesar de todos os conselhos e advertências, não há estado civil mais cobiçado e almejado por cada casal apaixonado.e não há forma melhor de amadurecimento e de crescimento pessoal , do que essa tão atacada instituição.
O mito do amor romântico
Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. Fernando Pessoa
Fernando Pessoa é enfático em dizer que não amamos ninguém. O que amamos é a nós mesmos projetados no outro. O amor seria ver nossa imagem refletida em outros olhos, apenas um conceito criado que foi colocado sobre a pessoa amada. Sendo assim, essa pessoa é somente uma fantasia criada por nós mesmos e se adéqua perfeitamente a quem somos, não importando suas qualidades e seus defeitos, pois ela não é um ser real, apenas um ideal.
Assim como Narciso, que foi condenado a apaixonar-se por si mesmo e acabou morrendo observando a própria face refletida em um lago, fomos condenados a amar a nós mesmo, numa incessante busca por aquele que nos completará.
Nossas relações são apenas uma busca por amor próprio, e amar é apenas uma projeção feita por nós mesmos no outro, um espelho, que busca no outro enxergar a si próprio. Um falso amor ao outro, que é somente amor próprio travestido de amor ao próximo.
Aristófanes no dialogo O banquete, de Platão, conta uma lenda sobre o amor, no princípio existiam seres que possuíam quatros mãos, quatro pernas, dois rostos, quatro orelhas e dois sexos. Eles eram completos em si mesmos e ”eram de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham” vendo isso, Zeus não poderia matá-los, pois acabaria com a adoração e louvor que recebia, então Zeus teve a ideia de separá-los, o que os enfraqueceu, entretanto, fez com que cada um caísse em tristeza e fosse em busca da sua metade perdida.
Para Aristófanes, amor é a busca por aquele que restaurará a antiga natureza, que trará a completude e a felicidade. Amor transformado em uma corrida para tentar reencontrar a parte perdida que está vagando pelo mundo.Infelizmente, essa é a ideia de amor que acabou triunfando no final e é esse conceito que moldou a ideia do amor contemporâneo. Uma eterna busca pela metade perdida, condicionando a felicidade ao encontro desse ser desmembrado de si mesmo. O que torna-se algo egoísta, pois esperasse encontrar alguém que seja exatamente seu encaixe perfeito, alguém que suprirá todos os seus anseios por intimidade, amizade, intelectualidade, sexo e afinidades. Tudo isso em um único ser humano.Uma tarefa ingrata e um peso grande para qualquer pessoa.
Entretanto, e se essa metade não for encontrada, o que pode-se fazer? Aceitar uma vida de eterna infelicidade, com alguém que não é a metade perdida, mas apenas uma peça de um quebra-cabeça mal encaixado, um pedaço que não é seu, improvisado para sempre, sendo condenado a viver com um quebra-galho. Ou conviver com o cinismo de nunca encontrar o amor e passar de match em match, de cama em cama, já que não existe o par perfeito, nem a cara metade, vale mais a pena entregar-se a uma vida de frivolidade pura e simples.
O mito do amor romântico acabou por colocar um peso no outro que não havia antes, O romantismo trouxe o individualismo, o foco nas emoções e sentimentos do individuo e o peso de suas consequências. Tudo ao redor reduz-se ao eu e como poder viver um amor impossível. Historias como Romeu e Julieta, têm influenciado todo o pensamento romântico moderno e isso transborda para o grande sonho romântico – o casamento, que é acompanhado do famoso “felizes para sempre”, contado e recontado nas estórias infantis.
Ser um príncipe e uma princesa é o que é esperado dos cônjuges em uma vida talhada perfeitamente, revelada em fotos, declarações, viagens, eventos que devem ser compartilhados a exaustão, para demonstrar a perfeição de um amor de conto de fadas. Só que, o que os contos de fadas, comedias românticas, e livros não revelam, é que pessoas reais vão ao banheiro, pagam contas, soltam gases, tem mal humor, e quando esses seres romantizados vão viver sob o mesmo teto, eles tem que conviver com pessoas reais, e não projeções idealizadas de si mesmos.
Romper com esse pseudo-amor e amar um ser humano verdadeiramente é o desafio de todo ser narcisista, que somente “ama aquilo que é espelho” e descarta tudo que é diferente. Amar a diferença é o que o amor romântico moderno não aceita. Pode-se escolher todo tipo de produto, onde comer, qual profissão exercer, tudo milimetricamente calculado, sem qualquer tipo de contratempo, por que também não escolher da mesma maneira o objeto de seu amor? Apps de namoro são a resposta pós-moderna ao anseio pelo par ideal,uma falsa tentativa de diminuir a angustia da procura pela metade perfeita. Esse ser fabricado na imaginação, ganha forma na tela, como um tipo de Frankestein, mas quando se materializa, pode não ser o que esperava-se.
O namoro, o casamento, ou qualquer relacionamento humano, só é perfeito quando não existe, quando ele passa a existir tende lidar-se com um ser humano imperfeito que não foi convidado para essa fantasia e a partir disso que se desenrola a tragédia humana: aceitar a imperfeição e tentar amar esse ser diferente de si, ou preferir continuar com a fantasia, construir uma perfeição imaginária, mascarar as falhas alheias e viver uma ilusão?
Em algum momento o castelo de areia se esvai,e a brutal realidade bate a porta, quer queira ou não,o que pode ser tarde demais.
A geração gourmet e o Senhorio de Cristo.
Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes. (Mt.11:16-17 ACF)
A análise de Jesus sobre sua geração assemelha-se à geração atual. Homens e mulheres cada vez mais agindo como crianças, que encontram-se entediados com tudo ao seu redor, que aguardam a próxima novidade tecnológica que talvez os tirará desse estado de tédio.
Pessoas que preocupam-se mais com sua próxima viagem de férias,seu post “lacrador”, ou seu novo celular, do que com seus deveres, ou com seu próximo. Para essa geração que atingiu o ápice de sua liberdade,que pode escolher dentre milhares de tipos de café ou dos melhores restaurantes especializados em “hambúrgueres artesanais”, com os ingredientes devidamente selecionados, o cristianismo não foi excluído desse processo. Nesse cardápio de tantas escolhas, surge a pergunta: Como ser um discípulo de Jesus, nesse mundo gourmetizado?
O termo submissão é algo inimaginável,para esse tempo gourmet, estar sobre o controle e domínio de algo ou alguém parece ser uma prática de tempos muito longínquos. O significado da palavra Senhor como Proprietário, possuidor, dono absoluto de algo, foi perdendo-se com o tempo e a palavra senhor perdeu sua força, significando apenas uma forma de tratamento respeitosa e pouco utilizada nos dias atuais.
A denominação de Jesus como senhor, sendo assim, possuidor e dono absoluto, torna-se um verdadeiro escândalo para a geração pós-moderna. Com a errônea compreensão do termo, surge o Jesus “legal”, que se resume a ser aquele que sacrificou-se pela humanidade, que sempre está disposto a amar, quer que todos sejam felizes e nunca demanda nada de ninguém. Sendo assim, os pregadores atuais o apresentam como uma espécie de “gênio da lâmpada”, que tem por obrigação realizar todos os desejos por mais estranhos que pareçam, de uma Ferrari a uma libertação de prisão de ventre, vale tudo.
Os pregadores midiáticos não enfatizam o senhorio soberano de Cristo, pois os mesmos também não sabem o que significa mais o vocábulo. Há uma crise etimológica, a palavra senhor já não comunica a mesma ideia ao público que foi primeiramente escrito.
A palavra senhor não tem hoje o mesmo significado de quando Jesus se achava na terra.
