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Antes de como a conhecemos hoje, em um passado bem distante, a Ăfrica foi um vasto e majestoso continente do qual nĂŁo podemos imaginar! Constituiu em sua histĂłria inĂșmeros povos, estados, reinos, impĂ©rios e muitos desconhecidos de grande maioria de nĂłs. Da civilização do Cartago Ă civilização EgĂpcia e ao Reino de Punt - muitos parecidos entre si - aos ImpĂ©rio de Cuxe, Mali, Askum, Gana, Congo, Benim, DaomĂ©, Songai, Canem. A Ăfrica floresceu em muitos aspectos como um vago berço da civilização, mesmo Ă s sociedades "tribais" animistas, que possuĂam sistemas polĂticos, econĂŽmicos, de crenças e linguagens complexos. Muitas dessas sociedades nĂŁo deixaram vestĂgios pois eram baseadas em tradiçÔes orais, como Ă© o caso de Gana.
A Ăfrica tambĂ©m jĂĄ foi percursora ao reconhecer a trans/nĂŁo-binariedade de gĂȘnero e sexo em tempos prĂ© coloniais, antes das imposiçÔes de um binĂĄrio de gĂȘnero rĂgido "homem" e "mulher", "menino" e "menina", lĂłgica essa europĂ©ia que se consolida com o avanço da modernização e industrialização pĂłs colonização e o etnocĂdio.
As relaçÔes entre pessoas do mesmo sexo, a nĂŁo-conformidade de gĂȘnero, e as identidades, expressĂ”es e comportamentos trans e nĂŁo-binĂĄrio estĂŁo presentes em numerosas sociedades africanas, onde foram toleradas largamente e aceitas durante muitas Ă©pocas - inclusive ainda sĂŁo. No entanto, tais comportamentos e identidades nem sempre sĂŁo (podem ser) entendidas como 'bi', 'gay', 'lĂ©sbica', 'trans', ou 'nĂŁo-binĂĄria', em termos de identidades e categorias polĂticas, pois estes sĂŁo termos e noçÔes ocidentais fora do contexto afro. Por exemplo um Ășnico termo pode ser usado para descrever tanto gays e lĂ©sbicas, como trans, intersexo e nĂŁo-binĂĄrias, sem distinção. Talvez um termo ocidental que exemplifique melhor essa questĂŁo seja o prĂłprio termo LGBT+ ou Queer, que designam uma ampla variedades de pessoas que nĂŁo sejam cis, hĂ©tero, diĂĄdica e/ou binĂĄria de gĂȘnero.Â
TambĂ©m se entende por nĂŁo-binĂĄrio muitos aspectos culturais africanos que foge da lĂłgica ocidental de identidade de gĂȘnero e nĂŁo-binĂĄrio, como os famosos testes, rituais, papĂ©is de gĂȘneros africanos alternativos ou o chamado "terceiro gĂȘnero". Esse post nĂŁo visa (sĂł) demostrar que gĂȘneros nĂŁo-binĂĄrios nĂŁo se tratam puramente de uma construção ocidental e atual, pouco nos importa essas "crĂticas" sem fundamento feitas por gente que reduz sexo e gĂȘnero Ă combinação cromossĂŽmica. Procuramos seriamente dĂĄ visibilidade Ă s pessoas LGBTI+ na histĂłria da Ăfrica negra ou subsaariana, como merece ser reconhecida, trazendo Ă luz o tema que Ă© pouco conhecido mesmo no meio acadĂȘmico cientifico.
Portanto, iremos descrever alguns casos e tentar descrever fenĂŽmenos recorrentes, considerando a especificidade das estruturas sociais no contexto africano, comparando com o quĂȘ conhecemos. Pensar na Ăfrica tambĂ©m como se estivĂ©ssemos falando de um povo sĂł, sem diferenças entre si, ou que o continente africano "Ă© perfeito" e estĂĄ isento de opressĂ”es - por uma questĂŁo histĂłrica e racial - é extremamente problemĂĄtico, uma vez que tais sociedade possuem de prĂĄticas Ă sistemas de classificaçÔes e papĂ©is de gĂȘneros por vezes muito abusivos, restritivos, binarista e atĂ© mesmo machista.
