não era nenhum cargo oficial - até porque, por mais que quisesse, não teria tempo para se dedicar a isso -, mas era comum que encontrassem meow, em seu tempo livre, andando pela enfermaria, dançando pela salinha ou usando uma maca para tirar um cochilo, vai saber. é que fazia bem ajudar as pessoas, tentar curar os machucados delas e tudo mais. meow gostava de ver seus colegas sem dor nenhuma, e isso ainda era benéfico para ele porque era um jeito de treinar e melhorar seus poderes. naquela noite, não parecia haver ninguém precisando dele exatamente, por isso acabou se distraindo até ouvir a voz fraca lhe implorando por ajuda. meow levantou de onde estava correndo, ignorando a dor que isso lhe causou em sua perna de madeira pela falta de cuidado e correu até o outro rapaz, segurando a mão dele. — o que aconteceu, o que houve? — com os olhos arregalados, meow procurava algum machucado visível, mas não encontrou nada, o que era um tanto frustrante. via-se entre a cruz e a espada, porque seus poderes de cura talvez não dessem conta do recado, mas se tentasse correr para buscar ajuda, do jeito que ele estava, também não ia adiantar de nada. meow segurou a mão do rapaz, apertando bem de levinho. — eu vou tentar uma coisa. confia em mim. — avisou, porque sabia que era meio esquisito e que poderia parecer meio inútil meow simplesmente se afastar e começar a… dançar. ele era bom nisso, tinha movimentos bonitos e fluidos, uma paixão que qualquer um era capaz de ver e de sentir, mas não eram seu talento no ballet que importava agora, e sim a magia de cura que fazia através dele. rodopiar pra lá e pra cá, jogar um braço para cima, rolar no chão, tudo que seu coração pedia, meow fazia, sempre se concentrando em canalizar a magia e enviá-la ao moço que ainda parecia estar em muita dor, tentando aliviar e curá-lo do que quer que estivesse sentindo agora. isso drenava uma energia enorme, o acrobata podia sentir. muito mais do que estava acostumado quando alguém chegava com o braço quebrado depois de um treino de magibol, por exemplo. e isso lhe deu uma fisgada no estômago, porque sabia que significava que o rapaz estava morrendo. não desistiu, no entanto. podia estar se sentindo tonto, fraco, podia saber que sua cura não fazia efeito sobre ferimentos letais ainda, mas meow não parou de dançar.
“Veneno. Escorpião.” foi o que ele conseguiu dizer, fraco, mal conseguindo segurar a mão do outro rapaz. Sentia uma dor horrível pelo corpo todo, menos no lugar onde o lugar da ferroada que parecia amortecido. Meow podia sentir enquanto ainda se mantinha em contato físico com Hakeem que os músculos do braço do garoto faziam pequenos espasmos, indicando que o veneno já havia se espalhado pelo corpo. Respirava de forma pesada porque o ar não conseguia mais entrar direito nos pulmões, e ele sentia uma vontade horrenda de vomitar tudo o que havia comido... Na vida, provavelmente. Estando sem forças para reagir direito, apenas assentiu positivamente quando o garoto pediu para confiar nele. Nem tinha outra escolha mesmo... Só queria que aquilo acabasse e que de preferência sem outra experiência de morte. Com a dança de Meow, a qual mal conseguia acompanhar direito por conta da tontura e da náusea, Hakeem começou a se sentir... Melhor! Sentiu os músculos pararem de espasmar, a náusea diminuir. Uma onda de euforia veio ao perceber que aquilo provavelmente daria certo, então ele tentou sorrir. Contudo, a felicidade não veio ao rosto, que de súbito começou a ser manchado por lágrimas que vieram primeiro tímidas mas depois não paravam de escorrer. O pulmão também não havia ficado mais leve, e agora não sabia se era por causa do choro ou se era pelo veneno. Chorou e chorou enquanto Meow dançava, agarrando o pano da camiseta no lugar do coração que agora estava tão... Irregular. Sentia fisgadas esquisitas sem ritmo no peito. Desespero. Dor. “E-Eu vou morrer.” chegou a conclusão no meio do choro. Nem conseguia explicar para Meow que iria ficar tudo bem porque voltaria em pouco. “Eu vou morrer...”