Hoje é aniversário de 78 anos do mestre Gilberto Gil.
Todas as vezes que vi Gilberto Gil no palco, ele parecia alto. Talvez porque sempre estivesse de branco - monocromático alonga a silhueta, meninas. Eu, que cresci ouvindo Chico e Caetano, acho que demorei muitos anos para entender que Gil é gigantesco.
Há várias versões de Gilberto Gil.
Gil ali, finalzinho da década de 60 cruzando com os anos 70: estilosérrimo, intrigante, intrigado também, pois muito questionador.
O Gil romântico, que é capaz de propor casamento em “Estrela”; e também compôs a mais linda canção de desamor, a música que deixa claro o não-arrependimento e o “vai ficar tudo bem” do pós-relacionamento - a musa mais interessante da MPB é a protagonista de “Drão”.
Mas hoje venho falar de “Back in Bahia”.
Nesses três anos em São Paulo, só agora dei pra sentir saudade da Bahia. Deve ser pelo tanto que fiquei presa em casa e São Paulo é um exílio terrível, fica uma sensação de que não há esperança. Quando a pandemia acabar, não vou correr imediatamente para o mar - “mar da Bahia, cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar” - não há mar aqui e me recuso a conhecer praias paulistas, sei que não será a mesma coisa, me respeitem, eu vim da Bahia e um dia volto pra lá. Nem se compara, nem alivia.
Um dos últimos shows ao qual compareci em Salvador foi aquela comemoração às décadas de música de Gil e Caetano. Minhas referências musicais dividindo o palco e eu de frente para ambos. Nem foi a última vez, pois no carnaval seguinte Moreno Veloso cantou com sua banda e convidou Gil, Caetano foi a presença “surpresa”, nossa, ninguém esperava.
Mas no primeiro show da minha vida de Gil e Caetano, fiquei impressionada mais com Gil do que com Caetano. Talvez porque show do Caetano é tipo um bate-ponto para mim, enquanto vi Gil poucas vezes entre carnavais e festas juninas. Ouvir “Back in Bahia” pela primeira vez em versão ao vivo foi como um presságio. Quando o registro daquele show saiu, era a música que eu ouvia sem parar, cantava junto. Hoje, em São Paulo, uma vez por semana estou cantarolando “Back in Bahia” pela casa.
“Lá em Londres, vez em quando, me sentia longe daqui”, sabe, é assim que começa. É Gil voltando do exílio, pois a canção é de 1972. Ele passou três anos fora, assim como estou há três anos em São Paulo. Claro que as circunstâncias de estar num lugar que não é o seu são diferentes. “Back in Bahia” é uma canção que celebra em termos de comparação duas localidades. Sem forçar a barra, dá para sentir nela essa inadequação cultural, e tudo que é de berço parece muito melhor, ainda que o estrangeiro e o europeu pareça a melhor opção para todo mundo. Passei anos em Salvador ouvindo das pessoas que São Paulo é a minha cara. Não poderiam estar mais equivocadas, pois quem vê cara não vê coração. E meu coração é completamente soteropolitano, pedra do Pelourinho e areia do Porto da Barra.
Tento encontrar alegrias em São Paulo, mas não é fácil. Parece que não me esforço, é verdade que me esforço bem pouco. Mas tenho que agradecer por São Paulo ter me transformado em gente, ter me dado uma noção macro do que é certo e errado. São Paulo é uma pancada. Mesmo. Também sempre ouço que só fica em São Paulo quem é forte. Fácil é chegar, difícil é ficar - vi muita gente ir embora, principalmente nordestinos que são vistos como tais, o que não acontece comigo (não tenho sotaque baiano, por exemplo e nem pareço baiana. Dizer que sou baiana sempre surpreende paulistanos). Três anos aqui, talvez eu seja um pouco forte sim, entre um surto e outro, mais do que esperava.
Hoje eu me sinto como se ter vindo fosse necessário para voltar. Sabe lá Deus quando volto, provavelmente terei as férias canceladas. A estranha sorte de não ter comprado passagens para Salvador e Rio de Janeiro, para agosto desse ano. Ano de pandemia, ano perdido - férias para quê, se não posso sair daqui? Férias para quê, se meus pais são do grupo de risco e não vivo mais um romance carioca? O incrível azar de sentir saudades da minha terra exatamente quando impedida de sair do lugar.
Parabéns Gil, e o clichê: aquele abraço! Em agosto, com o melhor amigo do Gil como aniversariante, volto para falar que São Paulo é como o mundo todo: no mundo, um grande amor perdi.