HistĂłria bem antiga.
Fragmentos de cerĂąmica inscritos do Reino MĂ©dio do Egito (2000â1800 aC), encontrados perto da antiga Tebas (atual Luxor , Egito ), listam trĂȘs gĂȘneros humanos: tai (masc), sekáž«et (neu) e hemet (fem), alĂ©m de outros termos menos tradicionais como 'hem' e "nekke'. Seriam como os atuais espectros de gĂȘneros talvez, fomentados por suas crenças e prĂĄticas antigas.
O Rei Faraó Akhenaton foi frequentemente representado de forma semelhante à Hapi, como tendo seios, barba, barriga bem saliente, além dos largos quadris semelhante à sua esposa, Nefertiti.
JĂĄ Hatchepsut ou Hatshepsut foi uma grande esposa real, regente e rei-faraĂł do Antigo Egito (Rei era um termo de gĂȘnero neutro pra qualquer governante independente de seu sexo/gĂȘnero, pois nĂŁo havia uma palavra egĂpcia para rainha). Hatcsheput viveu no começo do sĂ©culo XV a.C, pertencendo Ă XVIII Dinastia do ImpĂ©rio Novo. O seu reinado, de cerca de vinte e dois anos, corresponde a uma era de prosperidade econĂŽmica e paz. No sĂ©timo ano do reinado de seu meio-irmĂŁo TutmĂ©s II, Hatchepsut adota o nome Maatkare, proclama-se REI e considera-se soberane do Egito, adotando os atributos faraĂŽnicos como tĂtulos, nomes, cetros, uma incrĂvel barba postiça, tanga curta e cauda de touro, alĂ©m de unificar as duas coroas. A grande questĂŁo aqui Ă© que tudo isso poderia ser considerado "masculino", e alĂ©m de que na ideologia egĂpcia nĂŁo havia lugar para uma rainha reinante. Seu descendente TutmĂ©s III mais tarde tentaria erradicar quase toda referĂȘncia histĂłrica a ela, mas a histĂłria venceu. Obrigado Hatschepsut.
Curiosidade trans: Ăsis estava entre as poucas divindades adoradas pelos egĂpcios e seus vizinhos do MediterrĂąneo, na GrĂ©cia. Em um conto documentado em Isiopolis, Isis apareceu em um sonho acompanhada de uma comitiva egĂpcia para acalmar a grĂĄvida Telethusa, que temia que ela tivesse uma "menina" contra a vontade do marido. Ăsis disse Ă Telethusa que mesmo assim criasse a criança, iphis, que nasceu do sexo que o pai nĂŁo desejava, mas Telethusa ocultou o sexo genital da criança criado-a como um menino e feliz pela escolha do nome neutro dada pelo pai, coincidentemente. Mais tarde na vida adulta, Iphis pediu a Isis que mudasse seu sexo, uma antiga afirmação de gĂȘnero transsexual, concedida por meios divinos.
Al-Bakri, um cronista muçulmano do sĂ©culo X dC, nos dĂĄ informaçÔes bem precisas do Reino De Gana, como conta em sua obra Descrição da Ăfrica (de 1087):
"O rei adorna a si mesmo como se fosse uma mulher, usando colares ao redor do pescoço e braceletes em seus antebraços. Quando se senta diante do povo, fica sobre uma elevação decorada com ouro e se veste com um turbante de pano fino... Ă sua direita ficam os filhos dos vassalos do paĂs do rei, vestindo esplĂȘndidas roupas e com os cabelos trançados com ouro. O governador da cidade senta-se na terra diante do rei e os ministros ficam do mesmo modo, sentados ao redor. Na porta do pavilhĂŁo estĂŁo cĂŁes de excelente pedigree e que dificilmente saem do lugar de onde o rei estĂĄ, pois estĂŁo ali para protegĂȘ-lo. Os cĂŁes usam ao redor de seus pescoços colares de ouro e de prata cheios de sinos com o mesmo metal."
