Mil anos antes, quando guerras ainda não eram travadas, quando deuses andavam livres pela terra e interagiam com humanos, como um só povo, existia uma deusa, no início de sua juventude, Héstia, era assim que a chamavam, ela era puro fogo, chamas percorriam seu sangue, brasas salpicavam seus olhos, filha única e herdeira direta de Mally, deus do submundo. Héstia era treinada a matar, lutar nas guerras futuras, e ensinada às leis que mantinham o mundo em harmonia, nascida e criada para ser a melhor que já existiu.
- Héstia, é você quem controla seus poderes e não ao contrario, tente de novo - Mally lhe ensinava mais uma das suas lições sobre seus poderes, mas ele sabia que para Héstia era mais difícil, ela tinha nascido com um poder surreal, a mais poderosa de seu povo que já existiu.
- Sim, pai - Ela estava sentada sob uma pedra de cinco metros de altura, concentrada para que seu poder a levasse até o chão, leva-la flutuando até lá, mas era difícil, todas as vezes que o fogo a levantava como um redemoinho ela se descontrolava e ele se expandia queimando qualquer um e qualquer coisa que existisse no caminho, e mais uma vez o fogo explodiu em chamas, saíram por todos os lados, Mally para não ser atingido pelo poder da filha criou em volta de si uma barrei com seu próprio fogo.
Era nítido ver o quanto ela era poderosa, enquanto o fogo de Mally era laranja, o fogo que emanava de Héstia era vermelho, um vermelho vivo, como sangue. Mally treinava Hestia com tudo, todos os dias, sem distrações, consequentemente, Héstia não tinha amigos, e nunca interagia com pessoas além daquelas que moravam e trabalhavam para eles, e com os monstros, e seres imortais que viviam no submundo.
- Já chega por hoje, pode descansar - Estavam treinando antes do sol nascer, com paradas apenas para comer ou se aliviar, deuses não precisavam de muito, não se cansavam fácil, quando terminaram o treino o sol já estava se pondo atrás da floresta que cercavam a grande casa, quase um castelo, o melhor para o deus do submundo.
- Pai - Hestia pulou da pedra até o chão- meu aniversário de vinte anos é amanhã, você prometeu me levar a aldeia e…
- Eu sei o que prometi, mas não acho uma boa ideia, você ainda não controla bem os seus poderes.
- Mas é a idade de uma era, você prometeu e eu controlo meus poderes, eu prometo ficar escondida só observando - A idade de uma era, ou idade de ERA, quando os deuses param de envelhecer, ERA, uma deusa da juventude fez com que parassem de envelhecer, e assim o poder da imortalidade ficou mais forte.
- Mas nada, você é a mais forte que já existiu, e com isso, você é um alvo, você pode ser caçada e morta, muitos cobiçam seu poder e seu trono, quando conseguir o controle total de seu poder, você poderá fazer o que quiser, pois já poderá se proteger.
- Tudo bem, pai - Ela voltou para casa, ao mesmo tempo cheia e vazia, enquanto Mally retornou para o submundo, passou pelo corredor silencioso de pedra pura, entrou em seu quarto, o único lugar ali que tinha decoração ou alguma personalidade, seu quarto era enorme, com cortinas azuis e uma parede cheias de livros, sua cama estava coberta com couchas cor de rosa, e a janela se abria em uma varanda com vista para a cidade, ou apenas para as luzes da cidade, apenas pontinhos distante que brilhavam, como mil vagalumes na terra.
Hestia entendia o que seus poderes significavam, mas ela esperou vinte anos para poder sair dali, daquele casulo, daquela prisão de árvores, flores e céu, ela queria conhecer o mundo, e se odiava por não ser normal, ou uma pessoa normal, ou uma deusa qualquer, sua vida já estava decidida, seu lugar ao mundo, e ela odiava não poder decidir isso.
Héstia estava sentada na cama com um de seus vários livros quando escutou algo na varanda, se levantou lentamente, pegou sua espada de treino a ergueu em posição de luta e foi em direção a varanda, quando algo se atirou para cima dela e a derrubou no chão, Hestia se levantou com agilidade e golpeou o indivíduo, causado um corte superficial em seu braço direito, e no segundo seguinte, não havia mais corte, estava uma pele intacta.
- Você foi mais lenta dessa vez Hes - Morga uma ninfa que vivia na floresta, e a única e melhor amiga de Hestia, Morgan era alta, tinha orelhas pontudas, um cabelo verde incrível, como folhas de árvore, e uma pele marrom.
- Mas da próxima não vou ser - Hestia sorriu mas o sorriso não chegou às bochechas, Morgan já entendia.
- Ah Hes, ele não deixou você ir ?
