Casamento: O maior exemplo de rebeldia e resistência ao mundo moderno.
“O casamento é uma questão de honra. O casamento é uma luta. Às vezes, uma luta apenas consigo próprio. O matrimônio possui, necessariamente, um toque de heroísmo. Na guerra, a lealdade perdura inclusive na derrota, ou até mesmo na desgraça. Precisamente no momento em que a bandeira está quase sucumbindo é que se deve lealdade.”
Antes de começar, eu gostaria de deixar claro o seguinte: qualquer exemplo contido nesse texto é meramente ficcional. Nada do que está contido aqui é destinado ou faz referência - especificamente - a alguém. Aliás, se você estiver lendo, guarde bem os meus livros, meu velho chinelo do Super Mário e, principalmente, as boas lembranças.
Dito isso, precisaremos definir muito claramente o seguinte: seja você cristão ou não, o casamento é uma instituição mais antiga que o estado, cuja formalidade e efeitos foram concebidas desde muito antes das repúblicas, revoluções, guerras, etc. com toda uma essência mística e religiosa. Sendo assim, mesmo tendo apenas assinado um papel diante de algumas testemunhas e um juiz, você participou - informalmente - do maior rito religioso de toda a história. Parabéns.
Para o cristão, há uma definição apaixonante - e sacramental, do ponto de vista católico -, a qual sempre me vem à cabeça quando o assunto é casamento: ele é a parábola viva do relacionamento entre Cristo e a Igreja. O marido sacrificial e protetor e a esposa colaboradora - e muitas vezes obstinada. Machista? Paciência. Não estou aqui para defender qualquer ideal religioso. Aliás, estou tentando me desprender de todo e qualquer preceito, por mais difícil - e impossível - que isso seja. O homem deve amar sua mulher e se entregar por ela; a mulher deve ser submissa ao seu marido como ao Senhor... ah! E também não podemos nos esquecer dos filhos! Romântico, né?
Do ponto de vista secular... bem... para o homem moderno eu gosto muito de partir de uma ideia formulada pelo escritor, professor e psicólogo docente da Universidade de Toronto, Jordan B. Peterson: “Casamento não é para ser feliz, é para dar estabilidade às crianças.”Também existe a questão da estabilidade financeira e tudo o mais... quem é que não quer juntar as escovas e dois salários para sobreviver a essa selva capitalista?
Eu não quero dizer que os homens modernos veem o casamento como uma questão meramente contratual. Entretanto, temos que concordar que não há - explicitamente - a carga de tradição, idealização, etc. como há no aspecto religioso, o que facilita mensurar as vantagens e desvantagens de se unir tão seriamente a alguém.
E, no final das contas, o que essas duas linhas tem em comum? Resposta: quase tudo. Ou, pelo menos, no cerne, são praticamente iguais.
A não ser que você tenha um espírito transcendente e incorruptível - e se você o tiver, já me chama no privado que eu faço uma campanha para sua canonização -, a ideia do marido sacrificial e da mulher submissa no relacionamento cristão é, minimamente, estressante demais para definir a relação conjugal como a coisa mais feliz do mundo. Não estou falando mal do casamento. Longe de mim. Entretanto, verdades precisam ser faladas. Calma, não desanime. Você terá muitos momentos felizes no casamento. Talvez mais momentos felizes do que tristes.
E mesmo que você não pense em todos esses aspectos religiosos e romantizados do casamento, não há como se unir a outra pessoa - estritamente - para manter sua estabilidade financeira ou criar filhos. Você não é nenhum membro da família real e a estabilidade do reino não depende desse seu sacrifício. #ateustambémamam
Então, eis a pergunta: casamento por quê?
Namorando eu posso transar de vez em quando, administrar individualmente as minhas despesas, pensar individualmente o meu futuro, comprar o que eu quiser e, principalmente, não me importar tão seriamente com o bem-estar de outra pessoa. Casamento pra quê? A resposta: não sei.