Esse Ă© um clĂĄssico exemplo da relativa diversidade de gĂȘnero africana entre as pessoas cis, trans, nb de Gana que sĂŁo por vezes referidas como Kojobesia ("homem-mulher"), infelizmente as vezes expressa de forma ofensiva. Sem contar que entre os perĂodos de 300 e 1705, a religiĂŁo em Gana assim como podemos ver em outros impĂ©rios africanos, eram mistas, muçulmanes e "pagĂŁes" (povos de diversas religiĂ”es tradicionais africanas) conviam entre si demostrando mais uma vez a diversidade cultural que se sustentava ali. Um bom exemplo disso tambĂ©m Ă© a saudação das pessoas quando se aproximavam do rei. Os povos animistas jogavam terra em suas cabeças em sinal de respeito, e muçulmanos batiam palmas, diferença que mostra o ainda baixo grau de penetração islĂąmica junto ao rei e Ă corte de Gana no perĂodo mencionado antes do ataque extremista islĂąmico dos AlmorĂĄvidas.
Mas muitos Exemplos...
Talvez um dos casos mais emblemĂĄticos e recentes na histĂłria da nĂŁo-binariedade e nĂŁo-conformidade de gĂȘnero na Ăfrica prĂ© colonial esteja no Reino de Ndongo governado por Nzinga uma "mulher nĂŁo-binĂĄria", militar e guerreire. Governou com tĂtulo de 'Rei' ao invĂ©s de 'Rainha' ao assumir o trono do Ndongo apĂłs a morte de seu irmĂŁo, Ki Mbandi em 1624. Por volta de 1630, Nzinga tomou o reino de Matamba (Ndongo Oriental), terra evocativa de seus ancestrais e tradicionalmente governada por mulheres. Nzinga claramente ocupou um espaço na sociedade africana onde lhe permitia uma identidade e expressĂŁo de gĂȘnero nĂŁo-binĂĄria. Sua histĂłria Ă© conturbada e cheia de aventura liderando uma guerra contra os portugueses. Portava trajes considerados europeus por vezes , e vivia rodeada de um harĂ©m de jovens 'homens' com expressĂ”es feminina que foram suas 'esposas'. TambĂ©m conhecides como Chibados, eram pessoas nĂŁo-binĂĄrias/transfemininas que foram avaliadas como conselheires para governantes e chefes, como lĂderes de rituais espirituais e como aqueles que enterravam os mortos.
"Ela recusava o tĂtulo de rainha e fazia questĂŁo de ser chamada rei. Por isso que decidiu tornar-se socialmente quase homem e ter um harĂ©m, com os concubinos vestidos de mulher. Por isso que lutava como um soldado, Ă frente do exĂ©rcito. Na realidade, Jinga* estava a criar a sua tradição, a sua legitimidade, os precedentes que permitiriam a suas netas e bisnetas ascenderem, sem contestação de gĂȘnero/sexo, ao poder.â (Costa e Silva)
*Outro nome pra Nzinga
Muito outros exemplos de identidades fora do padrão binårio e ocidental foram documentadas por todo o continente Africano pré e pós colonial, dentre essas identidades, listamos essas para futuras pesquisas:
Agule (Lugbara, Uganda/Congo), Ashtimee (Maale, EtiĂłpia), Chibadi (Ndongo, Angola), Gordijiguenes (Dacar, Senegal), Insangoma (Zulu, Africa do Sul), Inzili (Bagisus, Uganda), Jin Bandaa/Quimbada (Angola), Khaal (Egito), Khawal (Egito), Kiziri (Maragoli, QuĂȘnia), Londo Mashoga (SuaĂli, Ăfrica Oriental)), Mino (Dahomey, Benim), Mudoko Dako (Langi, Uganda), Mumeke (Egito), Okule (Lugbaras, Uganda/Congo), Sagoda (Konso, EtiĂłpia), Sekrata (Antandroy/Hova, Madagascar), Shoga (SuaĂli, Africa Oriental), Skesana* (Zulus, Ăfrica do Sul), Stabane (Zulu, Ăfrica do Sul), Tchindas (Cabo Verde), Yan Daudu (Hausa, NigĂ©ria), Wandarwarad (Amhara, EtiĂłpia)
*Obs: Skesana significa literalmente intersexo/hermafrodite, mas nesse sentido de identidade, poderia ser como o quĂȘ chamamos de intergĂȘnero, am/bigĂȘnero, e andrĂłgino aqui.
