Um Crush Na Cidade Gelada
Juliana acordou naquele dia gelado de inverno achando que seria só mais um daqueles em que a escola, o curso de inglês e os deveres de casa trariam a monotonia que o frio já impunha. Ela não sabia, mas conheceria uma pessoa nova naquele dia, alguém que faria seu coração acelerar.
Gabriel era três anos mais velho. Estudava para passar na prova de um colégio técnico e o curso preparatório era no mesmo lugar onde Juliana aprendia inglês. Naquele dia, que parecia ser só mais uma chatice de ter que estudar para garantir o futuro, cruzou olhares com Juliana. Foi ali que teve início o que seria uma linda paixonite adolescente.
Juliana nunca tinha namorado e sequer sabia se queria isso para si naquele momento. Era muito nova, tinha perdido o BV há menos de um ano e não focava muito nessa coisa de beijar meninos por aí. Gabriel era um pouco mais experiente, já tinha namorado antes e tinha um charme que não dava para ignorar. Depois da primeira troca de olhares, Juliana passou a aguardar o dia do cursinho só para saber se encontraria Gabriel de novo. Os olhares evoluíram para sorrisos e para as risadinhas dos amigos de Gabriel, que percebiam o flerte entre os dois e nem faziam questão de esconder. Umas três semanas depois dessa enrolação, Gabriel tomou coragem. Bem, na verdade, pediu para seu amigo Enzo tomar coragem por ele e ser o cupido que uniria esse casal.
Enzo foi até ela de forma desajeitada, sem saber como fazer a pergunta constrangedora que Gabriel tinha pedido que ele fizesse.
— Ei, guria, como é teu nome? Posso conversar contigo? É que o meu amigo quer saber se tu queres ficar com ele.
Depois de alguma relutância e com muito receio de passar vergonha na hora do beijo, Juliana aceitou. No fundo, ela queria, porque ele era lindo, sabe? Cabelo bem preto e liso na altura do ombro, pele morena no tom mais bonito que Juliana já tinha visto, olhos castanhos escuros e amendoados, no auge dos seus 1,70 m de altura e uma boca carnuda que fez a Ju não resistir por muito tempo na sua negativa. Ele usava roupas pretas que evidenciavam seu gosto musical mais pesado, se escondia atrás de óculos escuros e estava sempre muito cheiroso.
Como o prédio do cursinho não era muito grande e não havia nenhum lugar onde eles pudessem dar seu primeiro beijo em paz, resolveram ir para o shopping e encontrar algum lugar mais sossegado por lá para “conversarem” melhor. Juliana sugeriu uma das saídas da escada de emergência, pois ambos foram escoltados por seus fiéis escudeiros, que ficariam observando tudo e fazendo bagunça ao redor deles pelo simples fato de terem resolvido transformar as olhadelas em um beijo. Juliana foi primeiro para a escada. Gabriel veio logo em seguida, se apresentou, perguntou o nome dela e, assim que ela respondeu, olhou bem dentro dos olhos da Juliana e tascou um beijo nela, daqueles de deixar qualquer filme de comédia romântica adolescente no chinelo. Parece tudo muito repentino, mas era assim que os adolescentes se relacionavam nos anos 2000. E olha, que beijo! Juliana estava nas nuvens, beijando o gatinho do cursinho por quem estava afim há semanas, e a química fluiu. Não tinha como ficar melhor que isso. O que eles não esperavam era que um segurança observava tudo da central do circuito interno e mandou um colega ir até lá colocar os dois para correr.
Juliana saiu dali voando, mais rápido que uma bala. As bochechas rosadas deixavam óbvio o quanto ela se sentiu envergonhada, mas, no fundo, ela tinha gostado de toda aquela adrenalina. O mais novo casal resolveu despachar os amigos e finalmente conversar sem a língua dentro da boca um do outro. Ficaram ali por mais algumas horas se conhecendo melhor, trocaram mais uns beijos e cada um seguiu seu caminho antes que suas famílias estranhassem a demora para chegar em casa.
Daquele dia em diante, o dia do cursinho era o mais esperado da semana para ambos. Trocaram número de telefone para mandar SMS um para o outro quando a quantidade de créditos no celular pré-pago permitia e faziam as famosas chamadas de três segundos para conversar, evitando o desperdício de créditos que suas mães exigiam que durasse até o mês seguinte.
Com o tempo, as visitas se intensificaram, estendendo-se à saída do colégio de Juliana, onde Gabriel matava a última aula, pedalava quarenta minutos do colégio dele para o dela só para ficar ali trocando beijos e abraços no frio daquela cidadezinha e ter uma dose diária, mesmo que pequena, da presença um do outro. Começaram a trocar cartas de amor, mandar músicas um para o outro no MSN e contar os dias para se ver de novo. E não podia tocar Equalize da Pitty no rádio que os dois suspiravam, cada um em seu canto da cidade. Compartilhavam do mesmo gosto musical, ambos falavam e riam alto sem se importar com quem estava ao redor, conversavam por horas sobre tudo que era pertinente e atual para dois adolescentes dos anos 2000, queriam se conhecer melhor e ter o máximo de tempo juntos.
