Fact-check: Brigantia, o Culto do Cavalo e o UnicĂłrnio
EstĂĄtua de uma deusa celta, provavelmente Brigantia | SĂŠculo I, bronze
Encontrei esse artigo por Tuan Cu Mhara espalhado por aĂ em sites neo-pagĂŁos. O tema ĂŠ Brigantia, uma deusa relacionada e associada com Brigit. Eu esperava o de sempre, talvez um ou dois erros, mas nossa, este artigo estĂĄ repleto deles!
O problema deste artigo nĂŁo ĂŠ o espĂrito (viva o paganismo moderno!), mas o fato de ele tentar passar uma visĂŁo moderna e pessoal de fĂŠ como uma anĂĄlise histĂłrica sĂłlida sobre o xamanismo e a religiĂŁo celta. Esse artigo ĂŠ, em um vĂĄcuo, um Ăłtimo trabalho de teologia neo-pagĂŁ sincrĂŠtica moderna.
EntĂŁo vamos lĂĄ: como sempre, o texto original traduzido serĂĄ postado na Ăntegra em blockquotes com minhas correçþes intercaladas.
AnĂĄlise
Como Brigantia ĂŠ a Padroeira do Culto do Cavalo, corridas de cavalos e vĂĄrios elementos do simbolismo da ĂŠgua-cavalo sĂŁo associados ao seu festival.
A deusa romano-britânica Brigantia, da tribo Brigantes, ĂŠ frequentemente associada Ă deusa celta continental Epona, deusa dos cavalos. Sua associação com cavalos ĂŠ plausĂvel, mas chamĂĄ-la de "padroeira do culto ao cavalo" ĂŠ um exagero. A associação ĂŠ baseada em possĂveis paralelos, nĂŁo em evidĂŞncias primĂĄrias que a coloquem como a figura central de um culto de cavalos.
O unicórnio macho Ê simbolicamente caçado e morre capturado pelos cães em um matagal de espinheiros, ou ao se aquietar com a cabeça no colo da Donzela/Deusa.
Isso reflete fortemente a lenda medieval europeia do unicĂłrnio (pĂłs-clĂĄssica!), onde o bicho (um sĂmbolo de pureza, graça ou, Ă s vezes, da PaixĂŁo de Cristo) sĂł podia ser domado por uma virgem (frequentemente interpretada como a Virgem Maria). O problema ĂŠ que esse simbolismo do unicĂłrnio ĂŠ, em grande parte, uma tradição europeia que surgiu depois do perĂodo celta que o artigo se propĂľe a analisar.
Isso liga o unicĂłrnio macho intimamente a Myrddin, o Homem Selvagem, Urso-XamĂŁ, que tambĂŠm se curva diante da Deusa.
Myrddin ĂŠ a figura galesa associada ao Merlin arturiano posterior, conhecido como um Homem Selvagem (gwyllt em galĂŞs) apĂłs testemunhar uma batalha traumĂĄtica e adquirir o dom da profecia. A ligação entre ele e um xamĂŁ-urso e a domesticação do unicĂłrnio ĂŠ uma conexĂŁo interpretativa tĂpica de certas tradiçþes esotĂŠricas modernas. NĂŁo ĂŠ sustentada pela literatura galesa tradicional. Ă uma visĂŁo claramente moderna aplicada sobre o mito antigo.
Monoceros (nĂŁo unicĂłrnio!) conforme ilustrado no Ashmole Bestiary.
O unicĂłrnio, como deve ser notado, era frequentemente parte cavalo, parte veado, parte cabra no simbolismo da fĂŠ feĂŠrica.
A descrição lembra mais a descrição de PlĂnio sobre o monoceros com cabeça de veado, pĂŠs de elefante, cauda de javali e corpo de cavalo. O folclore celta prĂŠ-moderno nĂŁo tem uma descrição consistente ou proeminente desse tipo de criatura fantĂĄstica (infelizmente).