Para mais informaçÔes: https://tourbuilder.withgoogle.com/builder?fbclid=IwAR3NXiQI0h-U-b6jGm2SK3C2wv-y_hb_sDFNKbpIVWNoXfICiMiXXKOytpI#play/ahJzfmd3ZWItdG91cmJ1aWxkZXJyEQsSBFRvdXIYgICA5Yb96gkM/ahJzfmd3ZWItdG91cmJ1aWxkZXJyJwsSBFRvdXIYgICA5Yb96gkMCxIJUGxhY2VtYXJrGICAgIDYqZIKDA
Curiosidade: O prĂłprio binĂĄrio de gĂȘnero na Ăfrica pode ser bastante diverso e plural. As tribos Somali por exemplo reconhecem duas categorias de homens. Os Waraleh ("guerreiro") e os Waddado ("xamĂŁs"). Para homens e mulheres gay ou bi tambĂ©m existem diferentes tipos de identidades. O antropĂłlogo Gill Sepherd observou que na lĂngua SuaĂli (falada a Africa Oriental por ex: QuĂȘnia, Uganda e TanzĂąnia) existiam variaçÔes de gĂȘnero masculino e feminino conhecida como Shoga, Basha, Hanithi, Msagaji, Msango, semelhantes aos termos da subcultura Gay e MOGAI.
Dentro os povos Dagaaba na atual Gana, Burkina Faso e Costa do Marfim, a identidade de gĂȘnero Ă© determinada de forma diferente. Nosso conhecido xamĂŁ Malidoma SomĂ©, de Dagaaba, diz que gĂȘnero para a tribo nĂŁo depende da anatomia sexual. âĂ puramente algo energĂ©tico. Nesse contexto, quem Ă© fisicamente 'masculino' pode vibrar energia feminina e vice-versa. Ă aĂ que estĂĄ o gĂȘnero real".Â
(http://www.menweb.org/somegay.htm)
Os povos igbo da NigĂ©ria, na Ăfrica Ocidental, parecem atribuir gĂȘnero por volta dos 5 anos de idade . Na Ăfrica Central, os povos Mbuti nĂŁo designam um gĂȘnero especĂfico para uma criança atĂ© depois da puberdade, em contraste direto com a sociedade ocidental. (Transgender History & Geography, Bolich)
ReligiĂŁo como um Forte.
A crença em divindades espirituais não-binårias estabeleceu as bases para a aceitação de comportamentos trans e nb nas sociedades africanas.
Na mitologia de DaomĂ©, uma das principais dividades africanas e nĂŁo-binĂĄrias do panteĂŁo vodu Ă© a divindade andrĂłgina e criadora Mawu-Lisa, formada por irmĂŁos gĂȘmeos de ambos gĂȘnero binĂĄrio filhes de Nana Baluku. Associade ao sol e Ă lua na mitologia de DaomĂ©, em alguns mitos, mawu Ă© a irmĂŁ gĂȘmea do deus masculino lisa; em outros, ambas as divindades sĂŁo aspectos da mesma divindade andrĂłgina ou dois espĂritos de Mawu-Lisa sem distinção de gĂȘnero.
Na histĂłria da criação egĂpcia dos deuses (neteru), o primeiro Deus, Atum, Ă© descrito como sendo intersexo (ou altersexo em termos nĂŁo-humano) e agĂȘnero, apesar das representaçÔes meio masculina sobre sua aparĂȘncia e expressĂŁo de gĂȘnero - o que nĂŁo tĂȘm problema algum jĂĄ que gĂȘnero, pronome, sexo e aparĂȘncia nĂŁo sĂŁo as mesmas coisas - e ele que na verdade, possui caracterĂsticas de ambos gĂȘneros binĂĄrio (bigĂȘnero) no contexto egĂpcio. AtravĂ©s da reprodução assexual, Atum cria dois outros deuses, Shu e Tefnut.
