Digimon Adventure Beyond - Parte II
Segunda parte de 13+
(Parte II)
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“Você deve ter passado por bastante coisa.”
Ichijouji Ken abriu a frente de sua jaqueta de couro preta de motociclista e finalmente pareceu relaxar.
“Pois é. Soube que você também passou por dificuldades sendo apresentado aos figurões da polícia.”
Taichi lançou um olhar rápido para Miyako.
“Graças a isso, parece que não vou precisar mais procurar por emprego.”
Miyako respondeu no lugar de Ken.
“Hum, isso… mas com o alto escalão foi só na primeira vez mesmo. Depois disso, é só com quem deve ser meu superior direto.”
“Futuro chefe, hein. A Divisão de Investigação de Crimes Digimon.”
“Ainda vai ser criada, então é só um nome provisório.”
“Então vão mesmo criar isso… Bem, certamente vai ser necessário daqui pra frente.”
“Parece que o Governo e a polícia também estão pesquisando os Digimon, até certo ponto, né.”
Miyako preferiu não dizer “não só os Digimon, mas nós também” e deixou isso de lado.
“Faz sentido eles terem colocado o Ken na mira, né.”
Ken é justamente quem mais detesta o uso de Digimon para o mal. Ele não quer que outras pessoas cometam os mesmos erros que ele cometeu no passado. E, se alguém acabar seguindo esse caminho, ele quer conter isso o mais rápido possível. Esse sentimento era provavelmente o mais forte entre todos eles ali.
“Eles devem ter achado que o Stingmon não é muito grande, então isso o torna adequado para investigações.”
Isso significa que o lado que escolheu o Ken até sabe quanto cada Digimon pode crescer quando evolui.
“Você é bem modesto, hein.”
Taichi começou a ficar um pouco desconfortável.
“Bem, também não dá pra um Digimon adulto simplesmente sair causando problemas no meio da cidade, né.”
“Ah, a propósito…”
Ken tentou, de alguma forma, mudar de assunto.
“Koushirou-san e os outros estão demorando, né?”
“Disseram que só iam repassar a mensagem do Shin Kido para todo mundo, mas...”
Se deixados sozinhos, aqueles dois acabariamm começando uma discussão por qualquer motivo e não iriam param nunca mais. Provavelmente é isso que está acontecendo agora também.
“Vou lá chamar eles.”
Como Miyako foi embora, o plano de Ken de aproveitar o momento para se conectar ao DigiMundo e ver o rosto de Wormmon acabou não dando certo.
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“Queria que o Ken-chan também provasse isso.”
Wormmon, o parceiro Digimon de Ken, manipulava os hashis com habilidade usando suas mãos curtas (?) e comia o lámen. Sua aparência — algo como uma grande lagarta que poderia causar estranhamento — contrastava com seus olhos redondos e expressivos, que lhe davam um ar cativante.
“Tá bom demais, né? O caldo de hoje é especial.”
Motomiya Daisuke parecia orgulhoso.
“Você melhorou ainda mais, não foi, Daisuke?”
Sentado ao lado de Daisuke, V-mon — um pequeno Digimon azul que lembrava um cachorro, mas também tinha forma de um pequeno dragão — também parecia orgulhoso.
Ao longe, era possível ver montanhas cobertas de neve. Do lado oposto, havia uma selva densa, quase tropical. Entre os dois, uma linha férrea atravessava a planície em linha reta, mas ninguém jamais tinha visto algo passar por ela.
Havia um pequeno ramal na linha férrea, e, ao final dele, as pás de um gerador eólico giravam lentamente. Grossos cabos elétricos se estendiam até um edifício enorme, semelhante a uma muralha de pedra. Daisuke e os outros estavam no pátio interno desse lugar. Daisuke usava uma jaqueta estilo universitário, com óculos de sol apoiados sobre a cabeça.
Entre as várias áreas de preservação que existem no DigiMundo, esta — onde havia muitos vindos da América do Norte e de países de língua inglesa — possuía uma alimentação mais próxima do estilo ocidental. Os alimentos básicos eram batata, milho e, mais do que pão, massa, que exige menos etapas no preparo e também se conserva melhor. O lámen de Daisuke, criado a partir dessa massa, era bem recebido por todos. Animais propriamente ditos não existem nesse mundo, mas havia peixes em rios e lagos. Daisuke não apenas os preparava, como também aprendeu a extrair bem o caldo. Com o tempo, passou a adicionar mais ingredientes, e, na tigela de hoje, havia cogumelos salteados.
“Minha dica também foi boa, não foi?”
Tachikawa Mimi sorria. Ela vestia uma camiseta longa, um colete jeans, shorts curtos e botas que iam até acima dos joelhos. Assim como Daisuke, sua roupa levava em conta a facilidade de movimento e a proteção.
Os cogumelos foram ideia da Mimi. Quem tinha habilidade para identificar quais cogumelos daquele mundo eram adequados para consumo era Palmon, o parceiro Digimon dela. A própria Palmon, que parecia uma planta verde, não comia lámen — estava no centro do pátio, fazendo fotossíntese ao tomar sol. Ao lado dela, havia um Digimon branco, de orelhas grandes, cochilando tranquilamente ao sol: Terriermon. Seu parceiro, Wallace, estava sentado à mesa com Daisuke e os outros, já totalmente acostumado aos hashis, comendo lámen com habilidade.
“Sobre aquela mensagem de antes… está tudo bem quanto aquele tal de Nishijima?”
Daisuke fez uma expressão um pouco incomodada.
“Bem… eu nunca cheguei a encontrar e conversar com ele, então…”
A primeira vez que Daisuke viu Nishijima, ele estava inconsciente, deitado em uma cama. Naquela ocasião, Himekawa Maki e Mochizuki Meiko estavam ao lado dele. Pelo que eles comentaram, parecia que Daisuke, Iori e os outros haviam sido considerados desaparecidos por um período bastante longo.
A situação de Mimi era diferente.
“Acho que eu já encontrei com ele antes… mas é tudo meio vago.”
Pelo que Meiko contou, Mimi, Taichi e os outros já chegaram a agir juntos com eles. Mimi até sente que já encontrou Meiko antes, mas, se realmente tivesse passado por um grande incidente como ela descrevia, não teria como ter esquecido.
“Então essa sensação vaga não é só sua.”
Wallace entrou na conversa. Diferente de Mimi, Wallace e Daisuke deveriam já ter se encontrado antes — mas isso também já fazia uns dez anos.
“Não diga isso, Wallace. Eu lembro que a gente se deu bem.”
Naquela época, Wallace havia visitado a casa de Michael, um dos PH americanos. O pai de Michael era um famoso astro de cinema e, logo depois que começaram a estabelecer áreas de preservação nos Estados Unidos, ele adquiriu um enorme rancho e destinou parte dele como uma dessas áreas. Isso aconteceu justamente depois da transferência para o DigiMundo. Como Wallace dizia já ter encontrado Daisuke antes, ele acabou sendo chamado.