Naquela época, ela significava autoridade máxima, o número um, o homem que estava acima de todos os outros, o dono de toda a criação. O vocábulo grego kurios (que significa senhor) com inicial minúscula, era usado pelos escravos ao se dirigirem a seus amos. A mesma palavra, com inicial maiúscula, era aplicada a apenas uma pessoa em todo o Império Romano — a César. O césar romano era o Senhor. Em verdade, quando os funcionários públicos ou soldados se encontravam na rua, tinham que saudar uns aos outros com as palavras: "César é o Senhor!" E a resposta invariavelmente era: "Sim; César é o Senhor!"(ORTIZ,p.13)
Senhor era o mais alto grau de tratamento, e como César significava a autoridade máxima, era assim que os cristãos enxergavam Cristo, como o Soberano Senhor (Jd.1.4), sendo maior do que César ou qualquer outro tipo de autoridade humana.O que levou os cristãos às prisões,a serem mortos pelos leões, pelo fogo ou serem crucificados, foi exatamente esse recursar-se a dobrar seus joelhos ante César, o que revela a gravidade do termo Senhor.
Por outro lado, as mensagens e os pregadores atuais enfatizam mais o que Deus pode fazer pelo homem, do que sobre uma verdadeira submissão e obediência a Ele. Assim como o vocábulo senhor perdeu a sua força, Jesus também foi destituído de seu poder e autoridade na modernidade líquida.
Jesus virou “pop” e sua mensagem foi suavizada. As palavras sobre inferno (Mc.9:47), sobre obrigações morais e sociais (Mt.25), suas afirmações mais duras, como a de que ele não veio trazer a paz, porém a espada (Mt.10:34) ou sobre pedir que um jovem entregue tudo o que tinha (Mt.19:16-22), não fazem parte das demandas do Cristianismo atual, que somente preocupa-se com nosso bem estar e nossa felicidade.Esse Jesus Pop não poderia fazer nada para que ficássemos tristes. Ele virou bonzinho demais, Ele é compreensivo com nossas falhas e está sempre disposto a perdoar todas elas, mesmo que não nos arrependamos,e isso é o que faz mais sucesso.
Na contramão de todo pensamento atual, O Jesus das escrituras sagradas demanda tudo, suas palavras são radicais e únicas, pois demanda ser mais importante que seus parentes ou cônjuges, requer todo seu tempo, recursos e a sua própria vida (Lc.14.26-27). O chamado de Cristo é um chamado para abrir mão de tudo por encontrar Nele aquilo que é muito maior.
Jesus compara a importância do reino e sua exclusividade, a um homem que encontra um tesouro escavado no terreno e pela preciosidade desse tesouro, vende tudo para comprar essa propriedade e obter o bem tão valioso (Mt.13:44).
Bonhoeffer faz considerações acerca do chamado radical de Cristo,
Não lhe interessam razões psicológicas para explicar as decisões piedosas de um ser humano. Por que não? Porque para esta sequência de chamado e ação só existe uma razão válida: o próprio Jesus Cristo. É ele quem chama, e, por isso, o publicano o segue. Neste encontro é testemunhada a autoridade de Jesus, que é incondicional, imediata e sem explicações. Nada o precede e nada lhe segue senão a obediência da pessoa que foi chamada. O fato de Jesus ser o Cristo dá-lhe todo o poder para chamar e exigir obediência à sua palavra. ( BONHOEFFER, 2007. p.20)
Não há qualquer tipo de prerrogativa para a demanda de Cristo, só cabe a simples obediência - ele é o verdadeiro Senhor. Sendo Senhor, tem por seu domínio todos aqueles que dizem serem seus servos ou escravos.
A total submissão a Cristo é a única forma de obediência, independentemente das demandas atuais por democracia ou pelo pluralismo, que faz com que sempre se questione e queira-se argumentar contra as ordens dadas. Essas ideologias têm esvaziado a mensagem radical de Cristo.
Disciplina, senso de pertencimento, preço a pagar, submissão, são conceitos muito difusos e que terão de ser trabalhados com cuidado, até que a pessoa descubra as alegrias, o descanso, o significado, a plenitude da vida sob autoridade. Ela precisa aprender o que é ter um verdadeiro e único pai e ser um verdadeiro filho. (AMORESE, p.104)
Os cristãos atuais não compreendem essas premissas básicas, pois estão inseridos nesse contexto líquido de ser. Precisam desintoxicar-se de todas essas falsas ideias para ter a compreensão do Pai e serem filhos obedientes. As ordens diretas de Cristo como, vem e me segue, deixa tudo e dá aos pobres, deixe os mortos enterrarem seus mortos, e tantas outras, requerem obediência pura e simples e isso é o que é exigido dos seguidores do Nazareno.
Mas como ser um verdadeiro seguidor de Cristo? Pedro nos ilumina a respeito dessa questão, “humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte”. (IPe.5.6) “Humilhai-vos”, aqui temos o termo grego tapeinós, que pode ser traduzido por curvar-se, abaixar-se ou fazer-se baixo. também pode ser utilizado o sujeitai-vos como em Tiago.4.6. Logo, o evangelho só pode ser aceito e Cristo ser o dono de tudo, pela sujeição. Essa sujeição passa pela morte, que é a submissão final e o início do evangelho, simbolizado por Cristo na sua primeira mensagem: “arrependei-vos, pois é chegado o Reino dos Céus” (Mt.3.2).
Sem a morte ou arrependimento, é impossível ser um discípulo e aceitar todas as demandas radicais do Messias. O evangelho é a sujeição primária a tudo e a todos, e por meio da compreensão e submissão ao senhorio de Jesus. Essa subordinação não é feita por uma imposição ditatorial, mas através do amor. “Era esse amor que Jesus nos trazia, como exemplo vivo. Um amor que não precisa de força bruta para manter a coesão familiar. Porque autoridade e submissão, no reino, se dão voluntariamente: o voluntariado do amor.”(AMORESE,p.111)
Essa sujeição ocorre através do amor, pelo constrangimento de sermos amados mesmo sendo pecadores (Rm.5.8,), logo a submissão passa por entender que é Jesus aquele digno de toda a honra e é o todo-poderoso(Ap.4.11), sendo ela a única forma de servi-lo em plenitude. Não há outra forma de sermos verdadeiros discípulos, a não ser pela via mais dolorosa - a morte do ego, que é representada pelo sujeição ao mestre e seu exemplo de vida e amor.
BIBLIOGRAFIA
ORTIZ,Juan Carlos. O discípulo: Belo Horizonte, Betânia, 2007
BONHOEFFER,Dietrich.Discipulado: São Leopoldo, Sinodal, 2007
AMORESE, Rubem. Icabode; da mente de Cristo à conciência moderna. Viçosa: Ultimato, 1998.
Cristão pode ser de direita ou de esquerda?
Começar o ano com o pé direito ou esquerdo? 2018 é ano eleitoral e a guerra já foi instaurada. Bolsominions versus petralhas, coxinhas x mortadelas, direitas x esquerdas, consenso é algo improvável entre grupos bastante destintos. Nessa guerra ideológica, surge uma pergunta que gera tantas dúvidas, como um cristão deve portar-se em meio a opiniões e ideias tão diferentes? O cristão deve assumir um dos lados e lutar por ele com unhas e dentes ou omitir-se de suas responsabilidades como cidadão?
O cristão anda por uma corda-bamba, como um equilibrista que tenta caminhar pelo mundo, sem se apegar as coisas ao mesmo tempo em que deve se envolver com seu meio, um caminho difícil de ser trilhado, pois toda vez que o evangelho se misturou a cultura, ele acabou tornando-se parte dela, trazendo influências nos negócios, na política e em muitas áreas, entretanto, no processo liquefez-se, tornando-se somente aquilo que era sua mensagem secundaria. E por outro lado, quando o evangelho não se envolveu com a cultura, tornou-se inócuo, não trazendo benefícios à sociedade, o distanciando de sua realidade transformadora.