Um outro exemplo seria Hapi, uma divindade egĂpcia com caracterĂsticas e qualidades ambigĂȘneras. Hapi era intersexo, e alterhumano (devido sua pele esverdeada ou azulada, duas cores associadas entre os antigos EgĂpcios Ă fertilidade). Hapi tambĂ©m era representado semi-nu, com barba, seios, ventre e quadris proeminentes. Vestia uma cinta associada aos pescadores e em sua cabeça, uma coroa de flores de lĂłtus e o papiro, ou segurava estas plantas nas suas mĂŁos. Muite adorade no antigo Egito chegando atĂ© mesmo Ă Roma, era conhecido como deuse Do Rio Nilo, justamente por uma de suas qualidades, a fertilidade.
O Povo Lugbara da RepĂșblica DemocrĂĄtica do Congo e Uganda estĂŁo entre os povos da Ăfrica Central que ainda realizam cerimĂŽnias espirituais com sacerdotes trans. De acordo com a falecida Leslie Feinberg, sacerdotes transmasculines mais importante, coexistem com xamĂŁs transfeminines. Entre os povos Lugbara, por exemplo, as pessoas transfemininas sĂŁo chamadas de Okule e pessoas transmasculinas sĂŁo chamadas de Agule (transmaculine e transfeminine, sĂŁo termos que designam pessoas TRANSSEXUAIS na maioria das vezes, referente aos termos inglĂȘs mtf e ftm, entĂŁo essas pessoas podem ser nĂŁo-binĂĄrias de gĂȘnero) . âOs povos Zulu da Ăfrica do Sul tambĂ©m inicia xamĂŁs trans/nb, chamando-es de Insangoma. As mulheres trans eram adivinhadoras na tribo Ambo do sul de Angola, com o Kalunga, o espĂrito supremo.
Os chamados OrixĂĄs "meta-meta" (aliĂĄs, expressĂŁo essa cunhada no Brasil) nos remete a um OrixĂĄ nĂŁo-binĂĄrie intrinsecamente ambivalente e fluĂdo (ambigĂȘnero ou de gĂȘnero fluĂdo), que durante metade do ano tem caracterĂsticas "masculina" e no restante caracterĂsticas "femininas". Ă o caso de LogunedĂȘ. Ou Oxum OparĂĄ (OrixĂĄ da fecundidade, amor e riqueza). Este Ă© um orixĂĄ com muitas similaridades entre OXUM e OYĂ, pois podemos falar que ela Ă© meta-meta, em uma parte do ano ela Ă© OXUM e na outra ela passa a ser OYĂ, guerreira e destemida, dona da fortuna. Este orixĂĄ tambĂ©m tem seus rompantes, uma hora Ă© doce como um rio calmo e derrepente torna-se uma tempestade. Outra forma de atributo do adjetivo "meta-meta" se dĂĄ tambĂ©m com relação Ă seis meses um OrixĂĄ ser por exemplo Oxum e seis meses esse mesmo OrixĂĄ ser InhasĂŁ, esse no caso da sagrada mĂŁe "Oxum Opara". E Outra forma de atributo do adjetivo "meta-meta" se dĂĄ com relação a divindade Ogum XoroquĂȘ, que Ă© em sĂ mesmo um OrixĂĄ que metade do seu corpo na parte da direita esta com a aparĂȘncia de Ogum e a outra metade na parte da esquerda tem a aparĂȘncia de Exu. Apesar de haver muitas discussĂ”es sobre o termo e o entendimento de meta-meta, e alguns praticantes afirmarem que nĂŁo tĂȘm nada a ver com gĂȘnero ou sexo, e sim apenas "energia" pelo que o quĂȘ se compreende como principio ativo-passivo (yin-yag),como jĂĄ comentamos, para muitas pessoas e povos, gĂȘnero Ă© pura energia e nada mais.
Em Mali, a tribo Dogon geralmente sustenta que o ser humano "perfeito" Ă© "andrĂłgino"; a tribo adora os Nommo, espĂritos ancestrais que sĂŁo descrites como criaturas nĂŁo-binĂĄrias, intersexuais e mĂsticas, e que tambĂ©m sĂŁo referidas como âprofessoresâ. Em um pĂȘnis nĂŁo circuncidado, o prepĂșcio Ă© representativo da feminilidade, enquanto o clitĂłris Ă© considerado para representar a masculinidade.
