Na minha percepção o livro é cheio de metáforas para trazer entendimento a assuntos que muitas vezes são banalizados ou não são tidos com a devida atenção que merecem.
Acredito que se você não tem uma ideia da realidade cultural na qual a autora está inserida, é muito mais difícil entender a complexidade das alegorias que a autora faz.
A autora sendo sul-coreana, traz a realidade de um país que enfrenta uma crise social complexa. Atualmente é o país com a menor taxa de natalidade e isso está apresentando consequências para o país no mercado de trabalho, temos o aumento da população idosa, mudanças no mercado de consumo entre outros. E no meio dessa crise, um dos movimentos que mais ganhou força nos últimos tempos foi o movimento 4B, um movimento feminista radical em que as mulheres não se relacionam mais com homens em resposta ao aumento do número de casos de feminício, de casos de violência contra a mulher e principalmente à misoginia que ainda prevalece na sociedade. Então as mulheres enfrentam jornadas de trabalho exaustivas, desigualdade de gênero com sobrecarga feminina nas tarefas domésticas e expectativas sociais de casamento para ter filhos, levando mulheres a optarem por carreiras em vez de maternidade.
No Livro, o vegetarianismo pode ser muito associado com a questão da autonomia corporal. A YeongHye toma uma decisão que reflete nela e no corpo dela, mas essa decisão em quase nenhum momento é respeitada e apesar de ser uma decisão individual, todos se sentem no direito de opinar, de criticar, de julgar, de aconselhar. Um exemplo claro de um movimento que acontece da mesma forma, são mulheres que optam por não ter filhos, é uma decisão individual, mas muitas vezes é tratada como a decisão de YeongHye.
A recusa em comer como forma de resistência política, social ou pessoal é um recurso poderoso e muito utilizado na literatura, no cinema e na história, muitas vezes simbolizando a última forma de controle sobre o próprio corpo diante de um sistema opressor.
Katniss Everdeen e Peeta Mellark (Jogos Vorazes): Embora não façam uma greve de fome prolongada, o ato final do primeiro livro de tentar comer as frutas venenosas juntos e deixar o Jogo sem um campeão é um ato de rebelião direta contra a Capital. Eles preferem a morte a cumprir as regras de um sistema corrupto, usando a comida criada pela própria capital como símbolo de resistência.
Catherine Earnshaw (O Morro dos Ventos Uivantes): A personagem decide parar de comer como forma de rebelião emocional e mental contra sua situação e para exercer controle sobre seu destino, preferindo morrer por inanição à viver a vida que lhe foi imposta.
Figuras historicas em contextos de ditadura/guerra/perseguição: Relatos de presos políticos brasileiros durante a ditadura militar, como é retratado no livro Fome de Liberdade de Gilney Viana e Perly Cipriano,que narram greves de fome como o último refúgio de luta contra a tortura e a prisão arbitrária, onde não comer era uma forma de continuar lutando e de desafiar quem estava no comando desses atos violentos.
YeongHye (A Vegetariana, Han Kang): A protagonista decide parar de comer carne após um sonho sangrento. Esse ato evolui para uma rejeição total da alimentação e das normas sociais impostas, tornando-se uma forma de resistência passiva e silenciosa contra a violência doméstica e a normatividade de gênero.
Então em obras ficcionais e relatos reais, a recusa alimentar é frequentemente usada para:
Desafiar o Poder: Mostrando que o opressor não controla a vontade do oprimido.
Protesto Político: Exigir reconhecimento ou mudanças em condições de detenção.
Resistência Pessoal: Um grito silencioso de autonomia em situações de sofrimento extremo. Que vem a ser o caso da YeongHye
A partir dessa decisão e até mesmo antes, a gente vê que a personagem é uma vítima de diversas micro violências, que começam desde a infância com a relação conturbada com o pai e vão até a vida adulta no relacionamento com o marido. Então ela vai desde a violência familiar, até o estupro matrimonial. Essa primeira parte vai trazer uma cena fortíssima de como o corpo dela não a pertence, que é a cena em que o marido e o irmão a seguram e o pai enfia carne na boca dela, uma representação muito clara da violência contra o corpo e da conformidade da família, amigos e do marido com a situação.
Quando a gente entra na segunda parte, em que o cunhado se interessa pela mancha mongólica e fetichiza a YeongHye, colocando a mulher nesse papel de objeto de prazer, o que me remeteu muito ao abuso infantil, porque é dito que a mancha é comum em bebês e que some com o tempo, e a partir da experiência de ver isso no filho, vem então a obsessão pela cunhada que apresenta esse mesmo traço. Ele utiliza das fragilidades dela e do estado mental em que ela se encontra, para abusar dela. A forma como ele a seduz utilizando de coisas que ela gosta, nesse caso as flores, as frutas, usando o segredo como uma forma de aproximar os dois, então falar que ‘a irmã não pode saber’, usando de um teatro para chegar aos seus objetivos com ela até que ela acaba autorizando o ato sexual, mas será que ela tem capacidade de discernir o que ela está autorizando nesse momento? Ela que está psicologicamente e fisicamente fragilizada, realmente é capaz de tomar decisões? É um abuso contra uma pessoa que não tem como se defender e que talvez sequer tenha uma plena compreensão do que está acontecendo, ela está vivendo situações que são claramente delírios. Então aqui a gente vê uma perversão muito grande por parte do cunhado ao realizar esse ato se utilizando dos problemas psíquicos que ele sabe que YeongHye enfrenta e utilizando dos delírios dela para convencê-la de que está tudo bem naquele ato, na gravação, utilizando disso para justificar seus atos com base nas ações da YeongHye, o que é ainda mais violento. Fora que além de violentar a YeongHye ele também violenta a própria esposa em outras passagens do livro.