- Ele disse que é muito perigoso.
- Eu sinto muito - Morgan abraçou Hestia em solidariedade- eu sei o quanto você queria isso.
- É, tudo bem, pelo menos você vai passar um tempo comigo.
Hestia sorriu em gratidão.
- O que me faz lembrar - Morgan retirou uma caixinha de madeira do bolso, Morgan usava um tipo de calça preta e uma camisa que ia até os joelhos, ela não usava nada nos pés- Feliz aniversário, Hes - e entregou a pequena caixinha para Hestia.
- Não precisava se incomodar, Morgan.
- Não foi incomodo algum.
Hestia abriu a caixinha e bem no centro havia um rubi vermelho como os cabelos de Héstia, era um tipo de cordão feito com cipós, com certeza os mais resistentes.
- Eu mesma o fiz - Morgan disse - achei o rubi na floresta e coloquei esses cipós nele, a minha magia vai fazer ele ficar confortável e durar por séculos, nem vão perceber que é feito de galhos de árvore.
- Obrigada Morgan, é perfeito - Hestia enxugou uma lágrima que ameaçou sair de seus olhos e então abraçou Morgan.
As duas passaram a noite juntas, comendo chocolates e bolos, lendo livros e imaginando como era ser livres, como era o mundo lá fora. Morgan foi embora quando o sol apontava pela janela, ainda estava escuro o suficiente para que não a vissem por ali.
Quando o sol já estava alto, uma batida forte atingiu a porta de Héstia.
Ela se levantou ainda sonolenta, era seu aniversário nunca treinavam nesse dia, não só por ser seu aniversário, mas era a lua cheia de cem anos, dali a um mês, seria o ritual de fogo.
Ela abriu a porta, e ali de pé estava Mally.
- Feliz aniversário querida - Mally disse, e lhe entregou seu presente, uma enorme e linda espada de ouro puro, banhada no sangue dos deuses, graças a magia a espada era leve como uma pena, e em seu cabo estava uma linda pedra petra, onde seu poder se concentrava e passava por toda a espada, fazendo chamas puras queimarem sem que a derretesse.
O presente de uma guerreira.
- Obrigada, pai, ela é incrível - Ela segurou a espada na mão, a movimentando cortando o ar, como se imaginasse seus inimigos, mas ela não tinha nenhum, ainda.
- Como você sabe o ritual de fogo está a caminho e hoje é a grande lua cheia, então vou passar o dia no submundo concentrando meu poder para o ritual, só volto amanhã pela manhã para seu treinamento.
- Tudo bem pai, obrigada.
Hestia já estava acostumada a ficar sozinha, já não se importava mais, até gostava.
Mally partiu, Héstia foi até o jardim para treinar com o presente, Hestia nunca foi de desobedecer seu pai, na verdade nunca fez nada de errado, enquanto cortava o ar, golpeava bonecos de madeira, ela pensava nisso, em tudo que não teve e tudo que perdeu, era jovem, deveria conhecer o mundo, conhecer pessoas como ela. Pensava e pensava, quando decidiu que seria um bom dia para mudar, para errar, para escolher o que ela queria.
Hestia subiu até seu quarto, foi até a varanda, e o fogo surgiu em seus dedos, lançou uma pequena bola de fogo em direção a floresta, quando a bola de fogo estava acima da floresta, um jato de água a atingiu.
Um sinal, aquilo era um sinal, para uma aventura.
Minutos depois Morgan apareceu em seu quarto.
- Me chamou, o que foi? Sabe que é perigoso vir aqui durante o dia.
- Vou até a aldeia esta noite, e quero que vá comigo.
- Você tá maluca, seu pai vai nos matar, me incinerar.
- Não, ele só volta amanhã de manhã, hoje é a lua cheia de cem anos, ele vai ficar no submundo se preparando para o ritual.
- Eu tinha me esquecido disso -Morgan disse enquanto se sentava na cama.
- É claro, não perderia isso por nada - Morgan se levantou sorrindo igual um felino.
- Ótimo, te encontro a meia noite, nos portões.
- Fechado - Morgan pulou da varanda e desapareceu pelo jardim, ela era incrível.
A meia noite em ponto, Hestia já estava fora dos portões da enorme propriedade, ela usava roupas simples, um vestido azul claro um pouco velho, ela roubou de uma criada humana, usava uma enorme capa preta com capuz. Algo mexeu os arbustos na floresta à sua frente, era Morgan.
- Bem na hora - Hestia deu um sorriso de canto de boca, seu coração galopava de pura emoção.
- Pegue, vista isso - Hestia estendeu um vestido verde para Morgan, bem a cara dela, e lhe entregou uma bota também já que Morgan só andava descalço.
