William que geralmente tinha um perfil reservado e fechado, que causava medo e até arrepio em alguns campistas, ao mesmo tempo que incitava uma curiosidade por sua personalidade misteriosa, não passava de um homem sensível. Ele sentia, se importava, colocava os outros em primeiro plano, demonstrava carinho quando achava que deveria e cobrava quando achava que não recebia uma porção justa. Este homem, que quando Zaya virou-se de frente para ele, teve que segurar a expressão triste e manter-se firme, suspendendo qualquer sinal de que poderia chorar junto com ela. E não por alguma questão machista, de não querer se mostrar vulnerável, pois mais uma vez, ele não tinha problema com isso. Mas porque ele entendia que naquele momento, um deles precisava estar firme e forte, para apoiar o outro. E ele seria o pilar de Sazaya, se assim ela quisesse.
Um suspiro rompeu seus lábios ao ouvir as primeiras palavras, e por dentro ele se sentiu mais pesado. As orbes negras fixas nas verdes dela, não buscavam por respostas, apenas tentavam passar compreensão. Um dos braços continuava envolto em sua cintura, não se rompeu com o momento que ela fez ao virar. E a mão livre subia em direção a face, o rosto pequeno se perdia em sua palma. Dedos no alcance da nuca, polegar em sua bochecha, tentando secar as lágrimas remanescentes. Mas assim como ela, Billy percebeu que era um movimento em vão. Não tirou a mão, não parou o polegar quieto, escolheu continuar o movimento como uma caricia. “Não quis ser cruel, quis respeitar você e sua escolha, pois você tem o direito de romper nossa relação quando quiser.”. O tom suave, doce até, tão distinto do que comumente usava com ela nos seus momentos de conversas amenas, onde era sempre divertido, provocativo algumas vezes.
Fechava o círculo do braço envolta da cintura alheia, mantendo-a perto, demonstrando que estava ali e que não sairia. Suas palavras podiam conter maturidade, sinceridade e compreensão. Mas a verdade é que William não entenderia caso Zaya quisesse se afastar. Respeitaria sempre, mas entender? Seria impossível. Impulsivamente, inclinou o rosto a frente, encostando a testa na da menor. Os olhos fecharam instintivamente, para que pudesse pensar, para que pudesse focar e principalmente sentir. Sentia a diferença no ar, a tensão que se instalava pelas palavras e possibilidades não ditas, sentia a respiração descompassada de Sazaya, assim como o calor que emanava dela. Sentia sempre o cheiro das flores e amêndoas. Despertou quando ela tornou a falar, afastando-se novamente para que pudesse fitá-la, mas seus olhos corriam dos de Blue.
“Então não faça.”. Buscou novamente o contato visual, inclinando o rosto para onde julgava que os olhos haviam se fixado, mas sem sucesso. Decidiu então ser breve e se silenciar para não atrapalhar os argumentos da mais nova. E por mais que ele entendesse, por mais que não quisesse diminuir a forma como ela estava se sentindo, pois quem era ele para invalidar o sentimento de alguém? Ele ainda assim não concordava. “Você acha, mas você não chegou a me perguntar, nem considerou algo diferente. Realmente eu não tenho a obrigação de treinar você, eu nunca tive.”. Ok, o senhor M. pediu especificamente que ele fizesse um esforço, mas depois da primeira aula, e de reconhecer o potencial nela, nada mais era um esforço, era prazer. Gostava de dividir o coliseu com Zaya. “Eu fiz porque eu me identifiquei com você. O Coliseu é o meu lugar, assim como é o seu. Lutar é onde eu sou bom, é onde você é boa.”. E realmente era, não media palavras para dizer o quando Zaya era sua favorita no ringue. Falava para quem perguntasse, sem preocupações. “Já disse que não quero isso. Quero você.”. Repetiu parte das palavras, sem se preocupar com o que ela entenderia a partir dali, pois ele sabia bem o que queria dizer. Não desistiria do que eles tinham, não tão fácil assim.
