A sua escuridão nunca foi um problema. Os seus demônios jamais me assustaram. Você sabe disso.
Desde o começo, eu enxergava algo que quase ninguém parecia notar. Por trás de todas as máscaras que você vestia, existia um menino cansado, escondido entre cicatrizes que o tempo nunca conseguiu apagar. E, por mais que você tentasse convencer o mundo de que já não precisava de ninguém, os seus olhos sempre contavam uma história diferente.
Talvez esse tenha sido o nosso maior conflito.
Você nunca teve medo de mim. Teve medo do que acontecia quando eu estava por perto.
Porque eu atravessava as suas sombras sem me perder nelas. Caminhava pelos cômodos escuros da sua alma como quem procura uma janela esquecida, até encontrar um feixe de luz que nem você acreditava que ainda existisse.
Ela revela aquilo que a escuridão passou anos escondendo.
Cada vez que eu tocava uma das suas feridas, você era obrigado a lembrar que ainda existia um coração vivo sob tantas cicatrizes. E um coração que volta a sentir também volta a sangrar.
Então você fez o que sempre fez para sobreviver.
Feriu antes de ser ferido.
Como um animal acuado que confunde carinho com perigo, cravou as unhas em quem apenas tentava se aproximar. Acreditou que, se me machucasse o suficiente, eu iria embora. Que, se me afastasse antes, nunca correria o risco de ser abandonado depois.
Mas eu já conhecia a verdade.
Sabia que os seus silêncios nunca foram ausência. Eram pedidos de socorro pronunciados numa língua que quase ninguém aprendia a entender.
Sabia que a sua frieza não era falta de amor. Era medo.
Medo de entregar o coração para alguém e, mais uma vez, vê-lo partir.
E, mesmo sabendo de tudo isso, eu fiquei.
Não porque acreditasse que poderia salvá-lo. Ninguém salva alguém que ainda não acredita merecer ser salvo.
Eu fiquei porque amar você nunca significou lutar contra os seus demônios. Significou sentar ao lado deles sem desviar os olhos, esperando o dia em que você percebesse que eles nunca foram mais fortes do que a luz que ainda existia dentro de você.
Mas foi justamente isso que o assustou.
Você esperava rejeição. Esperava julgamento. Esperava que eu desistisse quando encontrasse as partes quebradas da sua alma.
Em vez disso, eu permaneci.
E talvez não exista nada mais assustador para alguém acostumado ao abandono do que descobrir que alguém escolheu ficar.
Porque permanecer exige coragem.
E ser amado exige uma coragem ainda maior.
No fundo, você nunca acreditou que pudesse ser amado sem precisar esconder as próprias cicatrizes. Passou tanto tempo convivendo com a escuridão que ela deixou de ser apenas um lugar. Tornou-se a única companhia que conhecia.
Foi por isso que teve medo de mim.
Não porque eu pudesse destruir os seus demônios, mas porque eu os fazia perder espaço.
Porque, quando eu segurava a sua mão, eles já não eram a única voz que você escutava.
Quando eu olhava para você, eles deixavam de ser a única verdade em que acreditava.
E, pouco a pouco, você começava a perceber que nunca foi um monstro.
Foi apenas um menino ferido, tentando sobreviver da única maneira que aprendeu.
Talvez eu nunca tenha sido o amor que você acreditava merecer.
Mas fui, por um instante, o espelho que mostrou a você que ainda existia luz onde só enxergava noite.
E talvez essa tenha sido a parte mais dolorosa da nossa história.
Porque, às vezes, não é a escuridão que nos prende.
É o medo de descobrir que sempre existiu um caminho de volta para a luz.