"Naquela época, não tive a sensação de estar encontrando pela primeira vez."
Mas, quanto à aventura que ele diz terem vivido juntos, não havia uma lembrança clara. Ele até sentia que talvez se recordasse vagamente de uma jornada com Daisuke pelos Estados Unidos e de batalhas contra Digimon poderosos. Miyako e Iori também tinham a mesma sensação.
“Eu também… quando me tornei Magnamon, não parecia que era a primeira vez.”
V-mon disse o mesmo. Mas, fora isso, as lembranças eram vagas. Naquela época, eles estavam justamente no DigiMundo, acertando as contas com o Imperador Digimon. Em que momento, antes ou depois disso, teriam ido até os Estados Unidos — e ainda por cima de avião, em vez de usar um portal — era um mistério.
“Eu também tenho a vaga sensação de ter ficado pequena… ou talvez não…”
Mimi e Taichi não chegaram a encontrar Wallace naquela ocasião. Em vez disso, teriam sido transformados em crianças. Talvez por isso não se lembravam direito — ou talvez essas nem fossem memórias reais. Koushirou havia sugerido que Wallace poderia ter vindo de um mundo diferente. Talvez, quando ele chegou a este mundo, as memórias do Daisuke daquele outro mundo também tivessem vindo junto.
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“Esse foi o primeiro caso de divergência de memórias, não foi?”
Em uma sala do instituto, Koushirou e Menoa conversavam de pé.
“O caso do Wallace, o da Mei e os outros, o meu… e agora esse do Rui, né.”
“Há também exemplos que ouvi apenas pelo Ichijouji-kun.”
“Esse é o mais misterioso… ou melhor, a situação é diferente demais.”
“Antes disso, há mais um caso relacionado às memórias.”
Em 1995, ocorreu uma grande explosão em Hikarigaoka. Foi tratada como um acidente causado por vazamento de gás, mas, na verdade, foi resultado de um confronto entre Greymon e Parrotmon. Taichi e os outros oito haviam testemunhado aquilo. Mesmo assim, acabaram esquecendo completamente do ocorrido e só se lembraram quatro anos depois, quando voltaram a Hikarigaoka e enfrentaram um Digimon que tentava invadir Tóquio. Na época, acharam que tinham esquecido por serem muito jovens.
“Quando alguém passa por um evento muito grande ou assustador, parece que não é incomum acabar selando essa memória por conta própria — para proteger a mente. Eu achava que no caso de Hikarigaoka era isso, mas, considerando os exemplos posteriores, talvez seja melhor reavaliar essa relação.”
“Ainda assim, me parece que a supressão de memórias e essa divergência de memórias são coisas de naturezas diferentes.”
“No caso de vocês, Menoa-san, seria mesmo um desencontro de memórias?”
“Ou então viemos de mundos diferentes. É o que venho dizendo desde antes.”
“Também existem casos em que temos lembranças de termos ido a outros mundos.”
“E esse também não sabemos onde encaixar na linha do tempo deste mundo. Quando isso acabar, precisamos organizar tudo direitinho.”
“Estamos chamando de problema de memória, mas isso deve estar ligado a uma questão de informação.”
“Algo que o Izzy tem investigado: o que são os Digimon, por que algo de outro mundo pode ter massa neste mundo — e por que isso pode aumentar ou diminuir durante a evolução.”
“A pesquisa da Menoa-san, sobre se o DigiMundo ser apenas um outro mundo, deve ter a mesma raiz desse problema.”
“Com a chegada do Rui, isso acabou voltando à tona.”
“Talvez não seja coincidência o Nishijima-san ter recuperado a consciência também.”
A porta se abriu, e Miyako entrou correndo.
“Ah, já chega, eu sabia! Até quando vocês vão ficar conversando? Já terminaram de avisar todo mundo, não é? O Ken também já chegou.”
Mesmo no corredor de volta à sala de recepção, Koushirou e Menoa ainda não paravam de conversar.
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“Mundos paralelos ou universos diferentes realmente existem. E, se existirem, onde e de que forma eles estariam? Há uma resposta possível para isso.”
“Vou falar até onde consegui entender o que o Koushirou-san disse. Como sou de humanas, tem um limite para o que consigo compreender.”
Durante uma longa viagem de carro, em uma parada para descanso numa área de serviço de estrada, Takeru começou a explicar a hipótese de Koushirou para Rui. Shuu estava tirando uma soneca no banco do motorista.
“Os átomos que formam a matéria. Ou melhor, o núcleo e os elétrons que compõem esses átomos. Eles são muito menores do que a gente costuma imaginar. Tente pensar na distância entre o Sol e a Terra. Agora imagine uma bola de beisebol e um grão de gergelim colocados ali. Não é uma proporção exata, mas dizem que é o mais próximo disso para conseguir visualizar.”
Takeru pegou dois grãos de gergelim do doce de gergelim à sua frente e os colocou nas extremidades da mesa.
“E são mais distantes que isso.”
Mesmo mantendo aquela distância, ele ainda se comportava como um único átomo porque, na física, isso recebia vários nomes — mas, no fundo, é como se existisse um tipo de acordo, uma espécie de contrato. Na prática, mesmo que outras partículas fundamentais entrem nesse espaço, se não houver esse “contrato”, elas não interagem da mesma forma.
“Mas e se, nesse espaço, na verdade houvesse muitos grãos de gergelim?”
Ele colocou um prato de dango de gergelim entre os dois grãos.
“E se houvesse ainda mais desses pratos…”
Se eles fossem preenchidos por completo, o número se tornaria praticamente infinito. Se cada um estivesse ligado por um tipo diferente de “acordo”, então isso poderia ser justamente o que chamamos de universos diferentes.
Se o “acordo” de um átomo pudesse mudar seu alvo para qualquer uma das partículas vizinhas, ele poderia até se tornar um átomo diferente. O que mantinha esse acordo preso a este mundo eram apenas dados. Se uma quantidade suficiente desses dados reescrevesse o sistema de informação ao lado…
“Seria como pegar o fio que conecta muitos grãos de gergelim e passá-lo por outros grãos diferentes. Talvez isso seja o que significa ir para outro mundo.”
Rui não estava conseguindo acompanhar muito bem aquela conversa repentina. Takeru, porém, continuou sem se importar.
“O interessante dessa ideia é que ela também pode explicar por que os Digimon conseguem ter um corpo neste nosso mundo.”
Em vez de algo distante como outra dimensão ou outro mundo, seriam muitas partículas fundamentais que já estavam neste espaço, mas que não são reconhecidas como existentes. Se você atribuir dados a elas e fizer com que possam ser reconhecidas neste mundo…
“Uma massa que não estava ali passa a existir.”
Takeru espetou um palito de dango de gergelim.
“Espera… isso quer dizer que até a evolução dos Digimon…”
“Isso mesmo. Você entendeu rápido. Os Digimon, quando evoluem, muitas vezes mudam bastante de tamanho. Às vezes chegam a dezenas de vezes a massa original. A questão é: de onde eles estariam trazendo isso?”