A última sentença foi como o golpe final, o banho de água fria. Todo o esforço que fizera para não demonstrar que estava internamente abalado, para servir de apoio e rocha para ela, caiu por terra. O olhar abaixou e os lábios se curvaram igualmente para baixo. Expirou demorado e pesado, os ombros fazendo a movimentação de descer. Mas o braço e a mão continuavam onde estavam. Dedilhou a nuca da mais nova, como uma massagem, no instante em que repousou o rosto na curva do seu pescoço. Sentia a região ficar úmida pelas lágrimas, a respiração abafada e quente contra sua pele, provocando arrepios involuntários nos pelos da nuca e braços. “Talvez sejamos eles.”. Disse com pesar. Pois reconhecia as similaridades entre os deuses das oferendas de sangue, assim como reconhecia as similaridades entre Sazaya e ele. “E mesmo assim, ainda somos melhores do que eles.”. o riso saiu soprado, como se nem ele acreditasse naquilo, mas acreditava. “Pois você conseguiu se abrir comigo, não só hoje. E eu vou conseguir te pedir o que eu tanto quero, o que realmente me trouxe aqui.”. Suspirou, tomando a liberdade de desaninhá-la, puxando o rosto de volta para a sua frente, pouco depois do pedido de desculpas. Seus olhos buscando pelos dela, tão verdes ainda, tão perto. “Me deixe ficar.”. completou, sempre colocando o poder nas mãos de Zaya, por mais que ela não quisesse tê-lo.
A parte de Sekhmet que habitava o cerne de Sazaya alertava-a para recuar, engolir aquelas lágrimas todas e colocá-lo para fora o mais rápido possível. A parte de sua mãe que havia em si a avisava para não confiar nele, em um homem, em um filho também da guerra e do sangue; contudo, o lado da Haernzah que ela havia herdado de seu pai, parecia assegurar que depois dali, tudo ficaria bem. Era como se Abjaad soprasse em seu ouvido instruções para confiar em William, não temer mais o que poderia fazer com ele desde a fatídica noite anterior em seu chalé; algo como uma brisa muito, muito suave, correndo pela altura de seus tornozelos, indo de encontro à volta que o braço dele dava em sua cintura, em um sinal que ela logo compreendeu, no instante seguinte, na verdade se tratar como sendo a respiração do mais velho, trazendo-a de volta à consciência, à realidade, após aquela breve desassociação, num movimento que quase poeticamente, perto do literal, fazia soprar-lhe alguma vida em meio ao caos que a consumia agora.
Então, seus olhos acabaram voltando para os dele. A massagem em sua nuca tendo sido bem recebida, a respiração voltando a se acertar aos poucos, as bochechas beirando a normalidade em seu tom... Até as palavras seguintes. No exato momento em que ela havia respirado fundo, e por pouco não havia se engasgado: era esquisito para Sazaya estar ouvindo aquilo de William quando ele deixara claro com tantas letras que... Nada demais. Nada que merecesse ser lembrado agora, não enquanto havia a parte dela que dizia que as palavras alheias remetiam ao fato do filho de Taranis não querer uma tarefa mais fácil, ou seja, alguém menos problemático, para treinar. Ele a queria, a queria por perto e, como demonstrou, a queria em sua vida. E isso bastava para a Haernzah, considerando como nunca estivera habituada a ouvir das pessoas a seu redor que a queriam como companhia para além do tempo estipulado pelas imposições ou convenções sociais.
Por fim, suas mãos acabaram indo, de maneira praticamente involuntária, até a altura dos ombros do Blue. As unhas pontiagudas roçando levemente na lateral do pescoço dele conforme os dedos se agitavam brevemente ao que ela ria baixo e assentia; algumas lágrimas teimosas ainda descendo, molhando suas bochechas e fazendo seus olhos brilharem ainda mais sob a luz baixa daquela parte de seu quarto. A risada, inclusive, soando fraca por conta da rouquidão presa na garganta feminina devido ao nó de desespero que a consumira instantes atrás e que se desatava somente agora conforme seu corpo relaxava um pouco mais, por mais difícil que essa tarefa fosse (como lhe lembravam aquelas novas cicatrizes todas, que em breve voltariam a repuxar e incomodá-la).
