Vivendo os ‘nossos tempos’
Se eu ver mais um pequeno vídeo dessa vietnamita falando sobre o namorado alemão dela, ou do rapaz que se alonga, ou, deus me perdoe, a nova ADHD-blonde-slay-queen-it-girl-que-fez-o-remake-do-filme-de-2004 eu não vou fazer nada. Ou melhor, vou assistir e me sentir péssimo no processo. Há algo de tenebroso em como os pequenos vídeos de cores vibrantes e refrões da música do momento, ou da música que era o momento há 5 anos atrás (amamos nostalgia), estão em todo lugar. Inicialmente apenas no IG, mas agora no YT e em várias outras plataformas de duas letras ou menos. Queremos logomarcas cada vez menores, por favor!
E toda vez que vem essa sensação ruim, como se fosse tarde demais, como se eu tivesse completamente por fora, me lembro das suas sobrancelhas subindo e descendo no seu rosto. Eyebrow flash. Semanas antes de te conhecer, li em um livro absurdo de psicologia evolucionista que dizia que esse era um sinal de aproximação social primário. Um movimento comum no flerte. Pra mim, esse flash diz ‘e aí? Me conta!’ e sempre que você cintilava os pelinhos na testa, eu falava QUALQUER coisa, quase que interpelado, sempre na urgência. [Fala um negócio aí, produz um conteúdo].
Mas quando você veio me pedir um fogo no intervalo do congresso universitário que eu participava como organizador, não houve flash nenhum. Você devolveu o isqueiro e foi sentar longe de mim, ainda tirou o celular para te fazer companhia. Cretino. Foi só depois, na confraternização dos pesquisadores, quando entramos em um jogo de ‘quem compra cerveja para quem’, que fui ver seus músculos da testa entrando em ação. Tive que dançar com os braços pra cima, pois aparentemente mostrar as axilas também é um sinal de flerte. Algo sobre vulnerabilidade, não sei. Só sei que sempre fiz isso para que me agarrem pela cintura. Deu certo. Depois disso coisas estranhas: fumar um no beco, conversar longe das nossas orientadoras, observar os colegas ficando ébrios, você errar meu nome. Te deixo só na festa, na promessa de se ver no dia seguinte. E nos vimos. Te chamei pra minha casa para te despir na luz da tarde e depois ir aos bloquinhos, onde encontramos mais professores universitários e os dispersamos rebolando um no outro, ao som de funk psicodélico na ladeira.
Mas por que você, e não qualquer outra pessoa ou coisa, que me lembro quando vejo seis segundos da mulher que tem 240 reels sobre cultura millenial? Esses videozinhos inofensivos que me fazem sentir como se caísse de um lugar muito alto… Lembro que você me encheu o saco sobre eu não usar mais as redes sociais, me dizia coisas do tipo; ‘Temos que viver os nossos tempos’, ou ‘ah, agora pronto, o alternativo não gosta de ficar online’. Mas eu gosto de ficar online, eu só não sei fazer isso direito. Eu posso pensar em alguém o dia todo, mas a ação de mandar uma mensagem é de alguma forma impossível de realizar.
No fim dos dias, você voltou para Niterói e me mandou uma mensagem na mesma semana, a gente conversou um pouco e você pediu dicas do que fazer na minha cidade natal… Você queria passar o ano novo lá. Eu disse que ia ver, mas nunca respondi.
Bem, eu gostaria de evitar viver nos nossos tempos. Se me for permitido, eu quero viver nos tempos de alguém… Seus tempos, talvez, nos quais nada acontece pra mim, a não ser que alguém apareça na minha frente e me fale coisas da vida. Porque em casa, quando a minha flatmate vai visitar a avó dela, posso viver os meus tempos, no qual leio, cozinho, falo sozinho e rezo para que alguém me chame para fazer algo no fim de semana. Talvez um contatinho que sinta saudade de mim? [isso sim é viver os nossos tempos]. Quem sabe um amigo me chame para um samba de graça, uma matinê de cinema passando um filme dos anos 70, coisas assim. Quando me chamam, alívio. Eu posso levantar meus braços e balançar as sobrancelhas mais uma vez. Mas tudo é muito momentâneo e os cortes muito abruptos. Alguém precisa ensinar meu editor lições de continuidade.