- Espera, o que, pra que? - Morgan pegou o vestido nas mãos - eu não gosto de vestido.
- Precisamos nos misturar, e suas roupas não são nada comuns.
- Tudo bem, você tem razão - Morgan disse como se fosse derrotada, foi para trás de uma enorme arbusto, vestiu a roupa e calçou a bota.
- Ótimo, você está linda - Hestia elogiou - precisamos de cavalos se quisermos chegar rápido até lá e voltamos antes do sol nascer, acredito que você já tenha um plano.
- É claro que tenho - Morgan soltou um assobio longo e agudo que ressoou por toda floresta, era encantador e chato ao mesmo tempo, quando ela parou de assobiar não demorou muito e dois cavalos selvagens surgiram da escura floresta, eram lindos e enormes, um era branco como neve, e o outro era negro, quase não o percebi quando saiu de dentro da floresta.
- Nossa, Morgan, são lindos, uma crina enorme e perfeita - Héstia passou a mão pela longa crina do cavalo de pele escura, o acariciou- mas não tem nenhuma cela por aqui, nem uma corda, como vamos…
- São selvagens, mas vão se comportar, juro - Ela já estava sob o lombo do cavalo, Morgan nunca perdia tempo, com isso, Héstia montou o cavalo, e assim as duas começaram uma corrida em direção a aldeia.
Passaram no coração da floresta onde criaturas da noite rondavam por lá, a floresta era fria e escura, a lua ainda não tinha saído para clarear o caminho delas, mas Héstia não precisava, bastava as estrelas brilhando no céu, e Morgan para guiá-la.
Ao saírem da floresta havia uma descida enorme, a cidade ficava logo abaixo depois de atravessarem um rio. Pelo que parecia, sua casa não havia muro algum, mas havia a floresta em seu lugar, impedindo que poucos se arrisquem a atravessá-la para ver o que quer que houvesse do outro lado, Héstia sabia o que havia do outro lado, era ela.
- É, libertador - Héstia disse para o vento.
A sua direita Morgan cavalgava seu cavalo branco, o vestido verde se enroscando na sua capa preta estava voando como o vento assim como seus cabelos, Morgan adorava verde, ela era mais selvagem que seu próprio cavalo, Héstia se sentiu mais feliz do que nunca esteve, o vestido azul e seus cabelos vermelhos se destacando na noite cheia de estrelas.
- Como vamos atravessar? - Héstia questionou Morgan assim que se depararam com um rio de água corrente a sua frente, nada de ponte até onde se podia enxergar.
- Hes, você sabe que eu sempre tenho um plano - Em um pulo Morgan já estava no chão, ela andou em direção à margem do rio, se agachou e colocou suas mãos no chão, segundos depois, uma ponte surgiu sobre o rio, uma ponte de raízes de árvores.
- Ah Morgan, você adora brincar com raízes não é? - Hestia deu uma piscadinha para ela e atravessou o rio passando pela ponte que Morgan fez.
- Hes, temos que voltar antes do sol atingir a ponte - Morgan atravessou a ponte e já estava ao lado de Héstia - você sabe que meus poderes são limitados durante o dia.
- Então vamos logo - Héstia não conseguia parar de sorrir, era pura e selvagem, uma energia, um fogo queimando suas veias.
Elas cavalgaram por mais alguns quilômetros até que avistaram a aldeia.
- Melhor deixarmos os cavalos aqui e terminarmos o percurso a pé, eles não lhe dão muito bem, nesse tipo de lugar.
Ela desceram dos cavalos e os deixaram ali debaixo de uma enorme árvore, e continuaram a pé. Quando chegaram na aldeia perceberam o quanto ela era maior, agora elas já colocaram o capuz que cobriam seus cabelos incomuns e seus rostos.
Eram casas simples de madeira e poucas de pedra, a rua estava vazia, e as luzes eram mais brilhantes pessoalmente, não se pareciam mais com vagalumes, elas andavam pela rua estreita, quando escutaram um som, era música, e a cada passo soava cada vez mais alto, e mais alto.
Elas pararam em uma parte escura para evitarem ser notadas, uma praça, estavam diante de uma praça, uma decoração adornava o lugar, fitas de todas as cores amarradas a postes com luz no topo, uma fogueira queimava forte no centro da praça e as pessoas dançavam felizes ao redor, com risos e vozes acompanhando a canção, o som mais animado que Héstia e Morgan já tinham escutado.
- Não sejam tímidas meninas, hoje todos somos um - uma mulher mais velha surgiu ao lado delas as puxando para a multidão, Morgan olhou com medo nos olhos para Héstia, ela também nunca havia interagido com muitas pessoas, a mais normal era Héstia, mas Héstia não era uma pessoa normal - tem bebidas e comidas em todas as mesas, comam o que quiserem, dancem, divirtam-se.
