Quatorze anos de prisĂŁo. Isso mesmo. Mas olhe, fui condenado a trinta e sete! SaĂ logo. Bom comportamento, sabe como Ă©? Eu nĂŁo entrei bandido na cadeia nĂŁo, minha senhora. Nunca fui. Matei pra me defender. Matava ou morria. Deveria ter morrido. LĂĄ dentro ninguĂ©m tĂĄ nem aĂ pra vocĂȘ. Se vocĂȘ morre na cadeia, nĂŁo faz diferença nenhuma. Eles nem percebem. SĂł querem ficar no ar condicionado, no fresquinho. E a gente? A gente Ă© que se vire por aĂ. A gente deveria ficar preso pra se redimir. Ser uma pessoa melhor. Mas lĂĄ vocĂȘ vira bicho. Sai pior. Ali Ă© terra de ninguĂ©m. Na cadeia vocĂȘ aprende de tudo, sai bandido de verdade. Hoje eu me regenerei. Trabalho no sinal vendendo ĂĄgua. JĂĄ morei na rua, mas graças a deus hoje eu tenho uma casa. Quem me regenerou foi deus. Minha fĂ© nĂŁo tem preço nĂŁo. Quando eu quero falar com deus, sabe o que eu faço? Sento lĂĄ no meu banquinho e converso com ele. Jesus pedia dinheiro na rua, moça. Todo mundo dava. Quando eu pedi dinheiro na rua, ninguĂ©m me deu nada. Se eu ganhasse dez centavos de cada carro desse, eu saia com cem conto todo dia. Jesus morreu hĂĄ dois mil anos, pergunte a ele se ele quer voltar? Volta nada. Ele sabe que hoje o mundo Ă© cĂŁo. NinguĂ©m dĂĄ nada a ninguĂ©m nĂŁo. Eu que nĂŁo compro uma cruz de vinte conto pra pendurar na mina porta. Quem compra isso Ă© pastor. Pastor tem dinheiro. Pastor tem jesus. Deus me livre de jesus! Pastor sĂł pensa nele, minha senhora. Pastor Ă© vendedor. Vende terreno no cĂ©u. Se vocĂȘ tem dinheiro pra comprar o seu, fica. Se nĂŁo, vĂĄ com o diabo! Se eu for pro cĂ©u, vou olhar bem nos olhos de deus e vou gritar: vocĂȘ Ă© um covarde! O povo tĂĄ lĂĄ morrendo de fome e vocĂȘ nĂŁo tĂĄ nem aĂ. SĂł dĂĄ conta de quem paga pra entrar. Quem tĂĄ do lado de fora que se vire. Me mande pro inferno mesmo, me mande! Eu vou olhar bem na cara do diabo e vou dizer: diabo, eu te amo! VocĂȘ Ă© que nem a rua, aceita todo mundo. Sem cobrar nada e sem olhar pra minha cor. Diabo, graças a deus que vocĂȘ existe!