O Brasil é um fruto da colonização e da violência. O paÃs encarou ao longo de sua história, séculos de escravidão, genocÃdios, imperialismo corrupto e ditaduras presidenciais. Depois de décadas de unificação popular, uma nova democracia seria reescrita, desta vez pelo seu próprio povo. Passaram-se a conquistar cada vez mais direitos para os cidadãos marginalizados. A justiça estava sendo reivindicada aos herdeiros da opressão, a qual agia contra qualquer um que nascesse fora da elite dominante, cuja composição numérica era bastante restrita e um perfil muito especÃfico.
Essa organização humanitária e a promoção de uma possÃvel igualdade não era bem vista pelos olhos de um sistema que se constitui na divisão de classes. Esse sistema tradicional brasileiro entrou em sinal de alerta e decidiu reagir com extremismo. PolÃticos utilizaram táticas antigas para manipular a população e impulsionou seu ressentimento quanto ao discurso de prometer uma mudança de vida que nunca chegava. O plano de ceifar direitos das classes baixas era mascarado com o moralismo de condutas e conspiracionismo contra os próprios instrumentos da democracia.
Claro que não foram todos que foram convencidos por essa fachada, tampouco tornou amigável a visão entre os que acreditaram e os que não acreditaram. Essa tensão instigada no povo pelas divergências polÃticas provocou um novo tipo de exclusão social. Pessoas brigavam com suas famÃlias, saÃam de empregos, deixavam de criar relacionamentos e a frustração com esse cenário fez com que a outra parte da sociedade quisesse assumir uma postura radical. Ideologias nichadas em universidades se expandiram para o povo e novos polÃticos entraram na disputa.
As eleições transformaram-se em perÃodos de verdadeira guerra. Não só a violência nas ruas aumentou, mas também nos ambientes virtuais. Pessoas comuns perdiam seus perfis pessoais, pelo ataque dos tradicionalistas, caso elas apoiassem qualquer demanda por direitos humanos. Petições populares feitas por sindicatos trabalhistas eram roubadas ou destruÃdas e até mesmo ecossistemas e monumentos históricos eram alvo de degradação.
Quando o outro lado tentava virar o jogo, indústrias e bancos faziam uma intervenção. Tudo que afetasse o andamento do mercado seria capturado pelos tradicionalistas e transformado em um pânico moral de altas proporções, e teria sua oposição silenciada de diferentes formas. Boicotes voluntários eram feitos aos serviços públicos, mesmo por aqueles que não tinham dinheiro para pagar o privado. Essas pessoas se endividavam aos montes e buscavam renda extra por meio de jogos de apostas e azar, pois passaram a ser legalizados em todo o paÃs e estavam em propagandas diárias.
Com o passar dos anos, a terra tropical abençoada por Deus se tornou uma realidade assustadora e cruel. Mesmo com todo o regresso ecológico e social, uma população mentalmente afetada e socialmente prejudicada, mortes frequentes de figuras polÃticas, trabalhadores desamparados e um alto número de famÃlias em situação de rua ou desnutrição, a polarização era planejada, promovida e validada o tempo todo. Esse estado de metade-metade parecia uma rua sem saÃda e, por anos, ninguém achou que isso fosse melhorar.
Até que no começo da década de 2030, um acordo foi proposto: para evitar a guerra civil iminente, a população brasileira deveria estar geograficamente dividida e a bancada polÃtica deveria ter uma representação vinda de cada parte. Nos interiores e litorais dos estados, viveriam os tradicionalistas e seus Ãdolos, enquanto nos centros urbanos estariam as pessoas de oposição. À essa altura, não existia neutralidade, e em questão de dois anos, quase toda a população estava realocada.
Isso diminuiu momentaneamente a explosão de conflitos. A maior jogada do radical antagônico foi a preservação da ciência e a proteção de crianças e adolescentes em condições subumanas. Para a conclusão desse objetivo, surgiu o projeto Logus. Ele consistia em levar órfãos menores de idade para edifÃcios apropriados, no qual eles seriam cuidados e teriam como tutor um cientista voluntário.
Nesses edifÃcios, os jovens cresceriam e teriam contato com os estudos mais brutos de todas as áreas cientÃficas. Apenas após completar 19 anos, eles ganhariam uma identidade civil para ter a vida de um cidadão comum.
Antes disso, era essencial que cada jovem desenvolvesse um projeto de utilidade social e o apresentasse para o Comitê Nacional de Ciência, um órgão responsável por desmentir conspiracionistas e garantir condutas para a qualidade de vida baseada em fatos. Após essa cerimônia anual, o EdifÃcio se despedia de uma nova geração armada contra a alienação dos tradicionalistas. O projeto, até então, estava tendo sucesso e havia tirado inúmeras crianças e adolescentes de uma vida miserável.
Assim, vivia a famÃlia Aubert. Seis irmãos, adotados pela polêmica Dra. Beatriz, que faleceu há pouco tempo. A perda de Beatriz, uma mulher que era ao mesmo tempo reverenciada e criticada, trouxe uma grande instabilidade para a famÃlia. Seus filhos adotivos, cada um com um passado de dor e perda, agora se viam à deriva, sem a orientação da mulher que lhes deu uma nova chance na vida.
Essa história é sobre realidades que, à princÃpio, são acolhedoras, mas que no fundo guardam a herança de uma violência que nunca deixou de existir.