Voltou logo depois de terminar aquele relacionamento perfeito que fazia questão de postar na internet. Aquele em que dizia que tinha ganhado na loteria, que ela era o amor da vida dele… Engraçado como a loteria acabou e, no fim, ele voltou pra mim.
Às vezes eu me pergunto por quê. Por que ele sempre volta? Por que ainda me olha daquele jeito, como se existisse alguma coisa entre a gente que nunca acabou? Será que eu sempre fui a pessoa que ele procura quando alguém deixa um vazio nele?
Quando eu o beijei de novo, depois de tantos anos, voltei pra casa me sentindo aquela menina de 13 anos atrás, perdendo o BV com o garoto que passei a infância inteira sonhando em beijar. Por alguns minutos, parecia que a gente ainda estava debaixo daquela árvore em frente de casa. O beijo foi incrível. Eu me perdi nos lábios dele e, por um instante, achei que tudo aquilo finalmente faria sentido.
Mas aí vieram as perguntas.
O que a gente é? O que a gente sempre foi? Um amor que nunca teve coragem de existir? Ou só duas pessoas que nunca conseguiram sair da vida uma da outra?
E a pergunta que mais ficou martelando na minha cabeça foi: será que ele voltou porque sentiu minha falta… ou porque estava tentando esquecer ela em mim?
Confesso que passar esse tempo com ele tem sido muito bom. Eu gosto da companhia dele. Gosto das conversas, das risadas e de lembrar da nossa história.
Mas também preciso confessar uma coisa.
Depois daquela noite em que a gente finalmente foi pra cama… eu não senti nada.
Passei anos imaginando como seria esse momento. Anos criando expectativa. E, quando aconteceu, foi tão rápido, tão sem graça, tão decepcionante, que eu fiquei deitada olhando para o teto pensando: “É isso? Foi pra isso que eu esperei tanto?”
Quando acabou, eu só queria que ele fosse embora.
Não era raiva. Era uma vontade enorme de fingir que aquilo nunca tinha acontecido. Eu só queria que ele colocasse a roupa, saísse pela porta e levasse aquele momento embora junto com ele. Eu queria acreditar que aquilo tinha sido um sonho ruim… ou melhor, um filme muito mal escrito.
O mais engraçado é que, pelo visto, ele gostou. Vive me chamando pra repetir a experiência e eu já estou quase abrindo uma fábrica de desculpas. Toda semana invento uma diferente. E o pior de tudo é que ele realmente acha que arrasou naquela noite. Esse nível de autoconfiança chega a ser inspirador. Eu fico pensando: será que a gente viveu a mesma noite? Porque, na minha memória, foi um completo desastre. Na dele, aparentemente, foi digno de aplausos.
Ele sempre foi o meu sonho de consumo.
Durante anos eu o coloquei num pedestal. Era o garoto que eu queria, o beijo que eu esperei, a história que eu imaginava viver.
Hoje eu olho pra ele e penso: meu Deus… como a paixão faz a gente enxergar tudo errado.
Ele está feio, fora do peso, perdeu aquele charme que eu jurava que tinha… mas o ego continua intacto. Aliás, acho que foi a única coisa que cresceu com o passar dos anos. E, sinceramente, ele ainda se acha o maior galã do planeta. Acho admirável a confiança.
E sabe qual é a parte mais louca?
Tenho quase certeza de que, se aquela noite tivesse sido boa, eu estaria completamente apaixonada por ele hoje.
Mas foi justamente aquela noite que destruiu toda a idealização que eu carreguei por mais de uma década.
Hoje, quando eu olho pra ele, eu já não vejo mais o garoto que eu esperei durante tantos anos.
E, sinceramente, isso ainda consegue me fazer rir.
No fim das contas, ele conseguiu fazer o impossível.
Acabou, em uma única noite, com um sonho que eu alimentei por mais de dez anos.
Quem diria que o meu maior amor de adolescência perderia para uma expectativa mal correspondida.
Acho que, no fim, eu nunca fui apaixonada por ele.
Eu era apaixonada pela versão que criei dele na minha cabeça.