Ele ergueu o dango de gergelim com o palito.
“A ideia seria mais ou menos isso: pegar o fio que liga esses grãos de gergelim que existem aqui, mas não são reconhecidos, e puxá-los para este mundo. Isso seria mais rápido. Na verdade, dizem que isso envolve coisas como matéria escura, energia escura, mecânica quântica, vibrações de cordas… mas eu só consigo entender até aqui.”
Koushirou parecia considerar que esse problema de massa também estaria ligado à consciência e à memória.
Takeru, por sua vez, tinha outra dúvida: entre as crianças que testemunharam o incidente de Hikarigaoka em 1995, algumas se mudaram para Odaiba alguns anos depois — então elas foram chamadas ao DigiMundo? Ou, ao contrário, elas acabaram se mudando para Odaiba porque já estavam destinadas a serem chamadas ao DigiMundo? Ele também se perguntava sobre essa relação de causa e efeito. Esse tipo de questão estava fora do interesse de Koushirou, então Takeru achava que teria de resolvê-la sozinho algum dia. Talvez isso envolvesse destino ou até a existência de algo como um deus.
“Queria que um dia a gente entendesse tudo isso… seria bom.”
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“Naquela hora, o Yamato-senpai estava legal demais. Parecia que ia sair socando alguém a qualquer momento.”
Miyako estava comentando sobre o que tinha acontecido na noite anterior, quando Rui apareceu no Instituto de Koushirou e contou tudo — e depois disso, Yamato ficou sabendo da história.
“Então você está dizendo que o começo do vínculo entre nós e os Digimon foi por algo tão mal explicado assim? Que absurdo. Ainda bem que o Taichi estava em Genebra. Se ele estivesse aqui, aquilo não teria acabado bem”, ele dizia, completamente exaltado.
“O Yamato tem essa mania de jogar tudo em cima de mim, não melhora nunca.”
Taichi respondeu com um ar de cansaço, como quem já estava acostumado.
Ken também havia chegado, então Taichi, Koushirou, Menoa e Miyako estavam revisando tudo desde o início, repetindo os acontecimentos da noite anterior.
“Tem mais uma coisa importante, não tem?”
Até então, Menoa, que vinha apenas ouvindo, finalmente falou.
“Rui, eu… e também Mochizuki Mei.”
Taichi a encarou diretamente.
“O fato é que encontramos nossos parceiros Digimon fora do DigiMundo.”
Taichi e Daisuke, em geral, só tinham conhecido seus parceiros depois de irem ao DigiMundo. Hikari era uma exceção. E mesmo as crianças que tiveram as Sementes das Trevas plantadas dentro de si e só conseguiram derrotar BelialVamdemon depois disso — também encontraram seus parceiros no DigiMundo.
“Depois de 2003, esse tipo de caso começou a aumentar aos poucos também.”
Koushirou fechou a capa do tablet.
“Se voltarmos um pouco mais, até o Wallace, que viveu uma aventura com o Daisuke no verão de 2002, também foi assim. O encontro dele não aconteceu no DigiMundo.”
“Será que há algum significado nisso… o aparecimento dessas desses PH que podem ter vindo de outro mundo?”
"Além disso, todos na situação atual perderam seus Digimons parceiros."
Meiko, Menoa e Rui. Os parceiros Digimon deles agora não existiam mais. Nas memórias deles, esses parceiros foram derrotados por Taichi e Daisuke.
Ken, que vinha ouvindo em silêncio, virou-se para Koushirou.
“A propósito, sobre aquela hipótese de antes… sobre a idade e as memórias do Rui. Não é um assunto bem delicado? Isso foi dito ao próprio Rui?”
“Ah, isso…”
Koushirou começou a responder, mas Miyako e Menoa se levantaram das cadeiras quase ao mesmo tempo e o interromperam com força.
“O próprio diretor foi totalmente proibido de dizer isso!”
“Se o Izzy falasse isso, ia estragar completamente toda a história!”
“Então o Takeru-kun disse que ele mesmo iria conversar com calma com o Rui…”
“E aí, do nada, acabamos indo parar no Tohoku.”
“Ah, então era isso.”
Taichi colocou as mãos atrás da cabeça de novo. Quantas vezes ele tinha feito isso hoje?, pensou.
“Será que não é melhor eu mesmo falar com ele?”
Koushirou ainda não parecia totalmente convencido.
“Bom, o fato de não perceber isso também é uma das qualidades do Izzy, sabe.”
“Mimi-san já disse algo parecido antes.”
Taichi observava aquilo tudo com certa admiração.
Pensava que era até surpreendente como aquele instituto conseguia funcionar direito daquele jeito.
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“Jou, não está pesado? Eu consigo andar sozinho, sabia.”
“Está tudo bem. Mesmo quando eu era do ensino fundamental, eu já conseguia carregar você direitinho.”
Por causa de algum tipo de acidente, o trem acabou parando, e Kido Jou caminhava por uma estrada à beira-mar com a bolsa onde Gomamon estava dentro pendurada no ombro.
“Acho que não vamos conseguir chegar antes de escurecer, hein…”
O sol já estava bem baixo no horizonte.
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“Miyako-kun, você pode abrir o portal? Em breve vamos fazer o Tentomon vir até aqui.”
Na sala de recepção, Koushirou, que estava olhando para o tablet, levantou o rosto.
“Algum sinal da anomalia aparecendo?”
“Ainda não parece algo iminente.”
Taichi conseguia perceber a tensão no olhar dele.
“Em quais pontos isso deve acontecer?”
“Perto deste Instituto e em duas das áreas de preservação: a de Sora-san, a ‘Cidade Murada de Kowloon’, e a de Mimi-san, o ‘Forte Álamo’. Há também reações menores em um sanatório em Kanagawa, e outro… parece estar em deslocamento na região de Fukushima. Ao todo, cinco pontos.”
“Tudo isso ao mesmo tempo?”
Miyako franziu a testa.
Quando Digimon atuavam no mundo real, havia um fenômeno em que eles causavam interferências em dispositivos eletrônicos. Até o nível Criança, isso não chegava a causar grandes problemas. Quando um Digimon em nível Adulto usava algum tipo de técnica, o entorno começava a ser afetado, e acima do nível Perfeito, apenas a sua existência já poderia gerar ruído e distorções. A frequência desse ruído já estava sendo parcialmente identificada. Ao observá-la, estava se tornando possível detectar a presença de Digimon à distância. Esse era um dos temas de pesquisa desse instituto.
No DigiMundo, também vinham sendo realizados testes de detecção de certos tipos de Digimon. Essa observação estava sendo estruturada por meio de uma rede de cooperação entre Digimon amigáveis de cada região e agentes como Gennai, em colaboração com a vontade que busca a estabilidade do DigiMundo — “Homeostasis”. Tentomon estava no centro dessa rede.