A Importùncia da cultura Dogon chegou ao mundo ocidental em 1930, quando antropólogos franceses ouviram as lendas des sacerdotes Dogon. O povo Dogon fala de uma raça extraterrestre do Sistema de Sirius, referida como Nommos, que os visitou na terra. Nommos eram uma raça de criaturas humanóides aquåticas, semelhante às sereias. Interessante é que a deusa Isis, da BabilÎnia, era descrita como uma sereia e associada com Sirius. Os Dogons explicavam que o sistema Sirius tem uma estrela companheira, mas não pode ser vista da Terra devido ao brilho de Sirius. Os pesquisadores descobriram artefatos Dogon, datados de mais de 400 anos, que descrevem a órbita destas estrelas. Anos mais tarde, em 1970, os astrÎnomos finalmente tiveram telescópios bons o suficiente para aumentar o zoom em Sirius e fotografaram Sirius B! O povo Dogon estava certo! Sirius de fato tem uma estrela companheira. Conhecido também como sistema estelar binårio na astronomia.
Crenças espirituais africanas em divindades NB foram documentadas entre vĂĄrios outros povos alĂ©m dos povos dogon e egĂpcios. Entre esses, os povos Akan, Ambo-Kwanyama, Bobo, Chokwe, Dahomeans (do Benin), Bambara, Etik, Handa, Humbe, Hunde, Ibo, Jukun, Kimbundu, Konso, Kunama, Lamba, Lango, Luba, Lulua, Nuba, Ovimbundu, Rundi, Shona-Karonga, Venda, Vili-Kongo e Yoruba. E aqui sĂł algumas dessas divindades africanas listada:
Abrao (Jupiter), Aku (MercĂșrio), and Awo (Lua), Aten, Atum, Da (Dahomey), Gran' Silibo / Silibo-Gweto, Ghede Masaka, Ghede Nibo, Hapi, Jok, Mawu-Lisa, Mwari, Logunede, Nana-Buluku, Nyame Amowia, Obasi, Obatala, Olokun, Oshumare / Oxumare, Rat, Shai/Shait, So (Dahomey), Wadj Wer.
Atualidade.
Algumas pessoas trans/nĂŁo-binĂĄrias afrodescendentes estĂŁo realizando analogias entre suas identidades de gĂȘnero, transiçÔes e deuses, utilizando o nome de algumas divindades africanas para descreverem suas experiĂȘncias e identidades. Nascide em Umuahia na NigĂ©ria, Akwaeke Emezi, ume artista audiovisual e escritore, vĂȘm se definindo como Ogbanje depois que se descobriu trans nĂŁo-binario. Ela ou ele percebeu isso Ă cerca de cinco anos e desde entĂŁo passou por cirurgias para remover o Ăștero. Segundo Ă©le "Um ogbanje Ă© um espĂrito da cultura igbo nascido em um corpo humano, um tipo de trapaceiro malĂ©volo cujo objetivo Ă© atormentar a mĂŁe humana morrendo inesperadamente, para retornar ao prĂłximo filho e fazer tudo de novo. Eles vĂȘm e vĂŁo"... "Ogbanje , no entanto, sĂŁo intrusos neste ciclo, desvios indesejados. Eles nĂŁo vĂȘm da linhagem; eles vĂȘm do nada. Como tal, Ă© importante para um ogbanje nunca se reproduzir: se o fizesse, contribuiria para a linhagem e, quando morresse, seu espĂrito se uniria aos humanos, participando de seu ciclo de reencarnação." e para Emezi isso diz muita sobre sua identidade e transição "A remoção de um Ăștero Ă© uma maneira eficiente de garantir que isso nunca ".