A mulher as deixou ali, em frente a fogueira e saiu dançando e pulando com a multidão. As pessoas eram todos normais, sem orelhas pontudas ou cabelos coloridos, eram morenas, loiras e marrons, altos e baixos, alguns tinham um sorriso que lhe faltavam dentes, outros dançavam esquesito, mas ninguém parecia ligar, talvez não ligassem para Héstia ou Morgan, foi o que elas pensaram.
- Não precisamos tirar o casaco - Morgan disse e Héstia e foi como dar doce a criança, um segundo depois Héstia saiu arrastando Morgan pela multidão, as duas rodopiavam e riam, dançavam como folhas ao vento.
Era um momento único para elas, a música, o contato com pessoas, Héstia não entendia como isso seria ruim, o motivo pelo qual Mally não a deixava sair, nunca.
Depois de dançarem tanto que seus pés doíam, e suas pernas estavam moles como água, elas decidiram dar uma pausa e ir beber algo, seguiram até uma das muitas mesas ali, lotadas de bebidas e comidas que cheiravam tão bem, elas não resistiram, comeram um pouco de tudo que havia ali, frango com molho, carneiro assado, doces e manjares, era dos deuses, pensou Héstia e isso a fez sorrir.
- Eu também adoro a comida dessas festas - Um rapaz alto, um pouco magro mas ela conseguia ver seus músculos que marcavam a camisa branca, Héstia percebeu que todos ali usavam algo branco, vestidos, laços, calças.
- Sim, nunca provei algo tão saboroso.
- Você não é daqui, é? - Ele perguntou, Morgan tossiu um pouco alto, Héstia entendia.
- Não, somos de uma aldeia distante, só estamos de passagem.
- Nós? - Questionou o rapaz.
- Sim, eu e minha amiga, esta é Morgan - Morgan saiu de trás de Héstia e comprimentou o rapaz apenas com um mexer de cabeça, ela não poderia mostrar suas mãos com dedos longos e incomuns.
- Então, o que é tudo isso? - Héstia quis saber mostrando a multidão.
- É uma festa da colheita, acontece a cada cem anos, com a lua cheia de cem anos no céu, eles pedem aos deuses para que os próximos anos sejam prósperos.
Héstia não sabia que era assim que eles faziam, o pedido aos deuses, mal sabiam eles como era macabro o que aconteceria dias depois da lua de cem, mas ela não iria dizer, não pensaria, e queria que nunca subisse ao trono apenas por causa disso, do que teria que fazer por ser a próxima deusa do submundo, seu coração se apertou, e ela cogitou fugir dali, e nunca mais voltar, mas ela não poderia, tinha obrigações, deveres. seu olhar ficou distante e sombrio, o rapaz percebeu.
- Você, não quer dançar comigo? - Não, Héstia pensou, e provavelmente Morgan também, já que seu cotovelo atingiu a costela de Héstia a fazendo dar um pulinho.
- Eu não sei dançar, provavelmente você sairia de lá com os dedos tão amassados quanto a bunda daquela mulher - Foi a resposta de Héstia, e ele apenas sorriu, um sorriso tão estonteante que colocaria meros mortais de joelhos.
- Tudo bem, eu aguento - Ele piscou para ela, com seus olhos mais azuis que o céu em uma manhã de verão, quando não há uma nuvem sequer no céu.
- Volto já - Hestia disse a Morgan.
- Hes, não acho uma boa ideia, melhor irmos, o sol nasce em poucas horas - Mas Héstia já segurava a mão do rapaz, e ela percebeu que não sabia seu nome.
- Uma vez na vida Morgan- Morgan assentiu, derrotada, queria ver a amiga feliz.
- Só porque é seu aniversário, Hes - Héstia deu um beijo em sua bochecha e saiu.
- É seu aniversário, bem na noite da lua de cem - Ele perguntou, seus cabelos loiros brilhando a luz da fogueira.
- Sim, e como presente gostaria de saber seu nome - Ele sorriu de novo, não deveria sorrir para ela, era tortura.
- Eiden, meu nome é Eiden, e o seu?- ele perguntou, já rodando Héstia ao redor da fogueira, e ela amava estar tão perto do fogo, mal sabia ela, que Eiden deixaria tudo em cinzas, a faria aquecer o mundo.
- Pode me chamar de Héstia - Ela lhe deu um sorriso de desafio, e ele aceitou.
Héstia não sabia onde estava se metendo, e mesmo se soubesse, não tenho certeza se evitaria tudo aquilo que estava por vir, destruição total.