Um caso emblemático é o do estado do rio de janeiro, com o ex-governador, Anthony Garotinho, dito evangélico, acusado e condenado por compra de votos e outros crimes, ou do ex-bispo da universal, Marcelo Crivella, eleito pela maquina da IURD, que ainda não demonstrou saídas para o caos que vive a cidade, mas é contra o carnaval, fazendo com que não comparecesse a cerimonia de entrega das chaves da cidade ao rei Momo. O próprio bispo Macedo, que elegeu Crivella, utilizando-se da máquina financeira e politica de sua igreja, possui um plano de poder, elaborado no livro de mesmo nome.
Outro exemplo é a dita “bancada evangélica”, que somente luta por uma agenda moralista e não pelos benefícios da população em geral, nem aborda as denuncias graves feitas ao atual governo, em troca de leniências e favores para si e seus arraiais gospel. Na outra posição ideológica, encontram-se os chamados cristãos progressistas, que em prol de uma liberdade e igualdade, alinham-se a uma agenda marxista, pro-feminista, em favor da ideologia de gênero e do aborto. Apoiam ex-presidentes acusados de corrupção e ditadores latino-americanos. Todos os dois lados dizem lutar por um evangelho genuíno e relevante, entretanto, será que essa é a posição correta que um cristão deve ter?
Antônio Carlos Costa, em seu livro Teologia da Trincheira, afirma, “minha ideologia é cristã. Logo, não posso fechar com o marxismo, o neoliberalismo, a anarquia ou o autoritarismo.” A visão de Costa é de que devemos analisar esses pensamentos e ideologias, criticá-los, observar se são válidos a causa do evangelho, entendê-los e analisá-los. Sendo o evangelho esse balizador critico e não um limitador da visão do ser humano, pelo contrario, o expande, nas palavras de C.S Lewis, “Eu acredito no Cristianismo como acredito no brilho do sol, não simplesmente porque eu o veja, mas porque, através dele, posso ver todas as outras coisas”, entretanto, não é possível ao cristão ser um fiel lutador de ideologia a, b ou c. Não é possível, nas palavras de Jesus “servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro”(mt.6.24). O pensamento cristão é único e radical. Jesus diz
“não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o filho e seu pai, entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra, assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim; e aquele que não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. O que acha a sua vida, perdê-la-á; mas o que perde a sua vida por minha causa, achá-la-á.” (mt.10:34-39)
Essa visão,má interpretada por grupos que a utilizaram como justificativa para atos violentos durante a história, não é de violência, basta ler todo o contexto para entendê-la, pelo contrario, ela é comportamental-ideológica. No momento em que Cristo torna-se o Senhor, ele requer que toda ideologia anterior se torne obsoleta à magnitude do evangelho.E essa mudança é tão radical que não é possível haver pensamentos contrários. Chesterton expressa essa radicalidade do pensamento de Cristo,
“ele chamou a si mesmo de espada da matança e pediu aos homens que comprassem espadas, mesmo que para isso tivessem de vender suas vestes. O fato de ele ter usado outras palavras ainda mais violentas em defesa da não-resistência aumenta grandemente o mistério; mas na melhor das hipóteses também aumenta bastante a violência. Nem podemos explicar isso chamando de insano esse tipo de ser, pois a insanidade é geralmente acompanhada de uma direção consistente. O maníaco é geralmente monomaníaco. Aqui precisamos nos lembrar da difícil definição de cristianismo que apresentei antes: o cristianismo é um paradoxo sobre-humano segundo o qual duas paixões opostas podem arder lado a lado. A única explicação da linguagem do evangelho que realmente o explica é aquela da visão panorâmica de alguém que contempla, de alguma altura sobrenatural, uma síntese ainda mais surpreendente.
Nessa radicalidade, Dietrich Bonhoffer, revela-se um dos exemplos de teologia que transborda em ação politica levada ao extremo, nas suas palavras,
Não lhe interessam razões psicológicas para explicar as decisões piedosas de um ser humano. Por que não? Porque para esta sequência de chamado e ação só existe uma razão válida: o próprio Jesus Cristo. É ele quem chama, e, por isso, o publicano o segue. Neste encontro é testemunhada a autoridade de Jesus, que é incondicional, imediata e sem explicações. Nada o precede e nada lhe segue senão a obediência da pessoa que foi chamada. O fato de Jesus ser o Cristo dá-lhe todo o poder para chamar e exigir obediência à sua palavra.
.Ao invés de omitir-se de sua responsabilidade com o povo alemão, ele envolve-se no plano de assassinar Adolf Hitler e cria, em 1934, a Igreja Confessante, após a Igreja Alemã se subordinar à ideologia nazista. Sua posição é debatida, se foi correta ou não, entretanto, o que não pode ser descartado é que Bonhoffer foi fiel à mensagem que proclamava, não aliando-se ao governo nazista, o que levou-o a lutar pelo mal que atingia não somente a si, mas também os judeus e ao povo alemão, acarretando em sua morte pelo governo nazista.
Outro exemplo é Martin Luther King Jr., que pela segregação sofrida pelos negros em seu país, levanta-se contra seu governo em favor da justiça, iniciando um movimento de boicote ao transporte publico na cidade de Montgomery, culminando com a marcha na capital Washington, proclamando seu famoso discurso I have a dream. O que não agrada a todos, resultando em seu assassinato, entretanto, sua luta não foi em vão, pois, apenas alguns dias após seu assassinato, o congresso americano vota a favor do ato dos direitos civis, que proibia qualquer discriminação com relação a raça, origem ou religião.
Ambos, Bonhoffer e King, levaram sua mensagem ao extremo, culminando em seus assassinatos. Suas mensagens tiveram papel crucial em atingir toda a sociedade e não somente parte dela. O papel do cristão, pela radicalidade de sua mensagem, deve ser, seguir a seu mestre, indo onde for necessário. A radicalidade do evangelho não leva o cristão a matar seus inimigos, pelo contrario, ele torna-se alvo de sua maldade, “uma ovelha enviada a lobos”, mesmo sabendo que pode morrer, ele prossegue até as últimas consequências, levando a mensagem de amor de seu Senhor. O que se revela uma tarefa ingrata, pois deve proclamar está mensagem, mesmo sabendo que a paz suprema e o bem estar social universal, não podem ser atingidos nessa terra, mas foi esse sentido de missão que fez com que pessoas, organizações e até governos fossem transformados por verdadeiros homens e mulheres que foram obedientes a essa palavra e se preocuparam com o bem estar do próximo.
O evangelho deve ser benéfico a toda a população, não somente aos evangélicos, mas abranger todos os credos. Cristãos tem que votar e agir em prol de todos, e não somente de seu “gueto gospel”, devem buscar soluções e melhorias gerais e não particulares, não impondo suas regras de culto a outros grupos, e nem permitir que outros grupos imponham suas agendas sobre eles. Um jogo de tolerância deve ser travado, o que são as bases da democracia.
Nas palavras de Jesus ”o sol nasce para justos e injustos”, pretos e brancos, crentes e ateus, católicos e umbandistas. Sua força de transformação será sentida com maior intensidade por aqueles que professam a mesma fé, mas essa força, como o efeito de uma onda, atingirá aqueles que não têm as mesmas crenças ou a falta delas. Todos os matizes devem ser atingidos pela mensagem do evangelho.