Emezi tambĂ©m critica a forma ocidental extremamente rigida, cientifista, careta e temerosa como tratamos de gĂȘnero, sem dĂĄ atenção Ă s intersecçÔes filosĂłficas e espirituais africanas:
"Nossa linguagem em torno da identidade de gĂȘnero Ă© frequentemente tĂŁo ocidental, como podemos cruzar isso com as realidades nĂŁo ocidentais? Por exemplo, existe um termo para a disforia experimentada pelos espĂritos que se encontram incorporados na forma humana? Ă inevitĂĄvel eu ser atraĂde por essas sobreposiçÔes, jĂĄ que eu moro lĂĄ (Ăfrica), habitando realidades simultĂąneas que geralmente sĂŁo consideradas mutuamente exclusivas."..." O legado do colonialismo sempre nos ensinou que tal coisas nĂŁo Ă© real, que nĂŁo passava de juju e superstição. Quando finalmente aceitei sua validade, pensei o que isso poderia significar para meu gĂȘnero. SerĂĄ que mesmo Ogbanjes possuem sexo ou gĂȘnero para começar? Sexo e gĂȘnero Ă©, afinal de contas, uma coisa tĂŁo humana. No entanto, ser trans significa ter qualquer gĂȘnero diferente daquele atribuĂdo Ă vocĂȘ no nascimento. Quer Ogbanje seja um gĂȘnero, quer seja ele sem ou com gĂȘnero, realmente nĂŁo importa, ele ainda conta como uma categoria distinta, entĂŁo talvez minha transição nĂŁo estivesse localizada dentro de categorias humanas. Em vez disso, as cirurgias foram uma ponte entre as realidades, um movimento de ter sido feminino passando a me identificar como ogbanje ; um espĂrito personalizando sua embarcação para refletir sua natureza..."
https://www.thecut.com/2018/01/writer-and-artist-akwaeke-emezi-gender-transition-and-ogbanje.html?fbclid=IwAR16Bl_fIF3RYlnFbGh6V92cbxO8vz_ldSAZ6dCxWYvznHn4LhnCObnL9uo
Os colonizadores europeus conheceram pessoas nĂŁo-binĂĄrias, aconselhando reis, sendo lĂderes espirituais, e guerreires da corte entre naçÔes e tribos diversas. O animismo, paganismo, cristianismo e o islamismo coexistiam. A diĂĄspora nĂŁo Ă© diferente; HĂĄ muitos exemplos aqui no Brasil, no Haiti, nos EUA e em Cuba, onde descendentes de africanos quebram nossas expectativas normais "de homens e mulheres" cis diĂĄdico.
âApesar de uma longa histĂłria de realidades trans na Ăfrica, muitas pessoas trans modernas experimentam um medo bem garantido por causa da hostilidade de suas famĂlias, tribos ou naçÔesâ, escreve GG Bolich. âGrande parte desta moderna resposta hostil foi colocada sobre a influĂȘncia da cultura europĂ©ia, tanto por causa de um passado colonial quanto por causa da pressĂŁo contemporĂąnea, ou a influĂȘncia de religiĂ”es estrangeiras. No entanto, como no passado, agora as pessoas trans sĂŁo membros ativos de suas comunidades, buscando mudanças positivas. â
"Mas, se em tempos pós-coloniais, os sujeitos históricos tem voz, é chegada a hora de também repensar a maneira como nos denominamos a nós mesmos e uns aos outros. " (Jaqueline Furacão, Ramirez, em Privilégio dos Nomes)
Ă entĂŁo, chegada a hora de aceitar e trazer Ă tona temas com quais nĂŁo necessariamente gostarĂamos de lidar, e isso eu estou falado pra vocĂȘ pessoa cis ou trans binĂĄria de gĂȘnero, que nĂŁo gosta ou se sente confortĂĄvel com a questĂŁo da nĂŁo-binariedade e os milhares de termos inventados por aĂ, e por consequĂȘncia disso maltratando pessoas nĂŁo-binĂĄrias sem se importar se isso Ă© ou nĂŁo opressĂŁo, sem re-conhecer nossa histĂłria, nossa luta, nossa naturalidade, e os impactos disso em nossas vidas.
Eurossexismo: conjunto de opressĂ”es de gĂȘnero, machista e binĂĄriaÂ
praticadas pelos colonizadores.
