Ă atĂ© estranho chamar o senhor assim, parece que somos desconhecidos morando na mesma casa, devo mesmo chamĂĄ-lo de pai? Na escola, o dia dos pais nunca foi motivo de comemoração pra mim, vocĂȘ nunca aparecia, nunca me levou para passear, fazia promessas e nunca cumpria. Sabe, vocĂȘ e a mĂŁe parecem fogo e ĂĄgua convivendo juntos.
Aos 6 anos de idade, eu ouvia gritos, xingamentos e depois vocĂȘs correndo na rua, eu chorava e nĂŁo entendia nada, eu sentia solidĂŁo, vocĂȘs corriam e me deixavam de lado, eu tinha medo de ficar no mesmo quarto que vocĂȘs, eu temia que seria deixado de lado. Meus avĂłs desde entĂŁo me acolheram e me adotaram.
Aos 15 anos, minha vida mudou radicalmente, o diagnĂłstico de depressĂŁo e ansiedade me atingiram como uma facada. Onde vocĂȘ estava? VocĂȘ diz que me ama muito, mas me ama como um objeto descartĂĄvel? VocĂȘ me usa pra fazer raiva pra minha mĂŁe. Eu lembro de vocĂȘ dizer que minha depressĂŁo Ă© frescura, que nĂŁo quer pagar minha terapia pois Ă© caro. Pai cadĂȘ vocĂȘ? CadĂȘ o seu amor?
Aos 17 anos, eu fiquei muito doente, de cama e precisava de remĂ©dios, e vocĂȘ se recusava a comprar, quando eu precisava ir ao mĂ©dico, vocĂȘ nĂŁo queria se levantar, eu nĂŁo valho o esforço? eu nĂŁo sou nada pra vocĂȘ? Por muitos anos tentei ser compreensĂvel, tentei dar meu amor, minha atenção e tentei te perdoar, nossa relação sempre foi de altos e baixos, Ă© por que nada vai mudar, nĂŁo Ă©? Vamos ser eternos estranhos. Quando vocĂȘ me abraça sinto como se uma pessoa qualquer tivesse me parado no meio da rua e tivesse me dado abraço. CadĂȘ nossa relação pai? CadĂȘ o afeto?
Aos 20 anos, eu aceitei, aceitei que seria assim por muito tempo, talvez pra sempre, vocĂȘ e minha mĂŁe vĂŁo continuar nessa gangorra sem fim, mas pai eu nĂŁo faço pare de nada disso. Quando vocĂȘ deixa de me levar a terapia por estar com raiva da minha mĂŁe, quando vocĂȘ faz a gente se arrumar pra uma festa e diz que nĂŁo vamos mais, pura vingança, puro Ăłdio, puro ciĂșmes possessivo, Ă© isso que vocĂȘ chama de amor? Sorrisos e palavras nĂŁo me valem de nada, suas açÔes me mostram mais que tudo isso, suas açÔes sĂŁo a ausĂȘncia delas.
Pai, um dia eu terei sua idade, eu vou pensar em vocĂȘ e vou me esforçar pra fazer tudo ao contrĂĄrio do que o senhor fez. Eu nĂŁo tenho raiva, Ăłdio, eu na verdade, sinto pena, eu sinto que tudo poderia ter sido diferente, a gente poderia ter tido uma boa relação, eu sonhava em ter um pai e uma mĂŁe, sonhava com a gente passeando pela cidade, com vocĂȘ sendo uma pessoa decente. Essa realidade nĂŁo existe, nem vai existir.
Essa Ă© minha Ășltima carta pra vocĂȘ pai, vamos continuar morando na mesma casa como dois estranhos. Pai, essa palavra soa tĂŁo estranha pra mim. Devo mesmo chamĂĄ-lo assim? Eu jĂĄ nĂŁo sei mais...