E por fim na terceira parte a gente tem a YeongHye sendo totalmente abandonada pela família, e a irmã é a única que permanece ao seu lado. Esse capítulo, ele acaba sendo o mais confuso porque em muitos momentos não sabemos se é a YeongHye ou a irmã que está narrando, e isso me parece proposital levando em consideração que as duas dividem uma parte da vida, dividem experiências, mas o que muda aqui é a forma como cada uma processou os traumas e as vivências que teve.
Temos a cena em que a irmã relembra quando elas se perderam no bosque, é contado que a YeongHye que tinha apenas 9 anos pergunta pra irmã porque elas não podem continuar perdidas, a irmã diz que elas podem morrer, e a YeongHye rebate perguntando ‘por que eu não posso morrer?’ e aí a irmã relembra que a YeongHye sempre foi o principal alvo da violência e da fúria do pai. Enquanto o irmão sendo o único filho homem quase não ficava em casa, não tinha obrigações com o lar, e a irmã que não era alvo dessas violências por cumprir o papel de gênero que era esperado pelo pai, já que ela cozinhava para o pai no lugar da mãe e ajudava com os afazeres de casa. E a irmã se vê nessa posição de antes julgar a YeongHye por ser condescendente, por não entender a dinâmica da casa, não se comportar como deveria e ela se achava mais madura por isso, mas é aqui agora com a irmã mais nova já quase morrendo que ela tem essa visão de que a violência contra a YeongHye pode ter a afetado mais do que ela imaginava, e que a ‘maturidade’ dela não era maturidade no final das contas, mas sim a forma que ela tinha de sobreviver e de manter naquele ambiente familiar extremamente conturbado. Na psicanálise se tem o entendimento de que esse tipo de agressão e de trauma na infância, deixa memórias no corpo que dificilmente são metabolizadas e isso fica ainda mais nítido quando a gente volta pra mancha mongólica, que teoricamente o bebê nasce com ela mas que com o passar do tempo ela some, mas a YeongHye é uma adulta que ainda tem essa marca, me parece que autora quis trazer esse paralelo sobre como ela ainda carrega as questões e traumas da infância, mesmo na vida adulta.
Aqui até o termo vegetariana apresenta um uso interessante, que começa com essa ideia de parar de comer carne, até chegar ao ponto em que a YeongHye acredita estar se tornando um ser vegetal, não sendo mais humana. A autora Han Kang contou que a ideia para o livro surgiu de uma frase do poeta Yi Sang que diz "Acredito que os seres humanos deveriam ser plantas". Esse poeta, que escreveu principalmente durante a década de 20 e 30, escrevia clandestinamente e foi censurado porque suas obras representavam resistência à ocupação do Japão na península coreana. Houve um processo intenso de colonização e a tentativa de aniquilar a cultura coreana, a língua era proibida, as pessoas precisavam mudar de nome para nomes de origem japonesa, muitos foram enviados para campos e fábricas de trabalho de forma forçada, muitas mulheres foram mantidas como escravas sexuais. E é dentro desse cenário que o poeta Yi Sang escrevia seus poemas.
Voltando a frase que inspirou o livro "Acredito que os seres humanos deveriam ser plantas" me traz essa visão da planta como uma criatura incapaz de praticar o mal, incapaz de sofrer de dores ou de violências e que consegue crescer mesmo em meio a adversidades.
Então a YeongHye escolher virar um ser vegetal parece muito uma forma de se afastar desse corpo feito de carne que tanto já sofreu.
Abrindo um parênteses: Outro episódio histórico que se assemelha a esse é a ocupação japonesa na China que ocorreu alguns anos após a ocupação na Coreia e que serviu de inspiração para A Guerra da Papoula da autora R. F. Kuang.
No final, o livro acaba falando muito sobre a violência contra a mulher, a redução da mulher apenas ao corpo como um mero objeto que deve satisfazer as expectativas que lhe foram impostas, expectativas de comportamento, de atuação em casa, de servir enquanto esposa. Aqui a gente vê muito da violência patriarcal e do machismo que leva, a redução da subjetividade da mulher a colocando nesse papel de responder ao poder e ao prazer (na maioria das vezes sexual) dos homens. O silenciamento de YeongHye é tão absoluto que a própria estrutura do livro reflete isso: ela é a protagonista e a vítima, mas nunca lhe é permitido narrar sua própria história. Transformar-se em planta não é apenas um delírio, é o desejo de se tornar uma criatura que é incapaz de praticar o mal e de senti-lo. E por fim, voltando ao título do livro e aos narradores da história, o nome A Vegetariana reflete a forma como as outras pessoas enxergam ela, porque em nenhum momento a YeongHye se define dessa forma ou se coloca nessa caixa, então o título não reflete quem ela é, mas sim uma visão e percepção de outras pessoas a respeito dela.
Resenha por: Martha Cristina
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