Autore: Dani Camel
Postado originalmente na pĂĄgina NĂŁo-Binariedade HistĂłrica e Social de GĂȘnero e Sexo
REFERĂNCIAS/BIBLIOGRĂFICAS/LINKS ĂTEIS:
Bresciani, Edda . "Chapter 8: Foreigners". In Donadoni, Sergio (org.). The Egyptians. University of Chicago Press. 23 June 1997. p. 222. ISBN 978-0-226-15556-2.
WILHELM, Amara Das. Tritiya-Prakriti: People of the Third Sex . FiladĂ©lfia: Xlibris Corporation, 2004. DisponĂvel em: < https://books.google.com.br/books?id=iZ5RAAAAQBAJ&pg=PA233&lpg=PA233&dq=sagoda%20%E2%80%94Konso&source=bl&ots=PKGriXyL6P&sig=QX0gomgauGevHS3cWkLQvsLsx5k&hl=ptBR&sa=X&ved=2ahUKEwjqse64yrPeAhXGIJAKHRNUBdIQ6AEwDHoECAEQAQ&fbclid=IwAR19mTIY4L1iSEdJFJL8Rtjw7MUvojab_c-NN8GuIO2ytwQ81te__uvFPzY#v=onepage&q=sagoda%20%E2%80%94Konso&f=false> Acesso em: 11 de dez . de 2018.
Bolich, Ph. D. G. G.Transgender History & Geography: Crossdressing in Context. Vol 3. Carolina do Norte: â Psyche's Press, 2007Â
NZINGA, a rainha negra que combateu os traficantes portugueses. Geledes, 2015. DisponĂvel em: <https://www.geledes.org.br/nzinga-a-rainha-negra-que-combateu-os-traficantes-portugueses/?fbclid=IwAR0t3n2nnFc_iHc9FuzT0RlJppribFB5RsywqsCAFnq6YC5o6OKPnu7GDSQ>
COLLINS, Shanna. The Splendor of Gender Non-Conformity In Africa. Medium, 2017. DisponĂvel em: <https://medium.com/@janelane_62637/the-splendor-of-gender-non-conformity-in-africa-f894ff5706e1. Acesso em: 11 de dez. de 2018>
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Expansão årabe e os impérios africanos | https://www.ricardocosta.com/artigo/expansao-arabe-na-africa-e-os-imperios-negros-de-gana-mali-e-songai-secs-vii-xvi?fbclid=IwAR0J3BUpa-o39oGaN15LWeZnoxIrhpcd-upPz4xy1PU8X25WCJ43miQ3bFM
https://creadnyc.com/2018/03/02/what-black-history-can-teach-us-about-the-gender-binary/?fbclid=IwAR2QQWI7ZLw5cottA1FHLegIaegaTrj-cpAgvpLY3vOY_DyPR1ETRnbgAoI
Lista de deidades queer | http://www.drakeinnerprizes.com/Downloads/SS-Queer-AndrogynousDeities.pdf?fbclid=IwAR0kW7OOzd9Ig69YjJcN1avieOgW2rNCb7CBK8CbkcigijRVa3f9I6q8_eg)
SeminĂĄrio - About the concept of queerness in the African context (https://wikis.fu-berlin.de/display/queer/About+the+concept+of+queerness+in+the+African+context?fbclid=IwAR2so3GI8nPs935ZReVZ0PPOrEC6aihrXbZ_R-FR64InWTC7cnt3BbjzXlw#AbouttheconceptofqueernessintheAfricancontext-3.Queerpracticesintradition,history,cultureandsociety)
http://www.catalyzingchange.org/dogon-tribe-africa-extraterrestrial-history/?fbclid=IwAR3sNWpDAvOoyf27B6WIEnbEl6gVqbBhMfa5TfOxdrCKxZLlb5MBhuva5lA
OrixĂĄ meta-meta e Ogum XoroquĂȘ |Â https://www.webartigos.com/artigos/orixa-meta-meta-e-ogum-xoroque/143850?fbclid=IwAR3yuq88OBFwDtvFuTDyFWw9QXgr4hDxMqnsXcHNL8mvqZ2_NNQJGJuNGT4)
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