Dizem que as coisas terminam. Que o amor acaba, que os ciclos se fecham. Mas a palavra "acabar" me soa cirúrgica demais, limpa e domesticada. Finais raramente são cortes precisos de bisturi, eles são desbotamentos. O amor não desaba de uma vez como um prédio implodido. Ele sofre de infiltrações invisíveis. Goteja. Perde a temperatura, a urgência, até que um dia você acorda e percebe que está habitando uma casa de cômodos ocos, onde o eco da sua própria voz é a única coisa que responde.
Hoje eu tropecei em um escombro. Um fragmento de tempo congelado sob a luz de janeiro. Um instante estático, pacífico, onde a ruína já estava desenhada nas entrelinhas, mas ainda havia a teimosia em pintar as paredes descascadas. O contato com esse fragmento causa um solavanco inegável no peito. A clássica síndrome do membro fantasma, a parte amputada que, diante de uma mudança de clima, de repente volta a latejar.
E aí a gente se questiona com aquela perplexidade inevitável, o amor morre?
Ouso dizer que a resposta é mais cruel do que um simples "sim". O amor não morre de morte súbita, ele transmuta. Ele apodrece em costume, dilui-se em covardia, congela em inércia e, por fim, fossiliza em memória.
E memórias são pedras muito estranhas. Você jura que elas esfriaram, que não passam de pesos mortos no fundo de um arquivo qualquer. Até que o acaso te obriga a segurar uma delas, e ela inexplicavelmente queima. A crueldade de uma fotografia é a sua teimosa imunidade ao futuro. Aquele instante capturado não fazia a menor ideia do abismo que o engoliria logo adiante. A imagem repousa ali, intacta, alheia ao fato de que do lado de fora da moldura tudo já virou cinza.
Finais não exigem grandes vilões, nem culpas atiradas ao vento. Finais definitivos acontecem pelo esgotamento das estruturas, quando a permanência exige um esforço que a alma já não dá conta de sustentar.
O amor acaba? Sim. Mas é com o tempo, ele cumpre o seu percurso e silencia. Olhar para trás, deparar-se com um instante congelado e sentir esse breve aperto não invalida o adeus. É só a prova visceral de que a experiência foi absurdamente real antes de virar ruína. E de que as paredes desmoronadas também fazem parte do que constrói quem somos depois da poeira baixar..
- soutexto

