Cristãos podem ser de direita ou esquerda? Não. Definitivamente não, nada deve ficar entre o cristão e seu Senhor. O cristão pode ser a favor das criticas marxistas ao capitalismo, mas não pode ser materialista e acreditar em uma utopia que nega o Divino. Deve acreditar e lutar pela paz e igualdade, mas não pode crer que elas serão atingidas plenamente por mãos humanas. Ao mesmo tempo, que pode ser a favor das premissas liberais de liberdade humana, econômica e de iniciativa, entretanto, não pode ser a favor de uma economia excludente ao mais necessitado, que massacra o pobre e o utiliza como mais um produto no jogo capitalista.
Subvertendo Protágoras, “Cristo é a medida de todas as coisas”, e é sobre Ele e sua palavra que devemos construir uma ética e um posicionamento politico e não pelo sistema religioso ou pelas agendas progressistas atuais.
BIBLIOGRAFIA:
COSTA,Antonio Carlos. Teologia da trincheira: Mundo Cristão, 2017.p.160
CHESTERTON,G.K. Ortodoxia: Campinas, Ecclesiae,2013.p.216-217
BONHOEFFER,Dietrich.Discipulado: São Leopoldo, Sinodal, 2007. p.20

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Dane-se o ano novo!
Cada novo ano, trás consigo o peso de suas 365 oportunidades de preenchê-lo com algo incrível. Pode-se emagrecer, praticar esportes, mudar hábitos, ser outra pessoa nesse futuro brilhante que se descortina. Tudo é magico, fantástico e parece que não somos nós que viveremos, mas outro ser evoluído, vindo de outro planeta que assumirá nossa vida e fará com que seja possível atingir as metas sonhadas. A caminhada começa fácil, pois tem-se todo o ano pela frente, mas quando os meses vão passando e encurtam-se os dias, tudo vai ficando mais difícil, e aquele extraterrestre não aparece para tomar o controle de nossas vidas e cumprir os objetivos. E no final do ano,aceitamos que o visitante de outro planeta não virá, como acreditávamos e conformamo-nos com o que deu para fazer e deixamos as metas, sonhos e planos para depois. O que resta é aguardar o próximo ano, em que o ser interplanetário, finalmente virá e conduzirá nossas vidas a um lugar de sonhos e realizações.
Depois de alguns finais e inícios de ano, começamos a acreditar que esse ser extraterreno não virá mais, e somos nós mesmos que devemos conduzir nossa vida para bem ou para o mal. Os planos mirabolantes e os sonhos impossíveis ficam pra trás, e a realidade bate à porta sem nenhuma cerimônia.
Crescer é descobrir que contos de fadas são estórias que ajudam-nos a conduzir nossas vidas até certo ponto, depois disso, Cinderela, Peter Pan, príncipes e princesas encantados perdem o sentido e é preciso encarar as aboboras e sapos que a existência apresenta-nos, eles na realidade são o que as estórias infantis deveriam centralizar e não no felizes para sempre. As estórias tentam nos alertar sobre carruagens que transformam-se em abóboras, príncipes que são sapos e princesas que são perfeitas porque estão em sono profundo, mas ao invés de apegarmos-nos a esses detalhes,preferimos continuar com nossas ilusões.
E se por um instante deixarmos a ideia do ano novo, como uma obrigação de preenchimento de dias fantasiosos, para, ser uma oportunidade de pequenos milagres? Se os 365 dias do novo ano, fossem transformados em chances para enxergar milagres imerecidos do criador, sejam bons ou maus, nossa perspectiva seria diferente.
Jesus diz que cada dia trará o seu próprio mal(mt.6.34), em uma leitura despretensiosa e fatalista, parece ser algo trágico e pesado, mas na realidade não é. O que Jesus está ensinando é que se vivêssemos diariamente preparados para o mal, para a tragédia, ou para a alegria inesperada, conseguiríamos ver o que há por trás da cortina fantasiosa criada por nós mesmos e seriamos seres preparados para o que vier, sendo assim, maduros o suficiente para enfrentar dias bons e maus.
Ele exemplifica com uma parábola, dizendo que dois homens construíram duas casas, uma sobre a areia e outra sobre a rocha. Suas casas são idênticas,construídas com o mesmo material, entretanto, somente um construiu sobre o alicerce que estava preparado para o dia da tempestade, o outro estava alicerçado em uma fantasia - construiu sua casa sobre a areia. Quando finalmente a chuva veio sobre as duas casas, somente àquela que estava sobre a rocha, sobreviveu à intempérie do tempo.
Aquele que esperou que as coisas não dessem certo, foi inteligente o suficiente para preparar-se para o infortúnio. Um resolveu acreditar que não iria chover, que faria sol o tempo todo e que tudo seria um conto de fadas. O outro não esperou que os dias fossem feitos somente de sol, não criou falsas expectativas,esperando somente tempos bons, mas conseguiu ver que estava sujeito também ao clima não tão favorável.
E aconteceu que aquele que esperou que as coisas não ocorressem tão bem quanto ele imaginava, que não fantasiou sobre as coisas darem certo o tempo todo, foi o que acabou sendo feliz no final, entretanto, o outro, nem tanto, continuou acreditando em sua ilusão, que tudo daria certo no final, não preparou-se e acabou pagando um alto preço.
Que esse novo ano, seja de menos contos de fadas, falsas expectativas e castelos construídos sobre a areia e sim, com maior realidade. Histórias ao invés de estorias, que não são tão belas como os contos,no qual, príncipes e princesas sem o menor esforço, vivem felizes para sempre.mas sim, enxergar as coisas como elas são, para que ser feliz seja uma grata surpresa e não o objetivo de nossas vidas.Que o ano seja cheio de alegrias verdadeiras, arranhões no joelho, riscos calculados e surpresas trazidas pelo Criador diariamente.
E que dane-se o ano todo e viva-se o dia de hoje!
Primeiro nascer do sol do ano. Feliz ano novo! #sunset #sunrise #sun #nascerdosol #errejota #pretty #beautiful #red #orange #pink #sky #riodejaneiro #sol #nature #clouds #horizon #photooftheday #instagood #primeshots #gorgeous #warm #view #night #sunrays #morning #silhouette #instasky #all_sunsets #timelapse #film (em Rio de Janeiro, Rio de Janeiro)
A manjedoura está vazia – O Natal sem Cristo
O que é o natal para o homem contemporâneo ?
Talvez, seja, apenas um feriado que pode-se reencontrar aqueles que não se viam há muito tempo, trocar presentes, comer rabanadas e peru, beber alegremente e passar um bom tempo em família e com os amigos.
Falar de Cristo perdeu-se entre os presente e comidas, muitos acham que é desnecessário falar do Deus que se fez homem para estar entre os mortais, isso seria algo ultrapassado e arcaico.Seu advento não é importante, mas sim, os sentimentos que essa data faz surgir nos corações dos homens pós-religiosos.
Sentimentos se tornam mais importantes do que a motivação para comemorar essa data. C.S. Lewis em seu livro abolição do homem, fala sobre a era dos sentimentos, que valem muito mais do que a razão ou argumentos coerentes, na realidade, desejasse emular nas pessoas sentimentos sobre as coisas e não o que são as coisas em si, Lewis exemplifica,
Ao dizer Isso é sublime, a pessoa não quer dizer Tenho sentimentos sublimes. Mesmo se reconhecermos que a noção qualitativa de sublimidade seja simples e unicamente uma projeção de nossas próprias emoções nas coisas, ainda sim, as emoções que incitam as projeções são os correlativos e, portanto, quase os opostos das qualidades projetadas. Os sentimentos que fazem uma pessoa chamar um objeto de sublime não são sentimentos sublimes, mas de veneração. (2017,p.12-13)
Em outras palavras, ter bons sentimentos não irá fazer com que algo seja bom, belo ou sublime, não são as projeções de meus sentimentos que transformam algo. Uma paisagem natural não se torna bela por causa de meus sentimentos de beleza, mas sim, por admirar a beleza da natureza, os sentimentos são gerados.Sentimentos nascem da experiência pessoal e por consequência, minha veneração pelo objeto, dai posso afirmar que algo é bom, belo ou sublime. O mesmo aplica-se a Cristo, não são somente os sentimentos de paz, alegria, bondade, abnegação, amor ou qualquer outro,que ele simboliza, ele é alguém real, que produz esses sentimentos. Entretanto, se nossos parâmetros estiverem atrelados a somente sentimentos, ou a simbolismos, corremos o risco de fazer com que somente a data em si, sem o homenageado, seja o importante.
