O GUARDIÃO DA IMPERFEIÇÃO: BES (ANTIGO EGITO, ~2400 a.C.)
Se viajarmos ao Egito Antigo, encontraremos templos colossais dedicados à perfeição: estátuas de faraós com corpos idealizados, olhares serenos e postura rígida. Eles representam a ordem, o poder, a tentativa humana de ser imortal e imutável.
Mas, ao entrarmos na intimidade das casas, nos quartos onde as mulheres davam à luz e onde as crianças dormiam, encontrávamos uma figura muito diferente: Bes.
Bes é o deus anão. Diferente dos outros deuses, ele quase sempre é representado de frente, quebrando a regra da arte egípcia. Ele tem pernas tortas, barba desgrenhada e, frequentemente, está mostrando a língua. Ele é grotesco. Ele é ridículo. E, exatamente por isso, ele é poderoso.
Os egípcios acreditavam que o mal não suporta o ridículo. Bes usava sua "feiura" e sua alegria profana para assustar os demônios que rondavam o sono e o parto. Ele é a prova ancestral de que o riso não serve apenas para divertir, mas para proteger.
Enquanto o Faraó tentava ser divino negando sua humanidade, Bes protegia a humanidade assumindo sua forma mais crua e imperfeita. Ele é um dos primeiros registros históricos do "Ponto Zero" atuando como escudo espiritual.