Eu só sei de uma coisa - e jamais deixaria aquela bela frase do Chesterton solta lá em cima se não viesse dissertar sobre ela - o casamento é o maior paradoxo do mundo. Podemos ter filhos e não estarmos casados; podemos comprar um apartamento e um carro e não estarmos casados; podemos viajar o mundo - acompanhados ou não - e não estarmos casados; podemos viver a vida - felizes ou não - e não estarmos casados. Mas a verdade é esta: o casamento é um protesto.
Só serve para aqueles que querem ser desafiados, para os que estão dispostos a colocar seus peitos abertos e expostos ao risco de serem feridos, decepcionamos e, na mesma medida, amados e cuidados.
Em tempos de relacionamentos líquidos - sim, eu vou citar Bauman em quase todas as minhas postagens - ser casado é rebelião, se propor a tentar amar um único homem ou uma única mulher pelo resto da vida é exemplo de transgressão. E transgressão das grandes. Diferente dos relacionamentos casuais, onde as coisas são levadas até que nos deparemos com o menor sinal de incômodo e perda do controle, no casamento, a coisa não é bem assim. Isso devido ao peso social que a instituição carrega. E mais do que isso: é graças ao amor, convivência e companheirismo que são construídos no decorrer dos anos.
Sabe aquele “eu aceito”? Pois é. Ele também faz referência aos defeitos da pessoa com a qual você está se unindo. Eu garanto. Olha lá. Está nas linhas pequenas que ninguém lê.
A ideia de abrir mão de alguns sonhos e planos individuais, para construir sonhos com outra pessoa que, em muitas ocasiões, não vai querer sonhar o mesmo que você, é muito difícil. Se isso vale a pena? Só se descobre no final. E tudo só acaba quando termina.
A sensação de que os dias estão passando e você não saber se está fazendo a coisa certa também é angustiante. O que nos conforta nesse caso? A presença de uma outra pessoa que também se colocou à mercê de todas essas angústias e inseguranças com você. E ela estará ali pra te apoiar. Sempre.
“Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.”
Crises? Imagina... O casamento é um eterno mar de crises. Desde saber se quer continuar seguindo junto com o outro, até escolher o sabor da pizza pra assistir Netflix num sábado à noite. Não estou exagerando. São essas pequenas e grandes crises que dão aquele empurrão no relacionamento para que ele tome alguma direção. É claro que, dependendo do empurrão, pode ser que tudo isso tome a direção do fim, mas não deixa de ser uma direção.
“O grande prazer do casamento é que ele é uma crise permanente.” – David Copperfield, Chesterton on Dickens, 1911
No fim das contas, o casamento é sobre ter um lugar pra voltar. Ter alguém para quem voltar. É sobre confiança, companheirismo, lealdade, segurança... é sobre amor também, mas, diferente da paixão, na qual sofremos terrivelmente esperando aquela mensagem de ‘bom dia’ no WhatsApp, no amor, mesmo que ambos saiam correndo de casa às pressas para o trabalho, sabemos que o ‘bom dia’ está ali, desde colocar o leite pra esquentar no microondas, até separar as roupas brancas das coloridas para a lavagem.
E, se um dia, por algum motivo, seja ele qual for, tudo isso se acabar? Deu errado? Não. Certamente não. Deu certo. Deu certo enquanto durou. Afinal de contas, um belo e delicioso prato não deixa de ter sido maravilhoso quando você termina de se servir dele. E, se um dia, você decidir preparar e desfrutar de outra refeição tão boa, lembre-se: qualquer gota de molho vermelho, por menor que seja, pode desandar a perfeição e harmonia de um delicioso molho bechamel.
Eu teria muitas coisas pra escrever sobre o casamento, mas gostaria de versar sobre outros temas e este assunto me ocuparia por mais alguns bons dias, apesar da pequena - mas generosa - experiência que tive. Sendo assim, havendo começado o texto com uma frase encorajadora do Chesterton sobre casamento, eu gostaria de reforçar a beleza de tudo isso com outra frase do autor:
“O casamento é um duelo mortal que nenhum homem/mulher* honrado deve rejeitar.”
*A frase original cita apenas “homem”, mas era o século XIX... sabe como é, né?