AmanhĂŁ, nĂŁo sei
Essa semana fui ao supermercado.
Sempre gostei de supermercados.
Antes de me mudar, quando morava apenas eu e minhas filhas, era um hĂĄbito passar por lĂĄ quase todos os dias. Ăs vezes depois de deixĂĄ-las na escola. Outras, quando ia buscĂĄ-las. Eu comprava uma salada, um pacote de cafĂ©, alguma fruta, ração para minhas cadelinhas e para minha gatinha. Quase nunca precisava de muita coisa. A verdade Ă© que eu gostava de estar lĂĄ.
Eu ia naquele horĂĄrio da manhĂŁ em que quase nĂŁo havia ninguĂ©m. O cheiro de pĂŁo quentinho se espalhava pelos corredores. A mĂșsica ambiente tocava baixinho. E eu acompanhava a voz do cantor enquanto deslizava entre as seçÔes e prateleiras.
As funcionĂĄrias jĂĄ sabiam quem eu era.
Quando eu aparecia sozinha, perguntavam pelas meninas.
- E as pequenas? Ficaram na escola hoje?
Era curioso como um lugar tĂŁo impessoal podia se tornar tĂŁo familiar.
Ali, eu estava segura.
Essa semana, entretanto, fui a um supermercado em um bairro novo. Um dos lugares que comecei a frequentar depois da mudança. Aos poucos, estou me acostumando com o caminho.
O cheiro do pĂŁo continuava no ar. Eu estava com minhas filhas. As pessoas enchiam carrinhos, escolhiam frutas, decidiam entre uma marca e outra de um produto qualquer.
Tudo estava exatamente onde deveria.
Menos eu.
Eu conversava, ria e continuava minhas compras. Mas, por dentro, senti como se houvesse alguma coisa errada em mim.
Como se eu estivesse suja.
Ou feia.
Ou simplesmente⊠diferente.
Parecia que todos estavam olhando.
Talvez ninguém estivesse.
Mas eu senti.
Segui como se nada estivesse acontecendo. Quando chegamos em casa, senti um alĂvio difĂcil de explicar⊠E continuei vivendo.
Hoje, escrevi.
Essa agonia nĂŁo tem hora.
Ăs vezes ela apenas existe, Ă espreita.
Naquele dia, foi no supermercado.
Hoje, nĂŁo sinto.
AmanhĂŁ, nĂŁo sei.