“Não é como se você fosse simplesmente sumir da minha vida mesmo que eu te dissesse pra fazer isso, não é?” Houve a tentativa de um sorriso valsando nos lábios hidratados de Sazaya, enquanto mantinha os olhos voltados para ele. Não era uma mulher pequena, portanto acabava se distraindo com a forma como William era alguns centímetros maior e conseguiria se fazer imponente com ou sem eles, ainda que fosse tão sensível e frágil quanto ela própria se mostrava, ali, na intimidade de seu chalé. Capazes de se complementarem e combinarem até mesmo nisso, de uma forma particularmente assustadora, apesar de interessante, na perspectiva da filha de Sekhmet. “Então, tudo bem. Eu quero você aqui, e aí a gente vê o que faz.” Suspirou uma última vez, sentindo parte do peso dos últimos dias deixar seus ombros, ainda que ela soubesse que tinha muito a ser trabalhado para lidar com a outra parte da carga: conseguir lutar novamente sem toda a barreira que havia erguido. O que importava é que agora sua atenção estava voltada, principalmente, para o cheiro dele que havia ficado impregnado na ponta de seu nariz e no toque da pele dele sob seus dedos, aproveitando o contato com a nuca alheia, para subir com eles e enroscá-los gentilmente nos fios dele numa tentativa de retribuir as carícias que estivera ganhando até então.
Até acabar se adiantando, aproveitando a ausência de espaços muito maiores entre seus corpos, para poder envolvê-lo num abraço propriamente dito (mesmo que isso lhe custasse seu roupão se tornando mais folgado, abrindo minimamente em uma região que não a preocupava tanto assim, afinal). Sobretudo porque aquele abraço consistia em um gesto que, em pelo menos dois anos de treinamento, Zaya nunca havia feito até então: não daquela forma. Com tanto afeto, com tanta consideração, com tanto alívio, como demonstrava a força que aplicava nos braços ao redor do filho de Taranis. Num gesto de quem, pela primeira vez em muito tempo, não havia arruinado uma relação por si só, ainda que muito daquilo tivesse sido graças à postura do Blue, que ela ainda não sabia dizer se envolvia algo como genuína amizade e consideração, ou algo como possessividade também.
“Fico feliz que não tenha desistido de mim.” Disse em tom ainda mais baixo, aproveitando como o envolvia no abraço, apertando os olhos por alguns instantes. Sabia que sua cabeça doeria na manhã seguinte devido ao choro compulsivo, mas dentre seus problemas, aquele era o menor, de fato; e por mais que ainda levasse algum tempo até que fosse capaz de se reabituar a William em sua rotina (após quase um mês naquela coisa de fugir dele como o diabo fugia da cruz). “Por mais que isso quase tenha lhe custado o pescoço outra vez. Hoje não foi mesmo um bom dia.” Uma nova risada baixa antes de soltá-lo, mas não se afastar. A bem da verdade, gostava daquela proximidade e da forma como o corpo alheio pressionava o seu sem a adrenalina de um campo de batalha, de alguma disputa no coliseu; até porque tendo as armas que tinham, dificilmente seria conveniente deixar um chegar tão perto do outro daquela forma. E Zaya quase poderia jurar que se acostumaria facilmente àquele tipo de coisa, por mais que não fosse dizer isso em voz alta. “A última semana, em geral.” Dito isso, um suspiro pesado e involuntário deixou seus lábios. O coração acelerando em algumas batidas ao, automaticamente, se lembrar de alguns dos episódios traumáticos mais recentes, chegando a sentir espasmos em seu corpo com as lembranças; e um arrepio intenso percorrer sua espinha. “Mas eu acho que hoje valeu à pena: te tenho de volta na minha vida e, de brinde, ainda ouvi alguns dos seus pensamentos enquanto eu tomava banho.” Brincou, meneando levemente a cabeça, antes de voltar a rir em seu tom normal, algo fora do jeito sem graça e contido de instantes atrás, enquanto suas mãos agora repousavam na altura dos bíceps de William. A diversão depositada em saber que ele negaria ter feito aquilo, por mais previsível que o comportamento dele fosse. “Poderíamos aproveitar que nossos egos estão descansando agora e você poderia admitir em voz alta, não é?” O tom risonho permanecia ali, antes de sua destra subir até o topo dos cabelos de William, afagando a região com o intuito de bagunçá-la um pouquinho. Só um pouco mesmo, porque não era como se Zaya fosse capaz de olhá-lo nos olhos depois daquela provocação tão pontual; ela mesma não seria capaz de admitir o que se passara por sua cabeça nos últimos instantes e ficava feliz pelo filho de Taranis não ter a habilidade de leitura de mentes.