medicada para dormir, medicada para não me irritar, medicada para me acalmar, para não gritar, não surtar, não deixar que o caos atravesse a pele e escape pelo canto da boca.
é estranho perceber como a vida vai se tornando uma sequência de contenções. estamos todos presos da mesma caixa, e utilizando dos mesmos artifícios, comprimidos para dormir. comprimidos para existir. comprimidos para continuar suportando o próprio nome dentro da própria cabeça.
essa semana eu disse que estava catatônica. e talvez esteja mesmo —
no sentido mais cru da palavra: estática.
como um corpo abandonado no acostamento da própria vida.
as pessoas falam comigo e eu finjo que escuto. eu balanço a cabeça, respondo no tempo certo, sorrio quando esperam, mas por dentro existe apenas um silêncio espesso, um vazio imóvel, como uma casa depois do incêndio: apenas cinzas.
tudo parece distante de mim. as vozes, os dias, os afetos, o futuro. como se eu estivesse assistindo minha própria existência através de uma lente suja, sem conseguir realmente tocar nada.
e o pior é o cansaço. esse cansaço absurdo, crônico, irreversível. um cansaço que não melhora dormindo, não melhora chorando, não melhora ficando sozinha.
um cansaço que pesa nos ossos, na respiração, na ideia de precisar acordar outra vez amanhã.
às vezes penso que me tornei uma bagagem pesada demais. daquelas que ninguém quer carregar por muito tempo. daquelas que fazem os braços doerem, as costas cederem, a paciência acabar.
então eu me diminuo,
me silencio,
me anestesio.