Alain de Button, filosofo ateu, afirma que,
Boa parte do que existe de melhor no Natal é totalmente desvinculado da história do nascimento de Cristo. Gira em torno de temas de comunidade, festividade e renovação que antecedem o contexto em que foram colocados ao longo dos séculos pelo cristianismo. Nossas necessidades espirituais estão prontas para ser libertadas do matiz particular dado a elas pelas religiões — ainda que, paradoxalmente, seja o estudo das religiões que frequentemente tem a chave para sua redescoberta e rearticulação.(2011,p.15-16)
Button faz uma abordagem ateia da religião, principalmente a cristã, afirmando que o melhor do natal está totalmente desvinculado do nascimento, o que é um claro contrassenso. A conclusão de que a figura de Cristo é descartável, não sendo necessária nem ao menos para a celebração do seu próprio nascimento, seria como fazer uma festa de aniversario, sem que o aniversariante seja convidado - algo sem sentido.Pode-se retirar os dogmas das religiões, suas leis e paradigmas e ficar com suas boas lições, de afeto, vida em comunidade, gratidão, ajuda ao próximo e outras coisas que fazem parte do pacote.
Seu desejo é uma religião secular, clean, sem a barbárie da morte de um inocente e sua sangrenta crucificação, um Cristo sem cruz com diz Marcelo falcão, na letra de meu mundo é o barro:
Tentei ser crente
Mas, meu Cristo é diferente
A Sombra dele é sem cruz, dele é sem cruz
No meio daquela luz, daquela luz
Cristo sem cruz, sem sofrimento e sem sangue, isso é o que liberais e humanistas desejam – uma forma de obter as benesses do cristianismo sem o escândalo da cruz! Paulo já lutava contra isso quando afirma que o Cristo crucificado é loucura, para gregos e escândalo para judeus(ICo.1.23). Não há como fazer um self-service de religião, e escolher as coisas boas e aquelas não tão boas assim, leva-se o pacote completo ou nada feito. Rudolf Bultmann, um dos expoentes da teologia liberal,fez uma tentativa interna de acomodação das bases cristãs, atacando fundamentações como o nascimento virginal, seus milagres e até a crença em um céu ou inferno,
Ninguém que seja adulto o suficiente para pensar por conta própria imagina que Deus possa habitar um céu situado em algum lugar. Não existe mais céu algum no sentido tradicional da palavra. O mesmo se aplica ao inferno no sentido de um submundo mítico localizado debaixo dos nossos pés. Portanto, a história segundo a qual Cristo desceu ao inferno e subiu ao céu deve ser descartada. Não podemos mais esperar pelo retorno do Filho do Homem nas nuvens ou acreditar que os fiéis o encontrarão nos ares. (2011,p.54)
Para Bultmann, os eventos sobrenaturais, deveriam ser entendidos sob a ótica da desmitologização, tudo que estivesse fora dos padrões aceitáveis da razão, seriam enxergados com mito. O que foi uma clara tentativa de adequação ao racionalismo vigente na época, o que causou estrago grande na teologia europeia e consequentemente, mundial.
Tentativas como as de Bultmann, ou de Button, já foram feitas desde antes do cristianismo, O próprio Pedro, discípulo de Jesus, repreende o Cristo por sua afirmação que iria “ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia.(mt.16.21), Pedro não deseja que todo esse sofrimento e dor fossem a marca dessa nova religião, que tinha como sinal de sua pregação, exatamente o amor, entretanto, o amor, que é a principal marca da mensagem cristã, só pode ser revelado através de dor, sofrimento e a morte de seu mestre.
Quando houve alguma tentativa de suavizar a fé e adequá-la a cultura vigente, o cristianismo se liquefez e se tornou parte da cultura, tornando-se um evento sociológico qualquer, perdendo toda sua força transformadora. Jesus refuta Pedro dizendo, “Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mt 16:23), Pedro ao tentar salvar o Cristo, se torna o próprio diabo! Ao fazer algo contra o escândalo da cruz e seu cruel destino, ele acaba conformando-se ao mundo, sua tentativa ao invés de salvar o cristianismo, iria por sua vez, matá-lo.
Como dizia Spurgeon “O evangelho é como um leão enjaulado, não precisamos defendê-lo, só precisamos deixar que saia da jaula”. A força do evangelho está na subversão da ordem de proteção da vida pela doação,em amor.Nessa entrega em resgate da humanidade, é que o evangelho se torna livre de qualquer barreira cultural, social ou ideológica.
Enquanto o imperador romano Nero ordenava que matassem-se cristãos, fazendo-os de tochas humanas, acreditando que com isso iria calá-los, multidões não pararam de pregar e se converter à esse evangelho marginal, e essa força foi tão poderosa que o império acabou sucumbindo a ela. Nada pode parar o evangelho da cruz, esse evangelho ensanguentado do nazareno. quando houveram tentativas, utilizando uma expressão atuai, de “nutelizar” o evangelho, ele tornou-se apenas um apanhado de regras morais e parte da cultura, se tornando um “leão sem dentes e nem garras”.
A força do evangelho está em sua estranheza e por muito, por sua inadequação. Nas palavras viscerais e quase gráficas do profeta Isaías,
Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens.(…) Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. (Is.52:14,15; 53:2-5)
A imagem sanguenta do Cristo não pode nunca nos abandonar,nem seu nascimento pobre e sem glória, pois foi através dessa humilhação pública que podemos comemorar seu nascimento, morte e ressurreição.
Feliz natal!
BIBLIOGRAFIA
Ed. L. Miller e Stanley J. Grenz,Teologias contemporâneas. Vida Nova: São Paulo, 2013
Alain de Botton, Religiao para ateus. intrinseca: Rio de Janeiro, 2011
C.S.Lewis, A abolição do homem. Thomas Nelson Brasil: Rio de Janeiro,2017
Tesouro em Vasos de barro. Por que Pastores se suicidam?
Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para demonstrar que este poder que a tudo excede provém de Deus e não de nós mesmos. 2 Corintios 4.7
Lendo a noticia e vendo a pregação do pastor Júlio Cesar,que infelizmente tirou sua própria vida, me deixou a pensar como certas estruturas eclesiásticas podem anular o homem que há dentro do pastor, muitas vezes o pastor vira um ser alheio a sua humanidade, que pode tudo, que fortifica a todos, que nunca esmorece e deve sempre estar bem. Entretanto, o que acontece com o homem que se encontra atrás da máscara?
Será que alguém sabe seus anseios e dúvidas? Talvez poucos, muitas vezes nem sua esposa, filhos e amigos, o que aliás, é algo raríssimo, muitos são concorrentes e não companheiros. Dentro desse ser está o homem-mensagem, aquele que está incumbido de levar a mensagem de Deus para o seu povo.
