"Ao contrário de Narciso, não morro e acho que não morri pelo meu reflexo. Muito menos o admiro a tal ponto de ser levado ao fim.
Olho para mim… Às vezes me vejo, não me reconheço, me entristeço. Adoeci de dentro para fora. Mas, diferente de uma ferida, não pude arrancar a casca, pois ela insiste em não sarar, e muito menos parar de adoecer.
Luto internamente para que os anos que se passaram em minha memória tragam de volta aquele sorriso. Existia espontaneidade ali. Alívio de não saber sobre o muito e desejar o necessário.
Sorrisos proferidos minutos atrás, mas que se passaram séculos desde a sua existência. Sorrisos que dão a sensação de esquecimento ou lapsos temporais, quase imperceptíveis…
Tornando-se um labirinto de espelhos ao meu redor.
Eles parecem não ter fim, trazendo à tona todos os meus reflexos internos. Alguns traçados com o quanto me derramei, outros apenas suportei e me mantive aparentemente feliz.
Envolto a esse labirinto, busco a saída e dou de cara comigo mesmo, parado ali, me encarando. Faço-me colidir em pensamentos, à procura de contentamento.
Tento me abraçar, mas logo o sinto levar consigo todo meu ânimo de um dia voltar atrás.
Ao fim daquela jornada, numa estrada que nem parecia estar ali — pois só enxergava os espelhos — torno a continuar a caminhada, em completa confusão. Minha real missão é manter-me acordado dentro de um pesadelo: estar preso dentro da minha própria mente, pedindo para que volte enquanto há tempo!
Sinto falta de quando não precisava desesperadamente ter alguém em quem confiar e escutar "calma, você está sonhando". Sem
precisar me beliscar para ter certeza, e mesmo assim lançar a desconfiar de si mesmo."