Tanto no mundo real quanto no DigiMundo, a presença de Digimon possivelmente hostis estava sendo detectada. E, além disso, em múltiplos pontos simultaneamente.
“Estão tentando dividir nossas forças. Estão levando isso bem a sério.”
Antes mesmo de Taichi terminar de falar, Menoa já havia se levantado e seguido para o instituto.
“Vou inicializar o sistema e deixar tudo pronto.”
“Eu também preciso ir pra lá.”
“Eu também vou.”
Ken também se levantou.
“Então vá para o lado do Daisuke. Aqui…”
“Acho que nós duas damos conta.”
Miyako, que tinha apenas batido o olho nos dados do tablet de Koushirou e já avaliado a situação das forças envolvidas, falou enquanto apontava o D-3 para o monitor.
No canto da sala de recepção, a tela de LCD começou a emitir uma luz difusa. A luminosidade se intensificou, e um portal se abriu.
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Do lado de fora do estacionamento da estação de serviço, era possível ver uma floresta. A escuridão começava a cair, e já não dava para distinguir o que havia em seu interior.
Mas alguma coisa se movia ali.
Era possível perceber sua aproximação pelo som. Não parecia ter o tamanho de um ser humano comum.
Shuu Kido estendeu um notebook do banco do motorista.
“Já iniciei.”
“Muito obrigado!”
Takeru apontou o D-3 para a tela.
“Digital Gate Open!”
Uma luz nebulosa surgiu no monitor. Takeru então pegou o notebook e o apontou para o espaço aberto do estacionamento.
A luz expandiu-se violentamente para fora.
No mesmo instante em que um Digimon negro saltava da floresta, Garurumon surgiu da luz e o lançou para longe com um único golpe.
Logo atrás dele, quem emergiu da luz foi Yamato.
“Chegamos a tempo.”
“Por pouco, mas chegamos.”
Enquanto Takeru respondia, Iori e Armadillomon surgiram da luz.
“Vamos segurar eles aqui.”
“Vocês precisam partir logo, dagya!”
“Estamos contando com vocês!”
“E matenham o celular carregado, ouviu?”
“Eu sei disso.”
Respondendo ao Yamato enquanto fechava a porta, o carro levando Takeru voltou a correr em direção a Tóquio.
Da floresta além do Digimon derrubado por Garurumon, mais alguns Digimon negros e grandes apareceram tentando avançar para a estrada.
“Não precisa se segurar, Iori.”
“Eu sei.”
Iori ergueu o D-3, e Armadillomon começou a emitir a luz da evolução.
20
Tendo o paredão costeiro iluminado pelo pôr do sol às costas, o jaleco branco esvoaçou no ar. Jou passou os braços pelas mangas com naturalidade.
“Ainda não é cedo demais pra estar usando isso?”
Embaixo de Jou estava Ikkakumon, coberto por uma longa pelagem branca e macia. Eles já estavam no mar, seguindo em direção ao sanatório.
“Não, é pelo clima! Pelo clima!”
A mão esquerda de Jou segurava o chifre de Ikkakumon. Aquele jaleco era um modelo especial, com resistência a cortes e repelência à água. Por isso também era mais pesado, mas ajudava a bloquear o vento marítimo. Ele o mantinha preparado no dia a dia, para o caso de algo acontecer a qualquer momento. A bolsa onde estavam o jaleco e Gomamon agora estava pendurada no chifre de Ikkakumon.
“Temos que nos apressar!”
“Então segura firme!”
Ikkakumon aumentou a velocidade, levantando grandes jatos de água para os dois lados.
21
No DigiMundo, bem perto da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, havia uma entrada discreta que levava a uma instalação fortificada de cinco andares subterrâneos. Não era um lugar adequado para viver normalmente, mas podia ser usado como abrigo. O fato dessa instalação existir também foi um dos motivos para a região ter sido escolhida como área de preservação.
Hikari estava fechando a pesada porta reforçada do segundo subsolo.
“Conto com você aí dentro.”
Do outro lado da porta estava Mochizuki Meiko, cuidando das crianças.
“Sim, aqui vai ficar tudo bem. Tome cuidado.”
“Obrigada.”
Hikari fechou a porta e abaixou a pesada alavanca de travamento.
“Pronto, isso deve resolver…”
No instante em que relaxou, uma dor aguda atravessou sua cabeça.
Por uma estreita fresta na entrada que levava à superfície, uma escuridão semelhante a uma névoa negra começou a se infiltrar. Era algo que parecia a própria maldade. Pessoas comuns normalmente não conseguiriam vê-la. Muitas talvez não sentissem nada, mesmo estando perto o bastante para tocá-la. Mas aquilo era suficiente para afetar a mente de Hikari.
Ela quase caiu de joelhos.
Do andar inferior, um Digimon branco, parecido com um gato, subiu correndo numa velocidade impressionante. Tailmon havia percebido a anormalidade em Hikari. Com um único golpe envolto em poder sagrado, dispersou a escuridão.
“Hikari!”
“Estou bem. Só baixei a guarda por um instante.”
Primeiro, ela saiu para a superfície e tentou recuperar o fôlego sob a luz do sol.
Então chegaram Takenouchi Sora e sua parceira Digimon em forma de pássaro rosa, Piyomon.
“Parece que o número de inimigos é maior do que imaginávamos. E não é só isso…”
Por trás daquela névoa maligna, havia algo cuja presença não parecia ser apenas a de Digimon comuns.
“Como o Koushirou-kun imaginava. Eu achava que isso acabaria acontecendo um dia.”
Kawada Noriko surgiu correndo da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, carregando Nyaromon nos braços.
“Sora-san, terminei.”
Ela era uma das crianças que receberam as Sementes das Trevas e se tornaram PH em 2003. Atualmente, ajudava em turnos cuidando das crianças naquela área de preservação. Naquele momento, estava verificando se todas as portas de emergência do prédio haviam sido devidamente fechadas.
“Obrigada. Agora entre e fique aqui dentro.”
“E também disseram que algo negro está se aproximando pelo sul.”
“Eu vou verificar. E você, Hikari-san?”
“Vou voltar ao instituto e me revezar com meu irmão e os outros.”
Enquanto observavam Noriko fechar a entrada para o subterrâneo, as duas começaram a correr.
“Então, boa sorte!”
“Vocês também, tomem cuidado!”
Hikari e Tailmon seguiram em direção à Cidade Murada de Kowloon, enquanto Sora montava como se estivesse em um elevador nas patas de Birdramon — a gigantesca ave de fogo na qual Piyomon havia evoluído.
As asas vermelhas bateram forte, e Birdramon alçou voo.
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“Taichi-san, pegue isto.”
“É aquilo de que você falou no outro dia?”
“Conseguimos terminar bem a tempo.”
“Espero que o Takeru e os outros também consigam chegar a tempo. Enfim, estou indo.”
Depois de receber os óculos de proteção de Koushirou, Taichi atravessou o portal dentro do Instituto em direção ao DigiMundo.
