E o meu vestido nem era curto
Era quinta feira nublada,dia 17 de fevereiro,fim de tarde,aproximadamente umas 16:20. A empregada disse âmenina,nĂŁo sai hj! O tempo estĂĄ pĂ©ssimo. Leva a sombrinha. Vai chover.â Fingi que nem ouvi. Tomei meu banho,lavei meus cabelos e com o tempo abafado coloquei um vestido nada decotado nem chamativo. Mas o pano era uma delĂcia. Bem fresquinho! Peguei minha bolsa,chave,celular e fui. Que nojo! Iria ter que pegar ĂŽnibus. Odeio andar com aquele povo suado, gente preta,bancos fedorentos⊠Outro dia vi uma barata andando pelo ĂŽnibus, achei um absurdo. Graças a Deus que isso nĂŁo faz parte da minha rotina. Logo que o bus chegou jĂĄ estava naquele jeito. Nenhum banco vazio na frente,segui para os fundos daquele lugar. Todo mundo me encarava. Aposto que o povo se perguntava âo que essa branquela ta fazendo aqui dentro?â. Foda-se. TĂŽ passando. Avistei um banco vazio,os Ășltimos. LĂĄ no fundĂŁo. Ao lado de quem? Aquele lelek? Preto? A cara da favela? Blusa da hollister,bonĂ© baixo da Oakley. Escondi o celular na hora, sondei a minha volta. Sem chances. Era ali mesmo que eu ia ter que tentar me encaixar. Umas olhadas de rabo de olho pra ver se ele nĂŁo estava armado,nem tinha um canivete.Ok,Amanda,relaxa!Relaxei⊠Passa igreja, passa poste,passa escola,para o ĂŽnibus. Mais passageiros e o banco do meu outro lado ficou vazio. AtĂ© pensei em me distĂąnciar do lelek,mas nĂŁo o fiz. Ta entrando gente. Nossa,e aquele cara pançudo, cabelo liso,malote na mĂŁo. Cara de socialista, trabalhador,professor de faculdade. Menos mal. Fecha a porta. Passa estação de metrĂŽ, passa rotatĂłria,passa posto de saĂșde, passa shopping. Ei! Esse moço pançudo da cara de professor estĂĄ olhando pro meu decote. Conferi. NĂŁo tem decote. Ta tudo tĂŁo tampado. NĂŁo dĂĄ nem pra ver o volume dos meus seios nesse vestido. Ok. ImpressĂŁo minha. Abre porta do ĂŽnibus, entra cadeirante. Que merda,esses elevadores nunca funcionam e estragam com minha vida,meu tempo. -AAANDA TROCADOR. NĂO TEVE TREINAMENTO PRA MEXER NISSO NAO? ATRASO DE VIDA! Falei mesmo. TĂŽ pagando! Ei,de novo? Esse homem tĂĄ olhando pras minhas pernas. Mas esse vestido Ă© tĂŁo largo. Ă exatamente em cima do joelho. Cobre os meus joelhos. Estica um pouco mais. Ele nĂŁo vai olhar. TĂŽ desconfortĂĄvel.NĂŁo vou me levantar. -PUUTA QUE PARIU,MOTORISTA!! Freada brusca. O bus parou. NĂŁo sei o que houve. Voltou a andar. CadĂȘ meu destino que nĂŁo chega logo? Ei!!! Q peso Ă© esse? O que Ă© isso? Moço pançudo nĂŁo entendi o motivo das suas mĂŁos em minhas pernas. AlguĂ©m estĂĄ vendo isso? Ele estĂĄ me alisando. Que nojo. Levantei assustada. NĂŁo conseguia falar. Ainda faltava muito para o meu destino final. ImpossĂvel sair do meu lugar. O ĂŽnibus estĂĄ lotado. Ei, esse lelek. Pra quĂȘ ele estĂĄ me cutucando? Olhei assustada. - Moça, quer trocar de lugar comigo? Nem pensei. Saltei pro lugar prĂłximo da janela,onde ele estava e ele saltou para o meu lugar,perto do assento do pançudo. O pançudo foi embora. O lelek me ofereceu ĂĄgua, perguntou se estava tudo bem. E eu chorei. Chorei por ser uma estĂșpida e nĂŁo ter escutado Dona Neide quando me aconselhou ficar em casa. Chorei por estar com aquele vestido. Chorei por estar naquele ĂŽnibus. Chorei pois ainda sentia a mĂŁo pesada daquele velho pançudo com o malote. Chorei por ter escondido o celular ao ver o lelek;o garoto;o cara; o homem que tentou me ajudar ao ver a cena mais constrangedora da minha vida. Chorei por Ăłdio de mim mesma que julgava tanto as pessoas. Chorei porque pude entender que a minha amiga estava certa quando dizia que a culpa nĂŁo Ă© da roupa curta. E a minha nĂŁo era curta.