A macieira era de suma importância para os celtas. Como uma das sete årvores principais, ela figura de forma proeminente em todas as camadas da mitologia e dos costumes populares.
CorretĂssimo! A macieira (aball) ĂŠ crucial na tradição celta, especialmente na irlandesa (associada ao Outro Mundo, TĂr na nĂg). O conceito das Sete Ărvores Chefes (Airig Fedo) vem dos antigos tratados jurĂdicos irlandeses da Idade MĂŠdia, e a macieira ĂŠ, de fato, uma "nobre da floresta".
Possui diversos significados rituais ao longo do ano: a floração representa a primavera (fertilidade), os frutos, o outono, o Samhain (adivinhação e morte) e as ĂĄrvores nuas sĂŁo celebradas [wassailed] no solstĂcio de inverno (como o velho e sĂĄbio homem da macieira).
A precisĂŁo dos rituais em si estĂĄ okay (maçãs no Samhain para adivinhação sĂŁo um clĂĄssico), mas hĂĄ uma mistura de culturas acontecendo aqui. O costume de wassailing (brindar e cantar pela saĂşde das ĂĄrvores) ĂŠ bem documentado no folclore do oeste da Inglaterra (especialmente em Somerset e Devon) no SolstĂcio de Inverno. Embora seja um belo costume folclĂłrico, ĂŠ uma tradição folclĂłrica inglesa, nĂŁo celta.
Na caçada sagrada, a macieira ĂŠ o abrigo da corça e do unicĂłrnio; por isso, adquiriu o epĂteto 'boiscul' - 'abrigo da corça'.
Pelo que pesquisei, o termo 'boiscul' (ou similar, como buasach 'bovino, excelente, rico') não Ê uma palavra reconhecida do irlandês antigo, mÊdio ou galês com o significado de 'abrigo da corça'. Parece ser um termo inventado ou extremamente obscuro/grafado incorretamente, mas eu posso estar errada.
A corça que HÊrcules seguiu se escondeu sob uma macieira silvestre, que mais tarde o levou aos hiperbóreos.
O mito geralmente afirma que a corça era dedicada a Ărtemis e que ele a perseguiu por um ano, Ă s vezes levando-a Ă terra dos hiperbĂłreos, mas nĂŁo hĂĄ menção de que ela tenha se abrigado especificamente sob uma macieira.
A flor da macieira ĂŠ um prenĂşncio da primavera e, como tal, um sĂmbolo da jovem deusa sexualmente excitante; por exemplo, uma maçã fertilizou a esposa de Rerir, Ljod (Vento Leste, filha de um gigante de gelo).
Aqui, o autor se confunde feio na mitologia nórdica (sim, nórdica, não celta...). Na saga dos Volsungos, Frigg envia um corvo ao rei Rerir, que deixa cair uma maçã no colo de sua esposa. A esposa a come e concebe Volsungo. Ljóð Ê uma giganta que se casa com Volsungo, e em algumas versþes, Ê ela quem assume a forma de um corvo e coloca a maçã no colo de Rerir. Ela não Ê a esposa de Rerir e nem come a maçã.
Uma maçã foi dada pela Deusa Goda ao Rei Sagrado no Festival da Primavera no norte da Europa.
Deusa quem? Nunca ouvi falar.
A macieira selvagem estĂĄ associada a Olwen; outras deusas da maçã sĂŁo a Idun escandinava e a Shekhinah cabalĂstica que preside os pomares de maçãs do ParaĂso. Melus, o sacerdote de Afrodite, foi transformado em uma macieira, assim como certos Reis Gigantes nos contos folclĂłricos irlandeses tĂŞm suas almas contidas no interior de uma maçã.
E desde quando Shekinah e Olwen sĂŁo deidades? Eu, hein. Shekinah ("habitação" ou "presença") ĂŠ um termo teolĂłgico cabalĂstico usado para descrever a presença imanente de D'us no mundo, e nĂŁo ĂŠ uma deusa ou uma deidade separada em um panteĂŁo. Para ser justo com a intenção (ainda que mal executada) do autor, o simbolismo da maçã tem uma conexĂŁo, muito indireta e esotĂŠrica, com a Shekinah dentro da Cabala, mas nada a ver com uma ''deusa da maçã''.
