#Casca
São tão fortes assim ?
Apenas bons atores ?
Melhores que ela, suponho
Antes, ainda menina, Casca era iludida por atuações que via na televisão. Em seus sonhos noturnos, deu-se à papéis angelicais, e criança como era, também à viagens intergalácticas
Casca almejava o céu
No teatro, já mulher, iludiu-se com as asas de plástico e os vestidos de celofane que ganhou
Tola amante das artes !
E ainda mais tola, por não deixar o juízo entrar
Enquanto os diretores iam almoçar na lanchonete da esquina, ficava lá, com o roteiro em mãos
Sua função era soprar
Nenhuma fala
O que uma Casca de olhos curiosos teria a dizer ?
Nenhuma indagação esperava, nela não cabia nada, nem o questionar
E por muito tempo sua boca permanecia silenciosa, trancada e cheia de sins
Lia os roteiros minimalistas e contentava-se em acreditar em sua utilidade atuante
Logo soube que não
Outra, com mãos menores, ganhou o papel, não porque as de Casca eram grandes, mas o pacote tamanho P já estava ali
Foi o primeiro dia que se vi olhando a pouca importância que tinha, ela sentada no canto do palco, olhava pela abertura da cortina, um pouco dela lá sendo feito
Deu-se conta da fragilidade das cordas, dos olhos omissos e das asas de plástico prestes a cair
Ela resolveu chorar
Lembrou-se da maquiagem, levou as mãos à face
Em vão, naquele momento só se podia sentir
Chorou
Casca, agora estava apta a ser outra personagem, e dessa vez seria a principal
Em um papel que ela nunca atuou
Sua vida lhe esperava
Valeu-se das lágrimas
Não quis esquecer o que viu
Sentiu-se inútil
O que poderia fazer?
Silenciosa ouviu os assobios de confirmação do travamento das portas
Recostou-se, piscou e dormiu
O calor da madrugada
O suor no celofane
Às bordas das cortinas vermelhas montavam a cena, o palco abrigava uma criatura miúda abraçada a si, de rosto borrado a dormir
Casca sonhou, e por sua vez, reviveu todo o dia
A falsa alegria e a descoberta não tão discreta da importância que tinha
Era só juntar e ela juntou
Viu-se no alto mais uma vez, sentia o desequilíbrio das asas. Morreu, nesse sonho Casca despencava e morria
O costume da bexiga trocou o enredo do seu sonho, agora estava entre mares e fontes
Acordou
Jéssica Dutra

