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“Vou tomar cuidado.”
Takeru carregava o celular usando o carregador do carro de Shuu Kido.
“Embora, pensando bem, o computador parecia mais apropriado para um Garurumon sair pulando dele de repente.”
Como Takeru estava sentado no banco do passageiro, Rui acabou ficando sem muito o que fazer e observava seu Digivice. À primeira vista, ele parecia mais antigo que os de Taichi e os outros. Não tinha a aparência de um D-3 como o de Takeru, nem possuía a função de abrir portais. Na verdade, nem se sabia ao certo se ele realmente funcionava. Nem mesmo no instituto de pesquisa de Koushirou conseguiram determinar de imediato se aquilo era realmente um Digivice ou apenas outro objeto com aparência semelhante.
Uma das funções dos Digivices que foi ficando cada vez mais clara era que pessoas sem um deles não conseguiam permanecer por muito tempo no DigiMundo. Isso porque já houve casos de militares e membros de organizações criminosas que acabaram atravessando à força portais usados pelos PHs e invadindo o DigiMundo.
Os que entravam no DigiMundo tentando usar os Digimon em benefício próprio acabavam passando mal depois de algum tempo. E, além disso, quando eram atacados por Digimon violentos, armas de fogo comuns praticamente não tinham efeito. Para viver no DigiMundo, um parceiro Digimon era indispensável. E um Digivice também.
Os poucos que tiveram sorte de conseguir voltar ao mundo humano relataram esse fracasso. Também ficou claro que, mesmo quando alguém tentava usar o Digivice recebido por outra pessoa, ele quase nunca funcionava. Ou seja, emprestar, tomar à força ou roubar um Digivice não adiantava.
Como não havia garantia de que o Digivice de Rui funcionaria no DigiMundo, eles não podiam usar portais digitais para se locomover. Não restava outra opção além de utilizar meios de transporte normais do mundo humano.
O carro já se aproximava de Tóquio.
Uma motocicleta passou pela pista contrária.
Logo depois, dois carros fizeram um retorno brusco e cercaram o veículo de Shuu pela frente e por trás.
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Uma enorme figura branca descia em disparada pela ladeira em direção ao sanatório. Era Ikkakumon. O balanço era intenso por causa da longa escadaria. Jou se agarrava firmemente ao chifre de Ikkakumon para não ser jogado. Além da área do sanatório que já começava a surgir à vista, sombras negras se moviam por trás da mata ao redor. Pareciam ser Digimon de grande porte.
Jou saltou. Ikkakumon também desfez a evolução, voltando a Gomamon, e ambos invadiram a entrada do sanatório.
Eles passaram pela frente da sala de exames e seguiram pelo corredor dos quartos. Mais à frente havia uma sala de estar que também funcionava como refeitório e sala de visitas, com uma grande parede de vidro em esquadrias de alumínio. Além do gramado, tudo era mata fechada. Dali, Digimon negros pareciam estar prestes a atacar a qualquer momento.
No corredor, perto de uma porta aberta de um dos quartos, Himekawa Maki espiava com receio o que havia lá fora. Mais adiante, via-se as costas de Shin, o irmão de Jou. Enquanto corria, Jou passou ao lado dele chamando:
“Shin-nii-san, você está bem?”
Antes mesmo de dizer “nós cuidamos disso aqui”, Jou parou de repente, surpreso. Os Digimon na floresta já deveriam ter invadido aquele espaço interno há muito tempo. A menos que algo estivesse impedindo isso.
“Arukenimon…”
Um Digimon em forma de aranha, maior do que um humano, estava no centro da sala, voltado para o lado de fora. Então ele ergueu a parte superior de seu corpo humanoide.
Ao ouvir a voz de Jou, a enfermeira que estava à frente daquele Digimon virou-se.
“Meu Kodou-chan… ficou assim de repente!”
Jou sabia que o Digimon parceiro de Motomiya Jun era um Kodokugumon. Aquela seria então a forma evoluída dele, Arukenimon? Se fosse isso, não deveria ser um inimigo. Afinal, ele havia evoluído justamente para proteger Jun dos Digimon que estavam atacando.
Os Digimon na floresta começaram a se mover em direção ao local.
Arukenimon assumiu posição de combate.
Gomamon também deveria evoluir, mas a sala já estava completamente tomada pela presença de Arukenimon — não havia espaço suficiente para Ikkakumon se manifestar ali.
“Jou, por ali!”
Enquanto falava, Shin correu para o lado direito da porta de vidro. Jou correu para o lado esquerdo, e os dois abriram a porta de vidro ao mesmo tempo.
Arukenimon saltou para fora, e, logo atrás dela, Gomamon foi envolto pela luz da evolução.
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ONG DMH
Diretora: Natsuko Takaishi
Suas principais atividades eram promover uma relação harmoniosa entre o mundo humano e o DigiMundo, além de garantir a segurança dos PH (Humanos Parceiros), pessoas que possuem Digimon parceiros.
Yagami Taichi trabalhava como funcionário dessa organização.
Yamato e Iori saíram da sede utilizando um portal aberto a partir dali, indo em direção ao DigiMundo, e depois abriram novamente um portal através do computador de Shuu para retornarem e entrarem em ação. Além de Kawada Noriko, que ajudava nessa operação, vários estudantes universitários voluntários também circulavam pela organização, se revezando em atividades nas áreas de preservação.
Assim como ela, Yoshizawa Takashi e Shibata Hiroshi, que também se tornaram PH no início de 2003, estavam dirigindo os dois carros que cercavam o veículo de Shuu. Eles estavam fazendo a escolta até o instituto de Koushirou. Embora tivessem pouca experiência em combate, se candidataram porque acreditavam que poderiam ser úteis, mesmo que em algo assim.
Outro membro, Kurata Keiko, que estava de moto, chegou até a área externa da estação de serviço onde Yamato e os outros estavam. A batalha contra os Digimon negros já havia terminado.
“Desculpem a demora.”
O deslocamento por meio de portais tinha muitas vantagens, mas também algumas desvantagens. Para abrir um portal de volta, era necessário ter um computador adequado no local de destino, caso contrário não era possível ativá-lo imediatamente.
Se o próprio celular fosse usado como dispositivo de abertura de portal, ele precisaria ser deixado para trás naquele lugar.
Por isso, ela havia trazido um smartphone dedicado para a função de abertura de portais.
“Digital Gate Open.”
Quando Iori apontou o D-3, um portal se abriu na tela do celular.
“Por favor, encontrem o Taichi-san no DigiMundo.”
“E quanto ao Jou? Está tudo bem com ele?”
“No momento, parece que lá eles estão conseguindo dar conta.”
“Entendi. Então vamos.”
Depois de ver Yamato e os outros entrarem no portal, a moto de Kurata partiu novamente em direção a Tóquio.
26
“Miyako-san e os outros já se reuniram.”
