Com grandes poderes…
Ainda me lembro de quando voltávamos correndo da escola pra assistir “Dragon Ball Z”, comendo aquele prato de arroz com feijão e carne cozida com legumes. Responsabilidade? Levantar as mãos quando o Goku nos invocasse pra fazer aquela “Genki Dama” gigantesca. Pobre Majin Boo…
Nostalgia? Sem dúvida. E digo isso no sentido mais etimológico da palavra. Esse “algos”, do grego, “dor”, do qual a palavra se origina, nos leva - melancolicamente - a tempos mais amenos, menos preocupantes, variegados e, certamente, de “falsas responsabilidades”.
Se você soubesse que aquelas provas do ensino fundamental não te fariam reprovar o ano letivo, não haveria tanta preocupação, certo?
No fim das contas, responsabilidade está relacionada à importância que damos pra determinados aspectos da vida, de acordo com a nossa capacidade de entender o que - realmente - é essencial para nós naquele momento.
O Tio Ben estava certo:
- Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.
Nós só não entendíamos a intensidade disso tudo porque, à época, provavelmente, nós só conseguimos pensar no no Homem-Aranha como um filme qualquer de herói. Ledo engano. O espírito pueril que habitava nossas mentes e olhos não nos permitiu olhar além. Com certeza você não notou aqueles belos seios da Kirsten Dunst eriçados na chuva.
No mais, a história do “Cabeça de Teia” é quase como uma profecia do que nos aguardava na vida adulta. Mesmo que a intenção dos quadrinistas sempre tenha sido trazer os super-heróis pra mais perto do aspecto humano, com o Parker, o objetivo é atingido com primor.
Os conflitos cotidianos do herói são tão humanos que, por vezes, a trama que se reserva aos momentos sem a fantasia são muito mais interessantes do que as cenas de ação mal feitas e os efeitos especiais exagerados.
A questão é que nós vinculamos a frase do Tio Ben à transformação heróica do Peter, mas não era disso que se tratava. A frase marcava a transição do herói para a vida adulta, muito mais conflitante e difícil de administrar do que seu legado enquanto herói.
Esse “poder” mencionado na frase tem, justamente, o significado primeiro, cuja origem é “possum”, do latim: ser capaz de.
Capaz “de quê”? De falhar, de escolher, de errar, de titubear, de superar, de refletir e, quem sabe, acertar.
É o que acontece com o “Amigão da Vizinhança”. Quem é que consegue estudar, trabalhar, gerir uma casa, cuidar da Tia May, conquistar a Mary Jane e, nas horas vagas, salvar Nova York? Ninguém. Nem o Peter.
O que é reconfortante? Em meio a todos esses conflitos - que em muito se assemelham à vida do homem comum - é mais fácil falhar em manter a cama arrumada do que vencer o Dr. Octopus.
Boa semana, “herói”.

