Ser um emissário do altíssimo, não é uma tarefa fácil, pois além de entregar a mensagem deve-se comprometer com ela a tal ponto de quase transformar-se naquilo - o que muitas vezes não é possível, nem tudo que é pregado ele vive no momento, o que causa tristeza tamanha! Desse descompasso entre mensagem e mensageiro, surgem as crises de identidade e depressão, por carregar uma mensagem tão pesada para a carne humana, e por não vivê-la plenamente.
Apostolo Paulo viveu isso e soube expressar bem essa dualidade humano-pastoral, quando diz que temos “tesouro em vasos de barro”, ele soube dizer o que somos todos nós, somente vasos de barro escolhidos por Deus para levar a mensagem Dele, para que outros sejam salvos. Mas como é difícil ser vaso de barro, com um tesouro dentro! Paulo na mesma carta fala que pelo peso de todas as visões, ensinos que o próprio Cristo o havia revelado, lhe foi posto um “espinho na carne” (2 co.12.7), Paulo passou por crises na vida, crise de identidade por ter sido um assassino e agora dar vida a outros, crise pelas pessoas não acreditarem que aquele assassino havia sido salvo e liberto de seu passado, Crise por não acreditarem que ele teve um encontro com Cristo, e possivelmente sofreu depressão, por essa constante cobrança interna e externa exigida por essa mensagem.
Charles H.Spurgeon, lutou durante toda sua vida contra a depressão, e em uma palestra para seus estudantes, ele dá os seguintes conselhos:
Que o homem seja naturalmente tão alegre quanto um pássaro, ou ele não será capaz de suportar ano após ano contra tal processo suicida; ele fará de seu estudo sua prisão, e de seus livros os guardas de uma cadeia, enquanto a natureza do lado de fora de sua janela o chama à saúde e o convida à alegria.
Aquele que esquece o zunido das abelhas em meio à urze, o arrulho do pombo-torcaz, a canção dos pássaros no bosque, o borbulhar dos rios em meio aos juncos e o suspirar dos ventos em meio aos pinhos, não precisa se questionar se seu coração já não canta, nem se sua alma se sente carregada.
Um dia respirando o ar fresco sobre os montes, ou algumas horas divagando na floresta de faia, sombreada e calma, varrerá as teias da mente de dezenas de nossos ministros em serviço que estão agora deprimidos.
Um bocado de ar marítimo, ou uma firme caminhada com o vento contra o rosto não trará graça à alma, mas fornecerá oxigênio para o corpo, que é a segunda melhor coisa que se poderia obter.
O coração sobrecarregado está no ar pesado,
Mas o vento que se levanta dispersará o desespero.
As samambaias e os coelhos, os rios e as trutas, os abetos e os esquilos, as prímulas e as violetas, os campos agrícolas, o feno recém-recolhido, e os perfumados lúpulos — esses são os melhores remédios para hipocondríacos, os tônicos mais certos para os declinantes, os melhores refrescos para o cansado.
Por falta de oportunidade ou de desejo, esses grandes remédios são negligenciados, e o estudante se torna uma vítima autoimolada.
O peso de carregar essa mensagem tão maravilhosa tem um preço - a própria vida.o que todo chamado pelo Eterno sabe. O problema é quando negligenciasse o homem por trás do púlpito, ou quando função e personalidade se unem, de tal forma que não é possível desassociá-los, o homem se perde no pastor, e começa a acreditar que é feito de outra espécie,além da humana, invencível, do mesmo material que o precioso tesouro que carrega.
Paulo sabe dessa tentação, por isso continua explanando, “para demonstrar que este poder que a tudo excede provém de Deus e não de nós mesmos”. O poder é dele, o tesouro é dele, nada é nosso. Somos meros garotos de recados e nunca devemos esquecer-nos disso.
Somos vasos de barro, frágeis, débeis e dependentes, que não são nada, além de terra amassada, moldada e queimada, concebido para carregar algo muito mais importante do que a nós mesmos. Quando esquecemos que somos somente terra amassada, ou humanos, que vem de húmus - terra, estamos à beira do abismo existencial e basta somente um passo em falso, para que tudo termine, e ao pó retorne, não de maneira gloriosa, mas sim, de um forma cruel e dolorosa.
Fonte: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2015/11/a-batalha-de-spurgeon-contra-a-depressao/
Kenósis - A humilhação de Deus em Cristo
Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus,
que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;
mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.
E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!
Filipenses 2:5-8
Imagine um rei poderoso, que é condenado injustamente a um exilio em uma nação pobre, longe de seu reino, e lhe é tirada toda sua gloria e majestade, o tornando um simples camponês. Como seria a atitude desse rei? Será que aceitaria isso? E se ainda fosse condenado à morte injustamente, será que aceitaria esse cruel destino?
Jesus foi esse rei e não foi condenado, mais ele entregou-se voluntariamente para ser humilhado por seres que ele haveria de salvar. Ele veio para trocar de papel, ao invés de ser juiz, ele vira advogado, ao invés de acusador, se torna acusado, trocando nossa condenação eterna, pelo cumprimento da pena – sua própria morte.
Difícil de acreditar nisso, o todo-poderoso no papel de um servo frágil e débil, morto injustamente. O trecho acima, escrito por Paulo, era um hino cristão que provavelmente na ocasião, era cantado pela igreja primitiva, nele revela-se a maior humilhação que alguém poderia sofrer.
Paulo utiliza a palavra grega Kenósis para demonstrar todo o percurso de humilhação que Cristo deve de suportar, ela significa esvaziar-se , nulificar-se, tornar-se nada, “ser destituído de seus poderes e prestigio, no caso de Cristo, que desistiu da sua aparência divina e tomou forma de escravo, ἑαυτὸν ἐκένωσεν (éaton ékénosen) , esvaziou a si mesmo, despojou a si mesmo de seu prestigio e privilégios.
Gianni Vattimo, filósofo italiano, ao interpretar esse trecho, conclui o seguinte, Deus se tornou fraco. Deus se esvaziou de toda sua gloria, e esse processo foi iniciado, no momento de sua encarnação e morte, continuando após sua ressurreição e ascensão. Para Vattimo, o momento de sua encarnação foi também o seu esvaziamento total. Jesus, assim como Deus, foi morto e humilhado, sendo enfraquecido na encarnação.
Em suas palavras, “A encarnação, isto é, o rebaixamento de Deus ao nível do homem, é aquilo que o novo testamento chama de kenosis e que deve ser interpretado como sinal de que o Deus não violento e não absoluto da época pós-metafisica tem como traço distintivo a mesma vocação para fraqueza”.
“Vattimo é exemplo de um proeminente filósofo que se apropriou da noção de kenósis para dar legitimidade à sua conhecida ‘ontologia fraca’. Para ele, a kenosis é o rebaixamento de Deus ao nível do homem e isso significa que o Deus do Novo Testamento tem no enfraquecimento o seu traço constitutivo.” A secularização de Deus é o ponto chave, Deus se tornou mundano, e a partir desse pensamento, todo o evangelho deve ser pensado nessa perspectiva de esvaziamento e mundanização. A secularização de Deus em Cristo deve ser o mote cristão. Pois se Deus esvaziou-se, logo, o evangelho também deve seguir o mesmo destino.
Vattimo está correto ao afirmar que devemos viver o cristianismo na perspectiva do esvaziamento, assim Paulo conclama os filipenses a viver, na mesma atitude que Cristo teve enquanto na terra, pela via da humildade para com os outros seres humanos, não fazendo nada por interesses próprios, nem sendo melhor ou pensando primeiramente em si mesmos(fp.2.2,3 ), entretanto, a atitude dos cristãos não pode ser comparada com a posição de Cristo na segunda parte do hino, no qual, Vattimo não leu, ou quis ignorar esse trecho, para que sua tese fosse embasada.
Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome,
para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra,
e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.
Filipenses 2:9-11
Jesus se esvazia, entretanto, ele é restituído de sua gloria após sua assunção. Jesus não se tornou um Deus fraco, nem Deus se enfraqueceu com a vinda de Jesus. Ambos continuaram sendo Deus, Jesus foi por toda sua passagem terrena Deus forte, mas por um hiato, durante sua vinda, ele se esvazia de sua gloria, para comunicar as boas novas, no qual, ele trazia em si mesmo. Assim, logo que sua missão foi cumprida, ele retorna ao seu estado de glória original. Ele teve que fazer isso para que nós pudéssemos conhecer Deus de perto. Não mais pelo temor do Deus dos raios e trovões, mas o Deus Pai de Jesus Cristo. O rei veio morar na cidade. Não com toda pompa real, mas como mero carpinteiro. Entretanto, ainda era o rei todo-poderoso.
Nisto está a beleza do nascimento de Cristo, o rei que se esvazia de sua glória, para comunicar a simples pecadores as boas novas de salvação. Não um deus fraco, que se fez gente, e assim continuou em sua debilidade, como muitos quadros renascentistas o apresentam. Mas um Deus poderoso que se enfraqueceu momentaneamente não para trazer condenação aos seres humanos, mas o resgate de sua condição pecaminosa. Não tirando sua vida, mas doando a sua própria, para que eles tivessem vida, não vindo com a prerrogativa real de ser servido por todos, mas sendo ele mesmo servo e dando sua vida em resgate de muitos.
Feliz natal!
Bibliografia:
Bauer-Danker, Greek-English lexicon of the NT – In: Kenosis
Vattimo, Gianni, Acreditar em acreditar-Lisboa: Relógio d’agua, 1998, p.34
Madureira, Jonas, Inteligência Humilhada – São Paulo: vida nova, 2017
da Silva, Marcos Paulo, Kenosis e secularização no pensamento de Gianni Vattimo, 20?

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Jim and Andy – Anulação da identidade
Jim carey, um dos maiores comediantes de todos os tempos, após três grandes sucessos; Ace Ventura, O Maskara e Débi & Lóide, se lança em um projeto arriscado, fazer um filme sobre a vida e carreira de Andy Kaufman, comediante morto nos anos 80, que teve uma breve e marcante carreira, encerrada por um câncer no pulmão. Kaufman foi um ídolo para Carey, por seu jeito nonsense de comedia, transitando entre a genialidade e o exagero.
Jim no processo da filmagem do filme O mundo de Andy, se transforma literalmente em Andy e seu auterego, Tony Cliffton, um cantor em decadência com uma personalidade controversa. Jim se recusa em todo processo, a não sair da personagem, chegando ao limite de quando iria atuar como Clifton, usar um saco de papel, até que sua maquiagem estivesse feita. E ai que se inicia uma das melhores experiências psicológicas já filmadas.
A universal pictures, produtora do filme, queria fazer um making of, e que fosse lançado como material promocional do filme, entretando, a experiência foi tão inesperada, que, temendo que manchasse a imagem de Carey, em suas palavras “para que as pessoas não pensassem que Jim era um babaca”.
Esse material ficou escondido por quase 20 anos e a partir de mais de 100 horas de filmagem, que nasce o documentário “Jim and Andy – Life Beyond”, esse documentário revela a personalidade de Jim Carey, um homem que aprendeu desde cedo, a dar aos outros sorrisos, em detrimento de si mesmo. Ele diz que quando subia no palco, um monstro(Hide) tomava conta dele, não para destruir, mas para dar amor. Ele aprendeu que deve dar aquilo que as pessoas querem – uma vida livre de preocupações, e para isso, ele se torna o homem sem preocupações.
Jim revela que em muitos papeis, ele não esta atuando, mas ele é a personagem; em O show de Truman, ele é aquele homem, preso pela fama, sendo observado por todos e querendo fugir de tudo aquilo, em Brilho eterno de uma mente sem lembranças, ele é o homem destruído por um relacionamento, querendo esquecer a amada. Ele se entrega a cada papel, e nesse filme vemos Carey desaparecer para que Andy surja, ele até diz que teve uma visão de Andy, dizendo que iria fazer seu filme – se é verdade não se sabe, mas é isso que vemos em todas as filmagens, levando o diretor Milos Forman, de um estranho no ninho e Amadeus, à loucura com Tony Clifton, a cada vez que ele se recusava a atuar ou a repetir as cenas.
Jim suspende sua própria personalidade para ser Andy, e o que surge disso? Um homem perdido, que não sabe quem é, após todo o processo de quatro meses de filmagem, ele se sente feliz com a liberdade de não ser ele mesmo, que demora algum tempo, para deixar aquela “entidade” que se apoderou dele, ele diz que quando deixou Andy, sentiu todo o peso da existência novamente, “parecia que jim Carey estava de férias” e agora tinha que voltar, e com isso, todos seus problemas.
Na atuação, a suspensão momentânea da personalidade é vital para o sucesso do ator, muitos tiveram o problema de deixar suas pseudo-personas para trás, alguns não conseguindo e chegando ao ponto de tirar a própria vida, como Heath Ledger, a sombra do Coringa foi tão pesada que ele não pode suportar. Tocar nos demônios da alma e monstros escondidos é algo perigoso, ainda mais com uma persona que pode agradar o qual a usa. Ser quem não somos pode ser libertador por algum tempo, mas danoso à psique, que pode querer se apropriar da personagem para sempre.
Jim diz que, “A maioria das pessoas anda com uma máscara , e se você tira a mascara por muito tempo, eles começam a dizer: - Ei, coloca a mascara. Você esta estragando o contrato. O problema é que essa pessoa é louca, essa pessoa está depressiva. Eu não estou com depressão - de maneira nenhuma! Eu sou somente mais uma flor no jardim, e eu estou lidando com o mesmo clima como qualquer outro”. Ele tomou a decisão nesse momento de sua vida - não ser o que os outros esperam, viver em busca do que ele deixou para trás. Talvez cansou-se da mascara que usou por tantos anos. Ele termina dizendo “ E se eu quiser ser Jesus?” A busca por sentido parece continuar.
“estar deprimido é ser o que o mundo quer que você seja e não quem você é”. A depressão parece ter ido embora, no momento em que resolveu tirar a máscara e revelar quem ele é. Esse parece ser o esforço mais difícil do ser humano, mas ao mesmo tempo, é o mais libertador de todos.
Elie Wiesel - da Dor ao Perdão
O dia de Rosh Hashaná (cabeça do ano), marca o início do ano judaico, e segundo a torah (levíticos 23) é um período de introspecção e meditação que dura dez dias (Yamim Noraim) acabando no primeiro dia de Yom Kipur (dia do perdão), um período no qual se crê que o Criador julga os homens, escrevendo-os no livro da vida ou não. Nesse período, o povo judeu analisa seus feitos, bons e maus, e pede perdão a todos que os ofenderam e também aqueles que foram ofendidos. Os nomes dos justos são imediatamente inscritos no livro da vida e são selados. Àqueles não tão justos, é permitido uma pausa de dez dias, até Yom Kippur, para refletir, arrepender-se e tornar-se justos. Algumas tradições midrasticas, acreditam que Deus está sentado nesses dias em seu trono, avaliando todas as obras dos homens.
Por está razão, é o maior feriado judaico, e aproveitando o final do ano, gostaria de contar a historia de três pessoas que souberam viver essa vida, pelo prisma desses 10 dias de analise da vida e principalmente perdão, as três sofreram o terror do holocausto, seja nos campos de concentração, ou na privação de sua liberdade, todas elas foram expostas a um alto grau de sofrimento e souberam fazer disso uma motivação para viver e ser um exemplo para todo o mundo.