Na sala do instituto Izumi, Tentomon — um Digimon em forma de joaninha maior que uma cabeça humana — voou até o cômodo onde Koushirou estava.
“Já os levei até o telhado. Ainda não é a nossa vez de agir?”
“Vamos esperar até o Takeru-kun chegar. E ainda não chegamos na fase certa do plano. Por enquanto, descanse um pouco.”
“Então quer dizer que depois vamos ser chamados pra trabalhar até cansar, né? Já estou ansioso.”
Enquanto estava de frente para o monitor do sistema, Menoa virou o rosto naquela direção e sorriu levemente, como se estivesse com um pouco de inveja — mas Koushirou e os outros não perceberam.
27
No horizonte, uma espiral negra começou a se erguer como um tornado, ondulando e tombando de lado enquanto avançava em direção a eles. Parecia uma enorme serpente — ou talvez uma centopeia colossal.
À medida que se aproximava, tornava-se possível ver que aquilo que compunha o tornado não era vento, mas sim partículas em forma de engrenagens de vários tamanhos.
Um impacto direto já seria capaz de causar danos severos. Mas não era só isso: mesmo a menor dessas engrenagens, se entrasse no corpo de um Digimon, poderia corrompê-lo, roubando sua vontade e transformando-o em um servo do mal.
“Eles voltaram a usar aquele método antigo…”
De pé sobre as patas de Birdramon em pleno voo, Takenouchi Sora lembrava-se do que Piyomon havia dito antes.
“Eu sempre achei estranho. Quando diz ‘Meteor Wing’, quem está realmente voando são os meteoros, não as asas. Talvez seja hora de, pelo menos uma vez, deixar as asas serem o foco.”
Em um planalto do DigiMundo, havia uma formação rochosa que surgia de forma abrupta. Birdramon subiu pelo ar desde a frente e, de suas costas, Takenouchi Sora saltou.
Enquanto aterrissava, ela gritou:
“Vai! Faz aquilo!”
Diante do tornado em forma de engrenagens, Birdramon avançou diretamente de frente. Seu corpo inteiro havia entrado em estado de incandescência. Era como se tivesse liberado o poder que normalmente controlava na presença de Sora.
O ataque “Meteor Wing” normalmente consistia em lançar asas flamejantes como shurikens — mas agora ele não estava disparando nada.
Mantendo o olhar fixo à frente, Birdramon torceu todo o corpo. Tornou-se como uma enorme broca vermelha e avançou contra o tornado.
As engrenagens foram dispersadas pela rotação violenta, deformadas pelo calor extremo e despedaçadas. O enorme tornado, que lembrava uma centopeia, foi completamente destruído em menos de vinte segundos.
28
“Quem foi que deu o nome de ‘Álamo’ para este lugar mesmo?”
No interior de uma enorme mansão de pedra onde Mimi e os outros estavam, havia também muros externos do mesmo material, com torres em cada um dos seis cantos. Em uma dessas torres, Michael observava a paisagem enquanto falava.
Do outro lado, na torre oposta, a voz de Steve vinha pelo comunicador.
“Não foi seu pai? Ele não fez um filme com esse nome antigamente?”
“Ah… é mesmo? Então acho que devia ter mudado isso.”
O pai de Michael era um astro de cinema. Antes da transferência para o DigiMundo, parte de sua enorme propriedade rural havia sido usada como abrigo para crianças resgatadas.
Ele nunca chegou a entrar no DigiMundo, mas ao ver as imagens do local de destino, comentou que aquilo lembrava o Forte Álamo de um dos filmes em que atuou.
“Bom, visto de alguns ângulos até lembra mesmo um forte… mas, na verdade, isso aqui é mais um castelo, não é? E convenhamos, esse nome não soa muito bem, não?”
“Relaxa aí.”
“A gente não vai ser derrotado tão fácil assim.”
As vozes de Sam e Lou vinham pelo comunicador. Eles também eram Humanos PH da mesma geração de Mimi.
“Para de perder tempo conversando.”
“Mais inimigos estão chegando.”
As vozes de Maria e Tatum também soaram pelo rádio.
Do lado de fora das muralhas, a primeira onda de engrenagens negras que havia atacado já tinha sido destruída por Togemon — a forma evoluída de Palmon, que agora parecia um grande cacto espinhoso.
Logo depois, fios negros começaram a emergir do solo em vários pontos ao mesmo tempo, avançando em direção ao Álamo por todos os lados.
Esses cabos também roubavam a vontade de qualquer Digimon com que entrassem em contato.
Centenas deles avançavam ao mesmo tempo, mas os Digimon parceiros de Michael e dos outros já estavam destruindo todos enquanto a investida terminava de chegar.
“Beleza, retirada temporária de todos! A equipe A entra em ação.”
Os portões da muralha se abriram, e os Digimon recuaram enquanto cerca de trinta PH saíam em formação, cada um ao lado de seu companheiro.
Os restos dos cabos negros já haviam se desfeito em poeira e desaparecido.
Sobre uma formação rochosa à frente do deserto, Daisuke, Ken, V-mon e Wormmon se posicionaram.
“Chegou a hora de contar com o poder dos Digimon de todo mundo!”
“Não se preocupem, vamos devolvê-los em segurança. Eu prometo!”
Do outro lado do deserto, algo negro começou a surgir do solo — como espinhos.
Eram pilares longos e afilados, do tamanho de árvores gigantes, em forma de prismas quadrangulares. Apenas as pontas eram agudas.
Eram os Obeliscos Negros — as Torre Negras — estruturas capazes de impedir a evolução, bloqueando qualquer Digimon acima do nível Criança.
Uma após outra, aquelas colunas negras continuavam a se erguer a partir da distância, avançando em direção à fortaleza.
29
Na Baía de Tóquio, várias Torre Negras também se erguiam.
O carro de Shuu Kido, escoltado por dois veículos na frente e atrás, freou bruscamente em frente ao instituto Izumi, em Shibaura.
Da entrada, Patamon voou para fora.
“Takeru——!”
“Patamon! Desculpa a demora.”
Dentro da entrada, Koushirou e Tentomon os aguardavam.
“Rápido, para o portal. Você…”
Koushirou guiou Rui até a sala de recepção.
“Espere um pouco aqui, por favor.”
Enquanto isso, no monitor do instituto, Miyako abriu o portal. Através dele, Takeru, Patamon e Shuu Kido seguiram em direção ao DigiMundo.
30
Em 2002, quando Takeru estava no quinto ano do ensino fundamental e havia se mudado para Odaiba, a internet sem fio pública ainda não era algo comum no Japão.
A região ao redor de Odaiba foi escolhida como área de teste para a criação de uma rede de comunicação sem fio espalhada pela cidade. Foram distribuídos a estudantes do ensino fundamental e suas famílias dispositivos um pouco maiores do que os celulares da época — que não possuíam função de chamada telefônica e eram usados principalmente para e-mail.
Esses aparelhos eram chamados de D-Terminal.