Gabriel decidiu que era a hora de ter o coração da Juliana só para ele e pediu para namorar com ela. Juliana aceitou na hora e explodiu de alegria, mas no momento seguinte a realidade bateu instantaneamente ao se lembrar da mãe, que não sabia sequer que a filha havia beijado na boca, que dirá que estava namorando um menino mais velho. Contar isso para dona Leila foi um desastre. Se ela não tinha nenhum problema cardíaco, passou a ter quando Juliana abriu a boca. Imediatamente negou o pedido da filha de namorar em casa e disse que, se pegasse os dois juntos por aí, o caldo ia entornar.
As incertas no cursinho de inglês e no colégio eram frequentes. O celular da Juliana era revistado com frequência. Mas quem se ama de verdade não desiste assim fácil e nosso casal não iria abrir mão dessa história de amor juvenil cheia de paixão e hormônios à flor da pele. Vencida pelo cansaço e por perceber que não conseguiria nada além de se desgastar na tentativa de manter esses dois afastados, dona Leila cedeu à pressão da filha e permitiu que aquele moleque namorasse com ela. Depois de um almoço que mais pareceu uma inquisição católica, as regras do relacionamento estavam estabelecidas:
— Vão namorar no sofá sob minha supervisão, quarto sempre de porta aberta e nada de ficar se agarrando pela rua na frente de todo mundo. — disse dona Leila, extremamente contrariada.
Pronto, os problemas estavam resolvidos. Passavam as tardes juntos aos finais de semana, fugiam sempre que possível para se verem na saída da escola e ainda tinha o cursinho, em que eles ficavam esperando dar a hora de acabar a aula para dar uma volta no shopping juntos e aproveitar mais um pouquinho. Se fosse possível viver grudado, esses dois com certeza viveriam. Só que a pouca idade da Juliana e o fato dela não poder acompanhar Gabriel em alguns passeios começou a pesar. Somado a isso, Juliana não era uma adolescente muito fácil, ficava de castigo com frequência e dona Leila impedia os dois de estarem juntos quando Juliana fazia besteira.
A crise no namoro estava formada e Gabriel não estava gostando nada da situação. Até que, em um determinado momento, mentiu para Juliana dizendo que ia ficar em casa, foi para um aniversário de quinze anos de uma amiga e foi visto por uma das amigas de sua namorada beijando outra menina na festa. Se a cidade não fosse pequena, talvez Juliana nunca fosse saber, mas que bom que tinham pessoas verdadeiras e que se importavam com ela a ponto de dar a pior notícia que poderia receber, mas que era necessária para o seu próprio bem.
Juliana ficou devastada. Era a primeira vez que entregava seu coração para um garoto e dedicou o melhor de si para aquele namoro. Ela não sabia que o amor doía tanto daquele jeito, parecia que tinham cravado uma faca no coração dela e arrancado ele sem abrir a pele. Ao confrontar o seu primeiro amor, Gabriel confirmou tudo. A briga foi feia a ponto de se ferirem com palavras que minutos depois se arrependeriam de ter usado. As semanas passavam e Juliana andava para todo lado com o rosto inchado de tanto chorar quando estava sozinha. Gabriel seguiu sua vida, se relacionando com outras meninas.
É incrível como os padrões acontecem até em um namorico juvenil. Nossa protagonista desiludida superou com certa demora seu namorado traidor. Quando isso aconteceu, Gabriel repensou com culpa e remorso sobre seu erro e sentiu falta de seu ex-amor. Pediu para voltar, mas uma menina que descobre a desilusão amorosa somada à traição se promete que nunca mais vai deixar alguém partir seu coração em pedaços outra vez. O inconformado insistiu ainda por um tempo, mas ao perceber definitivamente a rejeição, deixou Juliana seguir sua vida.
Após alguns anos, se reencontraram em uma rede social. Ele, desolado por um namoro intenso e sofrido que tinha terminado há pouco tempo. Ela, com memórias daquele que tinha sido a sua primeira paixão intensa e um misto de saudade e nostalgia de tudo o que viveram. Resolveram se encontrar. Juliana deu uma carta para Gabriel contando como se sentiu depois que terminaram. A intensidade do momento fez com que ambos não resistissem e trocassem um beijo apaixonado. Passaram a tarde juntos sabendo que aquela seria uma das últimas vezes que se veriam pessoalmente e teriam contato tão íntimo. Gabriel, ao passar por um arbusto florido, removeu uma flor e colocou no cabelo de Juliana.
Ambos foram para casa com a sensação de que tinham agora se perdoado verdadeiramente sobre toda a confusão do fim. Juliana guardou aquela flor por anos consigo. Depois de seca, passou de uma agenda para outra até que um dia, a flor caiu de uma agenda do ano de 2009 sem que Juliana percebesse.
A única coisa que ela ainda tinha como prova de tudo o que viveu com Gabriel não estava mais ali. Restaram apenas as lembranças daquele garoto que ela tanto amou e que significou tanto na vida dela.