As três pessoas escolhidas foram: Elie Wiesel, Oliver Sacks e Viktor Frankl.
A primeira história é de Elie Wiesel, judeu romeno que com apenas 15 anos, foi enviado junto com sua família a Auschwitz. Lá ele perdeu primeiramente, sua mãe e irmã, que foram mortas na câmara de gás, depois, no inverno entre 44-45, ele perde seu pai. sua morte foi causada pela exaustão causada pela caminhada do campo em Buna até Buchenwald, nessa caminhada mortal, 20.000 iniciaram e apenas 6.000 completaram o caminho. Antes disso, seus pés haviam inchado e ele foi mandado para um medico, e apenas dois dias depois ele teve que participar dessa marcha da morte.
Ele permaneceu no campo até a invasão americana em 1945, após isso, ele se encontra com suas duas irmãs mais velhas, é adotado, e se muda para Paris, na tentativa de reconstruir a vida, nesse período Elie começa a lutar contra suas crenças, não entende um Deus bondoso que permite tanto sofrimento para seu próprio povo, ele passa por varias experiências, nesse processo e sua fé em Deus é enfraquecida.
Após sua liberação, ele escreve o rascunho de seu livro de memorias nos campos de concentração, que foi chamado night, sendo lançado alguns anos depois, se tornando grande sucesso literário.
Ele permanece como um judeu ortodoxo, mas sua fé já não era a mesma, ele começa a duvidar da existência em Deus. Em 55, já atuando como jornalista, ele decide não mais ir a sinagoga e só mantem a tradição das grandes festas, ele faz isso como protesto contra a injustiça divina.
Elie se torna autor de 57 livros, laureado com o nobel da paz, ativista politico e professor, se casa, tem um filho. Uma grande vida, para quem não tinha expectativas de viver tanto, mas algo ainda o incomodava – sua relação com Deus.
50 anos depois de todos os eventos marcantes, em 1997, ele escreve um artigo para o New York Times, uma comovente carta para Deus, mostrando que depois de tantos anos de rancor e mágoa, ele estava pronto para se reconciliar com seu criador, a carta se inicia assim:
“Mestre do Universo, vamos fazer as pazes. Está na hora. Por quanto tempo podemos continuar com raiva?”
Sua carta expressa toda a raiva que ele sentia de Deus, cada vez que ele passava pelo feriado judaico do perdão e julgamento, ele direcionava toda sua ira contra Deus. Suas orações tinham a simples iniciativa de atingir Deus. Ao invés do julgamento divino, era ele que colocava Deus no banco dos réus. Ele diz que não perdeu a fé, mas ela não era mais infantil, não era pura, foi manchada por tamanha brutalidade,
Mas minha fé já não era pura. Como poderia ser? Estava cheio de angústia em vez de fervor, com perplexidade mais do que piedade. No reino da noite eterna, nos Dias de reverência, que são os Dias do Juízo, minhas orações tradicionais foram direcionadas para você, assim como contra você, Mestre do Universo. O que mais me machuca: sua ausência ou seu silêncio?
Suas indagações de sofrimento encontram um Deus passivo, um Deus que não se comove com o sofrimento humano. Raiva e revolta são seu combustível depois de tanta dor.
Por que eles foram abandonados pela sua Criação? Esses pensamentos não foram de modo algum destinados a diminuir a culpa dos culpados. Sua culpa estabelecida é irrelevante para o meu "problema" com você, oh, Mestre do Universo. Na minha infância, não esperava muito dos seres humanos. Mas eu esperava tudo de você.(...) Onde você estava, Deus de bondade, em Auschwitz? O que estava acontecendo no céu, no tribunal celestial, enquanto seus filhos estavam marcados por humilhação, isolamento e morte apenas porque eram judeus?
Um dos maiores questionamentos humanos, onde Deus estava, quando...? Todo ser espera uma resposta razoável aos porquês da existência, porque a morte, por que a tragédia, por que a maldade, por que? A contingência humana não permite ver muito além do que os olhos podem enxergar, apenas somos atingidos, como um raio, totalmente frágeis e perecíveis às intemperes da existência.
Nessa breve existência, os questionamentos nos atormentam, e há dois caminhos a serem percorridos; o da mágoa ou do perdão, Wiesel, percorre o caminho do perdão, depois da mágoa contra o todo-poderoso, ele vê que é inútil, continuar com suas acusações, ele consegue enxergar sua infinita pequenez frente ao eterno, como a tentar dar murros ao ar, na tentativa atingir um gigante.
Um caminho melhor é percorrido pelo perdão e o amor, superior a todo rancor e mágoa. No perdão a divida é entregue, ela é completamente esquecida, um cheque em branco é assinado, e nesse ato, todo o preço carregado durante 50 anos, foi pago e apagado.
Em um ponto, comecei a me perguntar se não era injusto com você. Afinal, Auschwitz não era algo que descesse pronto do céu. Foi concebido por homens, implementados por homens, dotados de homens. E seu objetivo era destruir não só nós, mas você também. Não devemos pensar também em sua dor? Observar seus filhos sofrerem nas mãos de seus outros filhos, você também não sofreu?
Ele encontra uma resposta - Deus também foi vitima de todo esse sofrimento, Deus também sofreu com Auschwitz, deus não era imóvel, não estava alheio a toda aquela tragédia, mas estava junto com seu povo. A resposta encontrada por Elie, foi o Deus que se entristeceu, pois seus filhos estavam se matando, e essa não era sua intenção original, não foi ele que cometeu essas coisas, mas sim os proprios homens fizeram isso, nessa nova perspectiva, o que restava era fazer as pazes com o Eterno
Mestre do universo. Apesar de tudo o que aconteceu? Sim, apesar disso. Vamos fazer as pazes: para a criança em mim, é insuportável se divorciar de você por tanto tempo.
O caminho escolhido por Elie Wiesel foi o do perdão. Seu rancor contra Deus e a humanidade não trouxeram nada além de dor. Escolher o caminho da paz foi a saída que ele encontrou para se voltar a Deus e assim à humanidade. Ele deixou a marca do amor, na luta pelos direitos humanos em várias partes do mundo. Ele escreve um relato, após as pazes com Deus, dessa transformação, ele escreve em seu livro Open Hearts, no ano de 2012,
Eu pertenço a uma geração que muitas vezes se sentiu abandonada por Deus e traída pela humanidade. E, no entanto, acredito que não devemos desistir também ... Devemos escolher entre a violência dos adultos e os sorrisos das crianças, entre a feiúra do ódio e a vontade de se opor, entre infligir sofrimento e humilhação aos nossos semelhantes e oferecer a eles a solidariedade e a esperança que eles merecem. Ou não. Eu sei - falo por experiência - que mesmo na escuridão, é possível criar luz e encorajar a compaixão. Lá está: Eu ainda acredito no homem, apesar do homem.
Acreditar no homem, apesar do homem, não há maior mensagem que essa, apesar de toda maldade sofrida e executado por esse ser, devemos escolher acreditar, para que este ser decaído possa ser resgatado de sua maldade.
Elie Wiesel faleceu em 2016.
Fontes:
http://www.jewishvirtuallibrary.org/elie-wiesel
http://www.nytimes.com/1997/10/02/opinion/a-prayer-for-the-days-of-awe.html
https://en.wikipedia.org/wiki/Rosh_Hashanah
Foto:
Presidente Obama e Elie Wiesel no memorial para o "Kleines Lager" (Pequeno Campo) dentro do campo de concentração de Buchenwald, perto da Alemanha, onde Wiesel foi preso ainda criança. (Markus Schreiber -AP- 05/06/09)