Olwen ĂŠ uma heroĂna mitolĂłgica galesa, mas tambĂŠm nĂŁo ĂŠ deidade e nĂŁo tem nada a ver com maçãs. O Ăşnico acerto do autor foi Idun, que realmente ĂŠ uma deusa e ĂŠ associada Ă maçaĂŁs.
Este parĂĄgrafo apresenta o maior problema metodolĂłgico do conteĂşdo "educacional" de origem neo-pagĂŁ - esse tipo de bricolagem mitolĂłgica. Ă tudo completamente irrelevante quando se tenta ensinar sobre mitologia e religiĂŁo celta. SĂŁo apenas similaridades temĂĄticas que parecem profundas, mas nĂŁo contam a histĂłria de ninguĂŠm, a nĂŁo ser a do autor moderno.
Frequentemente, quando a maçã aparece na BĂblia ou em outros lugares, hĂĄ um simbolismo sexual implĂcito (por exemplo, Cântico dos Cânticos 2, 3 e 5), pois a jovem donzela da primavera estĂĄ se transformando na lasciva deusa lebre.
E ĂŠ aqui que o texto passa de ruim para horrĂvel. O Cântico dos Cânticos da BĂblia ĂŠ rico em imagens pastorais e românticas, incluindo a maçã, que os intĂŠrpretes frequentemente consideram sexual/sensual. A mudança para uma "deusa lebre luxuriosa" ĂŠ uma ligação interpretativa especĂfica frequentemente feita em algumas escolas de pensamento pagĂŁo moderno. Bem, isso em um vĂĄcuo ĂŠ Ăłtimo. Acho absolutamente aceitĂĄvel ver outras religiĂľes atravĂŠs das lentes da sua, o problema ĂŠ colocar isso em um artigo sobre a religiĂŁo celta como se fosse uma chave histĂłrica para entender a mitologia.
A deusa ave de março em diante era a codorna ressuscitada, cuja carne era considerada afrodisĂaca. Zeus acasalou com Leto enquanto ambos estavam na forma de codorna.
O mito grego conta que Zeus transformou Leto em uma codorna para que ela pudesse escapar da perseguição ciumenta de Hera durante a gravidez, e nĂŁo para que pudessem se unir. Leto retomou sua forma humana na ilha de Delos para dar Ă luz Apolo e Ărtemis.
Celebraçþes lascivas com codornas eram realizadas em honra à deusa da primavera. Iolau reviveu HÊrcules segurando uma codorna em suas narinas.
Iolau (sobrinho/cocheiro de HĂŠrcules) o ajudou a derrotar a Hidra e era um companheiro prĂłximo. Este detalhe sobre a codorna nĂŁo ĂŠ encontrado nos relatos da vida ou morte de HĂŠrcules.
AlĂŠm da Olwen galesa estar ligada Ă macieira selvagem, ela tambĂŠm ĂŠ associada ao trevo-azedo (azedinha-brava); assim como Ărtemis, adorada como Elaphios ("semelhante a uma corça"), tinha quatro corças alimentadas com trevo-azedo.
Esta ĂŠ a invenção mais descarada do autor. NĂŁo hĂĄ menção histĂłrica, mitolĂłgica ou clĂĄssica de que essas quatro corças (ou quaisquer outras corças sagradas a Ărtemis) fossem alimentadas especificamente com trevo-azedo. Ă uma conexĂŁo inventada pelo autor para forçar o sĂmbolo do trevo-azedo de volta Ă GrĂŠcia e ligĂĄ-lo a Olwen. Lembrando que o texto era para ser sobre mitologia Celta...
O tĂtulo Elaphios estĂĄ correto, entĂŁo vale meio ponto para o autor.














