Tudo muda, o tempo todo, e eu não posso evitar.
Venho me sentindo muito mais velha do que sou, eu realmente esqueço minha idade algumas vezes e chuto que tenho vinte e cinco. Falta ainda dois anos para isso.
É engraçado, porque dois anos atrás eu ainda me sentia muito jovem. E agora que digitei isso, penso na música I felt younger when we met...
Eu nunca dei muita atenção para essa música, não estava planejando falar sobre ela, mas a terapia que é escrever me obriga mencionar.
A música encerra Fandom, um álbum sobre o luto de um término. O vocalista da banda em uma entrevista mencionou sobre como ele fez muito tempo de terapia para lidar com o término de seu relacionamento e percebeu como o luto na verdade é um ciclo. Tem altos e baixos, e sempre acaba voltando pro mesmo lugar, por isso, I felt younger when we met termina se conectando à primeira faixa, Cherry Red.
Eu sem querer me identifiquei com essa música, pois vivencio o luto de finais de relações (românticas e afetivas) muito similar a como Awsten vivenciou.
O desgosto de ter se permitido ser vulnerável com quem não merecia, e as noites em claro desejando que o culpado saiba como isso te fez mal. Os trechos sobre como ele vendeu todos os discos para voar e encontrar sua ex-namorada me assimilaram muito a como eu também invisto dinheiro que nem tenho para me dedicar a quem eu amo.
Eu odeio me identificar com as músicas do Waterparks, não pelas suas histórias, igual me identifico à Taylor, mas porque me identifico com os sentimentos. Muitas das músicas deles são sobre sentir raiva de algo... Eu sinto raiva o tempo todo.
Como pode o mundo continuar seguindo sem minha melhor amiga por perto? Por que eu sinto raiva de mim mesma? Eu sinto que tudo está fora do lugar e só consegui voltar a ter um sono decente nos últimos três dias. Por que eu torno isso sobre mim? Qual direito eu tenho de tornar isso sobre mim? Ela me odiaria por escrever esse texto ou ela entende como eu amo ela?
Ela vai ter tempo de perceber que eu não sou alguém que quer ter por perto?
Ela diria se não quisesse me ver mais?
Eu me pego pensando como a vida dela vai mudar... Isso vai ser um trauma ou ela vai levar com leveza no futuro?
Talvez eu goste tanto do Fandom porque ele retrata o término de uma maneira tão crua que é fácil de aplicar a outras situações. O conceito do processo de cura não ser linear é muito similar ao que eu sinto.
Alguns dias eu estou bem, decidida, eu não preciso de quem me machucou na minha vida. É, é sua perda, não minha. Porém em outros momentos tudo volta, a dor, a solidão, a traição. A vontade de gritar aos quatro ventos que eu sei o que ela fez e tentou esconder de mim... A busca por uma justiça que nunca vai existir.
E o pior é saber que eu revivo isso porque é confortável. É uma dor que eu conheço há meses e que eu sei onde termina... Termina comigo percebendo a verdade. É um final feliz! Por que então eu não consigo enterrar?
Talvez eu tenha medo de mudar.
O que é uma Sophia confiante de si? Eu não sei. Eu acho que eu tenho medo.
A insegurança é uma corda que me prende para que eu não exagere. Eu não posso deixar que as outras pessoas realmente saibam como eu sou, porque isso as afastaria de mim. Todo mundo que já viu meu pior lado se afasta.
Eu sou cheia de raiva e perco a linha quando percebo que me deixaram decepcionaram. Já ouvi mais de uma vez que minhas palavras machucam quando brigo... Então não deveriam me magoar! Se eu fico desconfortável, você também ficará.
Todo mundo tem um motivo para me odiar... E mesmo assim não é todo mundo que me odeia.
Alguns amigos meus viram minhas piores faces, discordaram de mim, brigaram comigo, e mesmo assim eles continuam ao meu lado. Isso é tão esquisito. Quase me faz acreditar que amizade é assim... Ela não é perfeita e não é linear, tem altos e baixos e quase sempre volta para o mesmo lugar.
Algum dia quero confiar em mim mesma, sinto que cada vez mais esse dia se aproxima. Eu já sei o que eu quero e entendo o que eu sinto, o que me falta é ter a confiança de mostrar minha verdadeira face para pessoas que não me conhecem ainda.
Eu quero aceitar as mudanças em mim, nas minhas amizades, nos meus relacionamentos, na minha família, no meu corpo, nas minhas habilidades, na minha rotina, na minha vida. Não acho que isso as tornará tão mais fáceis, mas me fará as temer menos.
Me pego pensando nas palavras que nunca mais vou dizer, nas pessoas que uma vez me despedi sem saber, nos hábitos que morreram e os lugares que nunca mais vou visitar.
Cara... Eu amava ir à chácara e sempre ansiei pelo dia que eu iria jogar rpg lá, e isso nunca vai acontecer. Isso foi arrancado de mim. É ridículo pensar que ainda sequer considero querer saber o que ela sente da minha dor sendo que dou tão pouco valor às suas palavras hoje em dia. Não consigo valorizar o que não sei se é verdadeiro. É meio por isso que nunca gostei de ler fanfic.
Quando o Sizzles, meu cachorrinhozão de infância morreu, eu me despedi dele uma última vez com seu corpo desacordado. Falei que o amava. Eu nunca mais falei "eu te amo, Sizzles", e só a ideia de falar isso me traz a lágrimas.
Eu sequer tive o corpo do Luan para me despedir. Eu falei "boa noite, Luan" para minha estante vazia, onde ele dormiu seus últimos dias. Agora, um rádio está em seu lugar. Ridículo.
Eu passei todos os meses que o meu gatinho Luan passou comigo sofrendo por causa de gente que não merecia meu sofrimento. Por gente que me olharia e me chamaria de vitimista, que daria a porra de um prazo pra minha dor. Que me socou na cara e ficou reclamando de minha pele ainda estar roxa, e ainda me disse que eu colocar gelo que me deu para desinchar meu rosto a deixava culpada.
Não sou uma pessoa de arrependimentos, mas disso eu me arrependo. Ficar cega de raiva não me fez olhar para o ser que dormia comigo todas as noites. Passei noites chorando pensando que queria que soubessem como eu estava sofrendo e sequer o agradeci por estar ali comigo. Eu me arrependo disso. Me arrependo de ter permitido isso acontecer comigo.
Eu me culpo tanto por ter machucado meus amigos com isso, e eu fiz terapia o suficiente para entender que não é minha culpa, que isso é apenas uma consequência da dor me foi infligida, então eu sinto raiva de sentir culpa. Caralho, eu realmente sinto raiva de tudo!
É por isso que eu odeio me identificar com as músicas do Waterparks. Eu odeio como a raiva domina cada célula do meu corpo e me cegar das coisas boas ao meu redor. Eu sempre tive tantos amigos bons, que realmente gostam de mim, por perto.
Eu sei que tudo muda, mas eu espero que o amor deles, se é que eles sentem isso por mim, não mude. Estou cansada de aprender através da dor, é possível aprender com o amor, e eu torço todos os dias para que o futuro seja um pouco mais gentil comigo, porque tudo está em constante mudança, e não tem nada que eu possa fazer para evitar.