Embora originalmente não fossem dispositivos tão avançados, eles possuíam uma memória maior do que os celulares comuns, o que permitia seu uso como meio de armazenamento de dados.
Quando Daisuke Motomiya e os outros conheceram seus parceiros Digimon, seus Digivices D-3 puderam se conectar a esses D-Terminals e armazenar os dados dos Digimentals — as formas digitais dos Brasões.
Graças a esses aparelhos, era possível carregar múltiplos Digimentals e utilizar o poder da Armor Evolution.
Em compensação, a Armor Evolution tinha a desvantagem de só poder ser realizada quando o Digivice e o D-Terminal estavam juntos. Porém, ao contrário dos Digivices, os D-Terminals eram dispositivos eletrônicos fabricados pelos humanos, o que fez com que suas funções pudessem ser facilmente substituídas pelos smartphones que surgiram depois.
Daisuke e os outros agora usavam smartphones no lugar dos D-Terminals. Com a popularização desses aparelhos, começaram a surgir entre os PHs crianças que possuíam Digimon capazes de realizar Armor Evolution. Aqueles que estavam nas áreas de preservação passaram a ser chamados de “Equipe A” — abreviação de Armor Team.
Daisuke gritou com força:
“Beleza! Equipe A, partiu!”
Os Digimon dos PHs que estavam em frente ao Álamo realizaram a Armor Evolution em uníssono.
A Armor Evolution não era afetada pelas Torre Negras.
O parceiro de Daisuke, V-mon, evoluiu para o Digimon quadrúpede azul, Raidramon. Antes, ele mal conseguia carregar apenas Daisuke, mas agora havia crescido para mais do dobro daquele tamanho.
“Vamos nessaaaa!”
Daisuke era levado por Raidramon enquanto ele avançava correndo. Os Digimon do tipo Armor voltados para combate terrestre vinham logo atrás. Eles avançavam em uma carga massiva contra as Torre Negras alinhadas, fazendo a terra tremer com o impacto.
“Nós também vamos!”
Do alto de uma rocha, atrás de Ken Ichijouji, um grupo de Digimon do tipo Armor voltado para voo decolou.
Na linha de frente estava Pucchiemon. Era a forma evoluída de Wormmon — um Digimon do tipo fada com corpo branco e grandes orelhas vermelhas que pareciam um capuz.
Embora sua capacidade de combate fosse baixa, ele tinha um papel essencial: localizar os Digimon que haviam sido deixados para trás dentro das Torre Negras ou aqueles que tinham sido parcialmente corrompidos pelas engrenagens negras, e remover rapidamente essas engrenagens.
Logo atrás dele, os Digimon Armor avançavam, destruindo as Torre Negras sem qualquer hesitação.
31
“Agora, pessoal!”
Submarimon, o Digimon em forma de pequeno submarino em que Iori estava, avançou. Os Digimon do tipo Armor aquáticos que o seguiam atrás da forma Armor de Armadillomon aceleraram.
No lado norte da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, havia um lago em um terreno elevado tão vasto que parecia um mar. Da superfície desse lago, do centro até a região sul, as pontas das Torre Negras se erguiam em intervalos irregulares.
Uma a uma, elas começaram a se inclinar, começando a afundar, a partir das que estavam mais próximas da margem.
Os Digimon de Iori haviam iniciado o ataque.
32
A Baía de Tóquio já estava completamente escura quando as Torre Negras que se projetavam dela começaram a ser cortadas em pedaços por ataques vindos do ar.
Na região de Shibaura, dezenas de Torre Negras também surgiam no solo, mas estavam sendo destruídas em questão de minutos pelos mesmos ataques coordenados.
Os responsáveis eram Digimon voadores.
Um deles era Nefertimon, semelhante a uma esfinge alada, evolução de Tailmon. O outro era Holsmon, a forma evoluída de Hawkmon, com asas de aço ligadas a um corpo de quatro patas.
Havia quatro Holsmon ao todo. Em Nefertimon estava Hikari. Nos Holsmon estavam Miyako, seu irmão e suas duas irmãs.
“Quando isso acabar, vamos recuar temporariamente!”
Com o grito de Miyako, todos começaram a retornar para o telhado do Instituto Izumi.
33
No norte do lago da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, todas as Torre Negras foram destruídas desde a base e submergiram na água.
Submarimon emergiu até a margem, enquanto os outros Digimon do tipo aquático em forma Armor seguiram pelos canais em direção à área de preservação.
Do alto do céu naquela direção, um Digimon em forma de cavalo alado — Pegasumon — desceu em voo.
Era a forma Armor evoluída de Patamon, e Takeru estava montado nele.
“Já limpamos todas as que estavam perto da fortaleza. O resto pode deixar com Daisuke e os outros. Nós vamos para o próximo ponto.”
34
“Valeu a todos! Vamos para Kowloon e dar mais um gás!”
Em frente ao Álamo, Daisuke chamou pelos Digimon em forma Armor.
“Aqui já dá pra deixar com os Digimon do Michael que conseguem evoluir.”
Ken e Wormmon também estavam ali.
“Assim que acabarem com as Torre Negras daquele lado, voltamos imediatamente.”
Do alto de uma das torres, Michael gritou de volta:
“Mimi já saiu daqui!”
Na direção sul da fortaleza, dentro da selva, Palmon e Mimi se moviam como um vendaval.
Os tentáculos nos dedos de Palmon podiam se esticar bastante. Ela agarrava um galho e o puxava ao mesmo tempo em que se contraía, impulsionando-se para frente. Em seguida, estendia o outro tentáculo.
Repetindo esse movimento alternado, elas avançavam em altíssima velocidade pela floresta.
Em uma selva densa onde o solo era irregular e coberto por raízes e vegetação, não havia como alcançar aquela velocidade apenas caminhando pela superfície. Talvez fosse até mais rápido do que voar.
Mimi estava pendurada em Palmon.
Mesmo naquela velocidade, ela não perdia de vista os Digimon no solo. Podia haver ainda alguns corrompidos pelas engrenagens negras.
E, de fato, havia — já na borda da saída da floresta.
Palmon imediatamente evoluiu para Togemon. Em seguida, disparou os espinhos de seu corpo, destruindo as engrenagens negras que estavam presas ao Digimon antes que pudessem se espalhar.
35
“Se os Digimon parceiros de irmãos são iguais ou diferentes, isso é um problema interessante.”
Na sala de estar do centro de recuperação, Shuu Kido observava o ambiente enquanto falava. À sua frente, havia três Gomamon que pareciam estar se dando muito bem.
Do lado de fora, pela porta de vidro já aberta, sons intermitentes de luzes e destruição vinham da escuridão.
“Parece que o Instituto Izumi também quer estudar esse tipo de coisa. Mas ainda não conseguiram focar muito nesse lado.”
“Aquele lugar é mais voltado para pesquisa de sistemas eletrônicos, afinal.”
Jou também comentou.
Os três irmãos Kido tinham parceiros Digimon, todos começando como Bukamon e evoluindo para Gomamon. Chegou-se a pensar que isso fosse influência do fato de Jou ter sido o primeiro a formar o vínculo.
Mas as evoluções seguintes eram diferentes.
Já Daisuke, o irmão mais novo de Motomiya Jun — que agora segurava Kodokugumon — tinha V-mon como parceiro, um Digimon completamente diferente.
Do lado de fora da porta de vidro, o som de asas batendo e de terra sendo escavada se aproximou.
Pegasumon, carregando Takeru, pousou.
“Está quase tudo resolvido por aqui.”
Quando se fala em irmãos com Digimon diferentes, também há o caso dos irmãos Yagami — Taichi e Hikari — e dos irmãos Yamato e Takeru, que também possuíam parceiros distintos.
No terreno do lado de fora, o chão à frente de Iori começou a se elevar. Um Digimon de corpo rígido com uma boca em forma de broca apareceu: Digmon.
Imediatamente depois, ele reverteu a evolução e voltou à forma de Armadillomon.
“Aqui não tinha tantos inimigos assim, dagya.”
A região próxima ao centro de recuperação também tinha começado a ser afetada pelo surgimento das Torre Negras, mas os dois Digimon haviam lidado com elas rapidamente.
Os três Gomamon deram um passo à frente e falaram, se revezando:
“Beleza, então agora é a nossa vez!”
“Vocês dois podem descansar.”
“Tem até chá gelado pra vocês.”
Para quem vê de fora, eles pareciam indistinguíveis, mas diz-se que os irmãos Kido nunca confundiam seus próprios Digimon parceiros.
“Bom, Iori, você descansa.”
Takeru falou com Iori.
“Nós precisamos voltar para o instituto.”
Pegasumon também desfez sua evolução, voltando a Patamon, que pousou sobre a cabeça de Takeru.
“Tem certeza de que está tudo bem… com isso?”
Iori hesitou ao falar.
Ele estava preocupado com o fato de que, sem Takeru e Iori juntos, a evolução de Jogress não poderia ser realizada — e se isso não seria um problema.
As outras combinações de Jogress — Daisuke e Ken, Hikari e Miyako — estavam todas reunidas no mesmo local.
“Nós não somos os únicos que vão.”
Takeru respondeu com um sorriso leve.
Mais tarde, Rui perguntou a alguém, sem direcionar a ninguém em específico:
“Takeru-san… por que ele é sempre tão calmo?”
Por coincidência, naquele momento estavam presentes Iori, Ken e Miyako.
“Ah, quem sabe? Mas ouvi dizer que quando era criança ele já ficou bem fora de si algumas vezes. Né, Iori-kun, Ichijouji-kun?”
“Ah… isso é…”
“É… bem… isso…”
“Dizem que ele fica assustador quando se irrita, não é?”
Iori sentiu um leve aperto no peito.
Mas percebeu depois que aquilo não vinha de preocupação com Takeru em si.
Era pena — dirigida aos que estariam do outro lado quando ele finalmente perdesse a calma.
36
A área ao redor da Cidade Murada de Kowloon já começava a ficar escurecida.
No telhado voltado para o oeste da fortaleza, Taichi e Agumon, Yamato e Gabumon observavam o exterior. Na verdade, Taichi estava deitado de costas, relaxado.
“Está chegando a hora.”
Falou Yamato, que observava as Torre Negras sendo varridas uma a uma ao redor.
Ao ouvir isso, Taichi se levantou de repente.
“Finalmente chegou nossa vez.”
Do fundo do pôr do sol, uma massa negra começou a emergir, avançando em direção a eles.
37
A área de preservação do Álamo ainda estava sob a luz do meio-dia.
Além da selva, depois de atravessar formações rochosas, estendia-se uma vasta planície, e mais ao fundo havia uma árvore gigantesca.
Só o diâmetro de seu tronco já tinha vários quilômetros. No meio de sua altura, camadas de nuvens se acumulavam como anéis, e o topo desaparecia na névoa.
Essa árvore estava lentamente começando a se inclinar.
Do alto de uma rocha à frente, Mimi apontou.
“Aquilo ali, Togemon!”
Togemon, que havia acabado de remover as engrenagens negras que corrompiam os Digimon no solo, aproximou-se de Mimi.
Ao fundo dos dois, a árvore colossal continuava a tombar. Em sua base, uma nuvem negra começou a se elevar.
Mas não era uma nuvem.
Era uma forma em expansão e colapso, composta por inúmeros fragmentos.
E então ficou claro: aquilo não eram engrenagens negras desta vez.
Eram Digimon.
Digimon de nível Adulto, Perfeito… todos envoltos em escuridão.
Eles eram tantos que se tornavam uma massa de milhões, parecendo uma nuvem.
Subiam da terra e avançavam em direção a eles. E não era apenas isso — até o próprio solo parecia ser tomado por aquela escuridão.
Eram Digimon negros que não podiam voar.
“Acho que são um pouco demais para eu sozinha…”
“Pois é. Não viemos aqui para fazer esse tipo de coisa sem sentido.”
Mimi então virou o olhar para a floresta atrás dela.
“Avise os Digimon dessa floresta para fugirem o mais rápido possível.”
“Entendido!”
Togemon correu imediatamente para dentro da mata.
38
Daisuke confirmou a área ao redor antes de gritar:
“Tá tudo terminado! Retirada!”
As Torre Negras que haviam se erguido ao redor da área da Cidade Murada de Kowloon já tinham sido todas destruídas.
Na sala de comunicações do primeiro andar da fortaleza, Sora segurava um monitor que havia sido levado para fora da janela.
Ken abriu um portal ali, e os Digimon do tipo voador — liderados por Pucchiemon — atravessaram primeiro.
Logo depois, os Digimon do tipo terrestre, liderados por Raidramon com Daisuke montado, seguiram pelo portal.
Por último, Ken ficou sozinho por um instante antes de entrar. Ele se virou uma última vez em direção ao pôr do sol.
“Parece que conseguimos chegar a tempo.”
O sol já havia sido completamente encoberto por uma massa de Digimon negros.
No horizonte inteiro, eles avançavam cada vez mais perto.
Sora sorriu levemente.
“Bom trabalho. E pelo menos vamos conseguir devolver todos os Digimon sem ferimentos.”
“Mas os Digimon de agora e seus parceiros pareciam felizes. Mesmo que não fosse para lutar, eles disseram que estavam conseguindo ser úteis para todo mundo.”
“É… a gente precisa garantir que eles não precisem chegar a lutar de verdade.”
Ken atravessou o portal e desapareceu.
No telhado da fortaleza, não estavam apenas Taichi e Yamato. Também havia os três irmãos de Hong Kong — Yue Hong) — além de Dien, do Vietnã, Mina, da Índia, e outros PHs com experiência em combate, junto de seus respectivos Digimon parceiros.
Todos permaneciam de pé, voltados para a direção do pôr do sol.



















